terça-feira, 9 de agosto de 2011

A NASCENTE DO RIO SÃO FRANCISCO





A NASCENTE DO RIO SÃO FRANCISCO


A Serra da Canastra é um conjunto
de montanhas
em forma de uma imensa canastra de couro.

As cercas de pedras costeiam os morros
desgraciosas
tirando graça de sua própria falta de graça,
como cercas naturais
até chegar a um Curral de Pedras.

A poeira esbranquiçada é um
pó de pedras
no campo amarelado pelo sol.

As sempre-vivas resistem entre as pedras.

Um casal de gaviões-carcará numa elevação de pedra
domina o horizonte.
.
O vôo negro e vermelho dos guaxos protege
os seus ninhos emaranhados.

Um tamanduá sossegado cruza a estrada e
some no cerrado.

No meio do mato uma pequena poça
cheia de girinos
se abre em dois filetes de água e
vem formar um riacho
deslizando de manso entre as pedras.

Aqui nasce o Rio São Francisco.


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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A CAVERNA DO DIABO


























A CAVERNA DO DIABO


O marco inicial da Caverna do Diabo é uma estalagmite 
da altura de três homens.
 
Milhares de estalactites descem da abóbada delicada
como agulhas
e se encostam umas às outras
como se a pele da caverna se alongasse.

A mão do Diabo sai de uma pedra.
Está pedindo socorro?
Parece a mão de um morto.

Uma pia batismal
se oferece ao crente da beleza.

A pele da pedra é a pele da beleza.

Ouve-se o silêncio da pedra.


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 (A Caverna do Diabo fica no Vale do Ribeira, SP, entre os municípios de Eldorado e  Iporanga. Pertence ao Parque Estadual do Alto Ribeira - PETAR.)




sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Êxtase em Ouro Preto





























ÊXTASE EM OURO PRETO


A luz cai de chapa nas pedras
das ladeiras de Ouro Preto.
As montanhas sonham
sob o círculo de sombra
do sol.
As igrejas desdobram-se do plano do eterno
para a terra.
As casas olham circunscritas nesse espaço de muralhas.

Os corpos domados tiram as telhas
vermelhas
das almas.
As nuvens são ovelhas
apascentadas
por um pastor louro.
Um pastor louro e quieto apascenta as nuvens e as almas.
Toca uma flauta nas águas lavadas no ar do crepúsculo.

Este não é o lugar do caos.
Este é o lugar da dor
e da bênção.
O seio
da minha mãe – Nossa Senhora! – alimenta
as crianças.

Um rito antiquíssimo
e novo
se renova de porta em porta.
Um cálice pesado como chumbo se eleva com o sangue de Deus.
O ouro do altar conjuga as sílabas sagradas do verbo do eterno.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A PEDRA


























           A PEDRA


Sou a pedra. Decifra-me 
ou devoro-te.
Mais que Deus 
sou benigna com os homens

que não decifram 
o mistério 
e morrem
como se não houvesse mais mistério.




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A PEDRA DO ABISMO





























A PEDRA DO ABISMO

O sal das lágrimas no caminho.
O mar estava próximo, com a noite em seu bojo.
A rosa desfolhada, as pétalas sangravam
entre as pedras.
Os pés sangravam.
Dói construir a cor da aurora.

O tempo vai e vem
como as ondas,
como um pêndulo.
A brasa do medo acesa no vazio
dos olhos.
Uma faca contra
o grito,
a que nem o eco responde.
O pássaro do silêncio cai morto no fundo do poço.

A lua dos mortos acena do alto.
É o vale do esqueleto,
o cemitério dos ratos brancos.
Caminho sobre o restolho
apodrecido.
Os meus pés afundam no barro ancestral.

Já nenhum resíduo
de herança:
marfim,
argola de ferro,
a ferrugem
e a pátina cinza.
O corpo de ninguém no recife das estrelas.
Uma pedra no meio do abismo do universo. 


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Veja os Campos de trigo de Gregório Vaz.

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

A ARGOLA
















 Foto da varanda da casa da minha infância - quase como era há tantos anos.


A ARGOLA

Uma argola solitária na varanda
da minha infância.
Solitária,
inútil,
equivocada:
nunca
nada foi ali pendurado.
Sempre amei as coisas que não significam nada.
Por acaso amei essa argola
de que ninguém se lembra:
enfeite,
estorvo,
encalhe. Certamente linguagem
em sua solerte mudez: memória
no poço fundo
afogada na água suja do tempo e seus dejetos.

Uma argola na varanda,
no pescoço,
nas ventas.
Onde estou, nesse espelho côncavo, convexo, vão?
A minha imagem
perdida
pendurada
na varanda
como uma argola enferrujada no fundo do poço seco
desmoronado
com a casa
e seu sangue, em silêncio.
Deus lê o meu poema com uma esquiva alegria
e nenhum escárnio. Rara a vida e a argola.


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                               Gregório Vaz deixa uma mensagem na garrafa.





quinta-feira, 28 de julho de 2011

Travessia




























A travessia

Dá vau o rio,
deste lado? Mais acima?
Eu quero o horizonte, onde a terra
acaba.
Eu quero o fim do arco-íris, na água calma
do crepúsculo.

Dá vau o rio do tempo,
dá vau o rio do eterno
correndo e parado, onde a terra se encontra com o céu?
As árvores bebem
as nuvens – são água
e os pássaros com sono
entre as folhas
e os ramos – são frutos e piam e cantam.

E eu a me afogar no rio do esquecimento
com os peixes mortos
e o latido dos cães
pendurados nos ponteiros
do relógio.
Ergo os braços da água e respiro o ar de Deus.

As casas se acendem,
as estrelas,
os aviões
e os meus olhos como dois tições
e a minha alma queima à beira da terra, à beira do céu.
A minha alma se consome e se completa na água vermelha.


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terça-feira, 26 de julho de 2011

AS ÁGUAS DA AURORA





























AS ÁGUAS DA AURORA

A casa clara brilhava tanto
que nem se enxergava onde estávamos.
Os lençóis nos varais, alvos,
coavam a luz do sol.

As jarras de leite derramado
na cozinha, no curral, no pasto largo.
A terra era nossa, deitávamos sob as árvores
ouvindo os pássaros de Deus.

O orvalho caía sobre nós
como sobre a couve e a alface.
As garças pintavam de azul o céu da tarde,
depois pastavam a terra sob as vacas.

O vento madrugava se espreguiçando
de um coqueiro a outro.
O córrego cantava claro
jogando pedrinhas nos inhames.
Eu saía a galope para além do horizonte,
nunca mais voltava.

Deitávamos na terra,
nos lambuzávamos de terra
até nos olhos, na boca, nos fundilhos.
O melro cantava no telhado verde
anunciando a claridade das águas da aurora.



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... e apresento A mendiga no blog do Gregório Vaz



quinta-feira, 21 de julho de 2011

A ÁGUA NEGRA









A ÁGUA NEGRA

A caixa d’água no escuro do sótão não dorme.
Um demônio vigia e ronca no cotovelo da escada.
Os mortos nunca estão suficientemente lavados.
Ouço no fundo do inferno o canto de Orfeu.

As idéias se afogaram no bronze salgado do mar.
Os ratos insones passeiam no cemitério dos navios.
Onde o ouro obscuro que tanto me atrai e mata?
O vento se envergonha do corpo nu de Eurídice.

Pendurei Eurídice pelos cabelos no mais alto mastro.
Os marinheiros com a garganta seca gritam de sede.
Os tambores rubros retumbam, os canhões explodem.

A guerra não tem fim, os campanários desabam no caos.
A água negra inunda a casa do sótão até o porão.
O meu anjo da guarda perde as penas das asas negras.



domingo, 17 de julho de 2011

O AFOGADO

      




















O afogado

O mar trouxe o corpo à praia.
Era um estrangeiro, jovem e belo.
A boca aberta deixava ouvir, como se viessem
do outro mundo,
as vagas do mar e os gritos brancos das gaivotas.
Eu lhe fechei os olhos, azuis como o céu
através das órbitas de uma caveira.
A sua nudez lhe tornava a pele mais pálida.
Sorria perplexo, como se reconhecesse num espelho
a nossa estranheza.
Olhando-o, nós sabíamos:
também temos, em vida, o céu nas órbitas
e a morte nas pálpebras.