terça-feira, 26 de abril de 2011

Os elefantes


  

   OS ELEFANTES

Os elefantes retiram-se para morrer.
Limpam os cascos, o couro duro, casca
a envolver uma alma, ou sua ausência.
Ouçam as ondas, ouçam os ventos, e a distância.

Os elefantes aderem à terra, à pedra, como caramujos,
como lagartos no deserto, vestidos de solidão.
Vivem à superfície das coisas, da inércia.
As cabeças pendem aflitas para o chão fundo.

Os elefantes medem as passadas, a sombra, a dor.
Marcam a terra com o rastro, como uma efígie.
Desenham a curva insana do universo, esquecidos
de Deus, eles que são a vulva da memória.

Os elefantes caminham para a terra apodrecida,
a terra da ausência. Carregam a tristeza na tromba
pensa. O sal do tempo é um convite ao abismo.
A febre iluminará o último vestígio de êxtase.

Os elefantes fecham os olhos à espera do esquecimento.
É o tempo das moscas, do zinabre úmido, da cal.
É tempo de cantar uma ode à morte, já desejada.
É tempo de debulhar as favas da morte para o eterno.


 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A ORDEM NATURAL DAS COISAS




A ORDEM NATURAL DAS COISAS

A abelha se inclina sobre o ouro da rosa,
Os peixes saltam alegres no tanque do pomar,
As crianças brincam à sombra da figueira,
O trator sobe o barranco e resfolega como uma baleia.

O girassol pende a enorme corola
Para o pôr-do-sol se renovando no horizonte,
Os pássaros se recolhem entre as folhas escuras
Saudando o fim do dia com uma última algazarra.

Os primeiros vaga-lumes acendem as estrelas.
Um sossego sem surpresas desce sobre as coisas
Com um bocejo de cansaço sonolento.
A coruja é um ponto de sombra no escuro.

A vida prossegue com a quietude de tudo:
A terra arada à espera da semente,
As plantas que nascem e morrem como os homens
E os animais recolhidos ao seu domicílio comum.

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O título deste poema é tomado de empréstimo a um romance de António Lobo Antunes.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

SEXTA-FEIRA SANTA




PRECE

Senhor, dai-me paciência para esperar.
Senhor, dai-me o silêncio das esferas
e a música, a inaudível música dos anjos.
Dai-me a palavra para cantar a vossa glória.
Dai-me a luz para ver a vossa face
e espantar-me
e cair por terra.
Dai-me a graça de ver,
refletido no lago do tempo,
o eterno.


A SOMBRA NA MONTANHA

Uma sombra cai
sobre a montanha.

É sol onde estou.
Ainda é sol.

Não desça a sombra, Senhor,
antes que eu suba a montanha.


          SEMENTES

O meu pai passeava entre os túmulos
contando a história dos seus mortos,

sementes plantadas na terra
para florescer no devido tempo.

Os mortos vieram do passado longínquo
e se plantaram para não mais morrer.

Quando chegar a minha hora de ser semente
sei que a terra inteira não me bastará

para os frutos da minha ressurreição.



quarta-feira, 20 de abril de 2011

O elefante




O ELEFANTE

Também chora em mim um elefante.
O meu peito ofega com o peso do mundo.
A porteira range, a cadeira range, e a ausência
continua a ranger noite a dentro, até hoje.

Eu olhava o relógio parado na parede
adivinhando a queda do tempo, como óleo quente.
Os lampiões lançavam sombras nas telhas
da cozinha, entre os morcegos e o picumã.

Que podem as palavras contra o esquecimento?
O queijo da infância debruça-se sobre a mesa,
As formigas fazem o seu trabalho, a aranha arma
a teia, solerte, com paciência infinita.

Somente o homem é um bicho sem paciência.
Os trabalhos e os dias, o rangido da rede
no mormaço da tarde, contra o ofício da morte.
Era tranquila a vida, quase um êxtase,

mas aprendíamos a morte. Como um elefante,
aprendíamos a morte. Sem lápides,
aprendíamos a morte no horizonte em brasa.
O olvido trincha a carne sob a campa do tempo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

AUTORRETRATO




AUTORRETRATO

Fui um cavalo com o sol no lombo
Fui um córrego no fundo do barranco
Fui o vento zunindo no telhado
Fui a casa velha caindo aos pedaços.

Havia um boi e um cachorro no pasto
Havia ossos embaixo do assoalho
Havia um poço embaixo da casa
Havia um espelho sem imagem.

Eu era o menino no arame farpado
Eram meus os ossos cruzados
Eu estava preso no poço e gania
Eu era o homem sem alma no espelho.

O tempo passou a galope na ampulheta
Foi formando no ar quem eu sou hoje
A semente morre hoje para nascer amanhã
As águas são outras debaixo da ponte.




sexta-feira, 15 de abril de 2011

Yuri Gagárin





 
YURI GAGÁRIN

– A terra é azul! A terra é azul!
gritava Yuri Gagárin no espaço sideral.

Não me lembro mais o que escrevi
nas linhas tortas do meu poema adolescente
há quase cinquenta anos.

Mas me lembro de que Yuri Gagárin gritava:
– A terra é azul! A terra é azul!

E não era preciso mais nada.
Yuri Gagárin descobriu a poesia.




quarta-feira, 13 de abril de 2011

A JORGE LUIS BORGES




JORGE LUIS BORGES

O espelho a minha frente é coisa muda,
Mas de sua mudez ele me fala:
A imagem alheia do outro lado
Me contempla longínqua e interrogante,

Parte de mim, em mim multiplicada,
E posta fora do que sou, textura
De outra pessoa, de outro sonho e forma
(No largo sono de um deus tranqüilo,

A voz se cala e deixa que o cristal
A memória de um vago ser recrie)
Ilusória assim como qualquer cifra.

Existimos, inúteis, refletidos.
Um teatro de sombras, sigiloso:
O que somos, em nosso alto crepúsculo.

José Carlos Mendes Brandão, Exílio, 1983.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cota

Transfiguração - Portinari - Igreja Matriz São Bom Jesus da Cana Verde - Batatais




COTA

Estendo a minha mão
à porta da casa dos homens.
Também quero minha cota
de pão e solidão.


ÀS VEZES NÃO ME BASTA A MORTE

Às vezes não me basta a morte.
Não me basta saber um pedaço de terra
definitivamente meu.

Às vezes não me basta o azul.
Estou de tal modo vivo
que o meu corpo não me contém.

Às vezes não me bastam os olhos.
Não me bastam os pulmões.
Não me basta um poema.

As palavras explodem no meu peito.
A terra explode nos meus olhos.
Sou apenas uma forma luminosa.


AMÉM

Sou filho da dor
e caminho orgulhoso
de meus irmãos.


sábado, 9 de abril de 2011

POEMAS SEM PENAS




              
POEMA DE AMOR

Tomei o coração na mão como uma maçã
e cravei os dentes vermelhos. Estava em êxtase,
transverberado, com toda a poesia do mundo
escorrendo dos beiços, cantando na língua.

Eu a beijei com sofreguidão, como uma bicicleta.
Ela floresceu dentro de mim, com tanto perfume
quanto um jasmineiro à noite. Mas era apenas
a poesia como um cavalo domado sob os lençóis.


HERMAN MELVILLE

Os ceifeiros são baleias no campo de trigo.


O POEMA SEM PENAS

Um poema sem penas
como uma açucena ao luar.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

PRANTO




PRANTO

Eu não quero ouvir o barranco.
Eu não quero ouvir o rio e os peixes.
Eu preciso aprender a chorar em silêncio.
A minha dor vai arrebentar as paredes.

A cabeça de boi no portal da casa
é branca como a minha dor.
O meu cavalo encostou as narinas no chão
agonizando,
agonizando com gosto de terra na boca.

As rodas da carroça gemem nas pedras.
As nuvens pesadas roncam no céu escuro.
As crianças estão geladas, duras de frio.
Os bois no pasto mugem a dor do mundo.

Os lampiões projetam sombras na cozinha,
as sombras dançam nas telhas negras da cozinha.
A fogueira no quintal lança labaredas
como estrelas desesperadas.

Eu não quero ouvir o barranco.
Eu não quero ouvir os mortos.
Eu quero chorar em silêncio
como quem morre.

O deserto cada vez mais pesado,
a noite cada vez mais pesada.
Nem se respira de tanta dor.
Como quem morre.



terça-feira, 5 de abril de 2011

O BARQUEIRO



 O BARQUEIRO

Um barco me transporta no rio largo.
A vinha carregada, uvas e vinho,
me espera do outro lado.
Por que temer, em meio ao esquecimento?

As formas se enfileiram sobre as águas,
dão-se as mãos, amorosamente.
Uma luminosidade diáfana envolve-nos.

O mistério é suave, flutua conosco.
As minhas palavras são o trigo e o fermento.

O sol doura o pão e doura a fome.
A língua canta ao ritmo dos remos.


A ALMA LEVE

Prostro-me por terra
na vinha do Senhor.

A uva tinge-me o corpo
e a alma leve.








sexta-feira, 1 de abril de 2011

MATURIDADE





MATURIDADE


Não compreendo muitas coisas, mas amo.
Não sei o que é o amor, mas amo.
Olho para mim mesmo no cristal
como quem olha para uma coisa alheia,

distante, concreta como uma pedra,
uma coisa só coisa, malgrado a vida.
Então posso amar desinteressadamente
todas as coisas, como se amasse a mim mesmo.

Atingi a maturidade de uma árvore na montanha,
ou da própria montanha, altiva no alto do céu.
Não preciso conhecer mais coisa nenhuma.
Não preciso saber para que servem as coisas.

Não preciso saber para que eu existo.
O mundo é o meu altar de sacrifício.
Eu próprio sou o sacrifício. Não sei como,
mas eu não preciso mais do sofrimento.




quarta-feira, 30 de março de 2011

ARTE DE AMAR



ARTE DE AMAR

Você se encostou num barranco.
Eu me encostei em você.
Fiz cócegas no seu sovaco,
você se riu todinha.
“Você está com a bunda suja
de terra”, eu falei e você se riu.
Eu me encostei mais em você.
Você estava fria como uma lagartixa.
Fechei os olhos e você ficou verde,
abri os olhos e você era vermelha
como o fogo, me queimava.
“Qual a cor do amor?”, eu perguntei
e você nem respondeu, vermelha só.
Passarinhada bateu asas, voou.
Você nuinha na terra vermelha.
Só nós dois sozinhos no mundo,
aprendendo as lições de amar.
O mundo é mais que um barranco,
quando se aprende a arte de amar.
 

            "Poemas de amor", 1999.



segunda-feira, 28 de março de 2011

A PALAVRA AMOR






A PALAVRA AMOR

Meu pai nunca disse a palavra amor.
Impossível imaginar.
Cumprimentava minha mãe: Bom dia!
Boa tarde!
Dava a mão. Nenhum gesto de carinho.
Mas levava café para minha mãe na cama.
A voz dele enchia a casa.
Enchia de um sossego bom que não pode ter
nome melhor que amor.
Gritava arroooi!!! quando trovejava, a gente dizia
            que era o grito de chamar a chuva
e esse grito não tem nome melhor que amor.
A gente se lembra dele, do meu pai,
            como quem reza.
Gozado! Ele não fazia nenhum gesto de carinho
            para a gente ou para a minha mãe.
Fazia doce de fio de ovos, fazia vassouras de noite
            na cozinha, trabalhava feito doido na roça,
falava da gente com orgulho, falava dos mortos
            com orgulho, dava orgulho ver ele falar,
            sempre de bem com a vida.
Para que é que serve a palavra amor?
                                              
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Li este poema no auditório lotado do SESC de Bauru, em 1999. Depois me envergonhei dele: não é um bom poema. Rasguei-o, nem me lembrava dele quando a minha prima Zilda o comentou – a minha irmã tinha uma cópia, que deu à Zilda. Depois encontrei um vídeo daquela apresentação no SESC – é um pouco mais longa, eu tentei consertá-la encurtando-a. Eu estava escrevendo os 40 poemas de amor e, sem querer (!), saiu este. Porque não era um poema de amor – à minha mulher, como os outros – e porque era ruim, deixei-o fora do livro “Poemas de amor”. Hoje, pelo que ainda possa significar, dedico-o aqui justamente à minha mulher.

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sábado, 26 de março de 2011

O poeta como anjo




                                                               
EU ERA UM ANJO

Eu era um anjo.
As asas me doíam no dorso cansado.
Os pássaros do sol
descansavam nos meus ombros.

Eu era um espantalho no milharal.
As palavras caíam dos meus bolsos.
Não havia mais nada a dizer,
eram palavras gastas pelo uso.

As árvores balançavam ao vento.
Os pássaros caíam como folhas secas.
Eu me deitei no húmus aconchegante
com as feridas expostas. 


CIÊNCIA

Estou só no universo.
Estou nu, exponho-me.
Ninguém me vigia,
ninguém dá por mim.

Penso quem sou,
infindavelmente.

Um campo de trigo,
dourado ao sol,
espera-me.

Ouço o moinho do tempo,
ensurdecedor.
Deus sabe-me,
                       mas, sábio, cala.