terça-feira, 31 de março de 2009

A teia da aranha










DIANTE DO UMBRAL

Passo a mão pela fronte
E reconheço a noite nos olhos escuros.
Diante do umbral
Com a chave na fechadura

Tenho a dor do homem nos ombros
E sucumbo.
A máquina do mundo gira nos gonzos,
As águas da memória transbordam.

Teço a teia da minha fábula,
Suplico a Deus que me anule.
O pesadelo não termina no labirinto.

Entro e saio do espelho,
Sou sempre outro.
De bruços na metáfora, colho o universo.


O MONUMENTO

Construo um monumento de cristal
Com as minhas mãos nuas.
É ilusório o mundo que conhecemos.
Quem pagará o preço do esquecimento?

Perdido no claustro terrível,
Desenrolo o novelo da pirâmide.
Sou o mesmo sonho desdobrado.
A fonte rumoreja infinitamente.

De quem é essa voz que canta?
Quem toca essa música no labirinto?
Tenho trinta moedas na cintura

E sangro no abismo.
Adivinho nos olhos do falcão
Como é longa a eternidade.


PRIVILÉGIO

As pétalas de uma estrela
caíram no meu jardim

e brilham ainda.

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O título desta página é A Teia de Aranha justamente para chamar a atenção para as fotos, mais que para os poemas. Fica o dilema: Quem é o autor? A Sônia e eu fotografamos com a mesma máquina, um depois do outro, e no fim fica difícil saber quem fotografou - os nossos estilos (ou falta de, eu diria, no meu caso - mas aí complica), também na fotografia, se parecem. Vamos dizer que a maioria das fotos são da Sônia, que se dedica mais à fotografia que eu, mais preguiçoso.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A alegria























A relva recobre o chão e viver é tão grande
O peixe me revela a cor das coisas
Sou a semente plantada na terra
Vejo na enxada o nome do universo

Vejo no perfume do pássaro a alegria
A música das águas abraça as árvores
Margaridas dançarinas cantarolam na luz
Um cavalo alazão relincha na invernada

São meus os horizontes das palmeiras
Tenho raízes e a infância grita no mato
Tenho estrume nas botas e grito para o dia

A cobra percorre o caminho da roça
O pincel do lagarto colore a paisagem
O pólen da beleza desenha a vida.

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A ALEGRIA (TAMBÉM) É MATÉRIA DE POESIA

Remexendo nos meus baús (tenho baús? Alguém ainda tem baús? Tenho um, lindo, na sala - como decoração. Mas você sabe que não é desse baú que falo), no baú de há uns 10 anos encontrei esse poema. Achei que não era de se jogar fora, tanto que não joguei. Serve no mínimo para lembrar, coisa de que eu mesmo costumo me esquecer, que a alegria - a alegria e as raízes são matéria de poesia.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Réquiem




































Parem as máquinas, parem todos os motores
Queimem os livros, as enciclopédias, todas as cifras
Todos os poemas, as palavras e as imagens
Queimem o homem e a sua verdade implausível

Morreu o poeta, o mundo não é o mesmo
A memória do próprio tempo, das árvores e das águas
Desfaz-se ao contato humano, à vigília, ao clarão da aurora
As paredes caem, os olhos explodem no labirinto

O ouro da sombra desmorona, desmorona
O azul do céu e o azul do mar são muito frágeis
Não nos contaram que era tanta a solidão

Parem as máquinas, chegamos ao esquecimento
Queimem os poemas, as imagens continuam cegas e mudas
Nós continuamos perplexos diante da porta sem fechadura.


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Igreja Nossa Senhora do Carmo, Mariana, MG; altar e inscrição tumular no assoalho. Fotos e poema de JCBrandão.

domingo, 22 de março de 2009

Testamento



Deixarei meu olhar no olhar do meu filho
Deixarei minha voz estranha como a vida
Deixarei a minha estranheza nos gestos
Na minha difícil, impossível humanidade

Deixarei o meu sorriso tímido e atrevido
Um jeito enigmático para os outros
Uma correção, um espanto, um sim e não
Deixarei, imperfeita, a minha diferença

Deixarei a minha pele, a minha delicadeza
As minhas palavras ressoando no escuro
Deixarei meus erros e meus escuros acertos

Deixarei o sentido do êxtase, tão pouco
Deixarei o quanto tenho de alma e de absoluto
Deixarei Deus, no espelho, para o meu filho.

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Idéia do poema de Adriana Godói: "O que vou deixar para os meus filhos" http://driaguida.blogspot.com/

sexta-feira, 20 de março de 2009

Folhas do outono



CENA

Na rua molhada
o cachorro morde o rabo.
Cai na poça d’água.


ALVORADA

Os lençóis no varal,
as cerejas vermelhas
e os pássaros da aurora.


AMARELINHA

As crianças gritam
pulando amarelinha
nas sombras do sol.


FLAUTA

As andorinhas no fio
como numa pauta.
Até se ouve a música.


INFÂNCIA

Barcos de papel
navegam na enxurrada
para nunca mais.


FOME

O pardal no ninho
pia com fome da mãe
e da minhoca.


ADEUS

Como lenços brancos
barcos e gaivotas chegam
no mar da tarde.


O SALGUEIRO

O salgueiro chora
lágrimas de ouro e âmbar
na luz da tarde.


OS SINOS

Os sinos de bronze
nas ladeiras de Ouro Preto.
A alma resfolega.


OUTONO

As folhas do outono
no labirinto da vida
enfeitam o caminho.


MEMÓRIA

Na sombra das árvores
a dança da borboleta
e da memória.


FIAPOS

No anoitecer da vida
alguns fiapos de nuvens
e de palavras.


GAIOLA

A gaiola aprisiona
o pássaro,
não o canto.


ASSOMBRO

O gemido da sombra
da árvore que cai.


CAMINHADA

Por mais que caminhe
não chego ao mar
nem à terra.


CRISTAL

Vejo a tua face
na gota de orvalho.


IMAGEM

A libélula
à beira d’água
se procura.


QUIETUDE

Ouve-se
o som da sombra
de uma folha.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

A harpa da palavra



INSCRIÇÃO

Passei por aqui
com o vento, as nuvens, o mar
e o sol ao crepúsculo.


À BEIRA

O poeta vive à beira
do abismo
e do êxtase.


EU SEI

Eu sei o que existe
além do arco-íris.
Mas não me importo.


KASPAR HAUSER

Sou um estranho entre os homens
com uma lua no bolso
e um punhal no coração.


D. QUIXOTE

Os moinhos de vento
não seriam nada
sem Sancho Pança.


INTERSECÇÃO

Faz sol lá fora,
mas dentro de mim
chove a cântaros.


O POETA

O bicho-da-seda
farta-se de folhas de amoreira.
Prepara o seu casulo.


KAFKA

Ficou junto à porta
até morrer.


OUTONO

Para onde quer que eu vá
sopra o vento do outono
sobre a água da tarde.


ORIGEM

O caranguejo
anda de lado na areia.
Volta-se para o mar.


NORTE

Onde o meu norte,
nuvens e folhas
ao vento da tarde.


UNGARETTI

Na harpa da palavra,
com os dedos em chamas,
vou tangendo o universo.


UM SINO

Um sino toca
e a noite cai
sobre as árvores.


OLHAR

No meu olhar
cai o orvalho
da manhã.


PEGADAS

Os meus passos na areia
cada vez mais fundos.
Como é longo o dia!


BARCOS

Nuvens brancas no céu azul.
No azul do mar os barcos
e suas velas brancas.


A SIRIEMA

A siriema passeia
no pasto verde
perto dos hibiscos.

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Foto: Sônia Brandão

segunda-feira, 16 de março de 2009

Cacos



SER

Ser ou não ser?
No momento antes da aurora
tudo é sonho.


ALTAR

A rosa e o vinho sobre a mesa
como sobre um altar
esperam o poeta.


O PERFUME

Guardou na pele
o perfume daquela noite
como uma alma.


AS FOLHAS

As folhas giram no ar
e caem na água
entre as pedras e o silêncio.


O PIANO

As cordas caladas
do piano na noite.
A música em mim.


O HORTO

O horto em silêncio.
A lua entre as árvores
e o cheiro de alecrim.


DEGOLA

Degolo de um golpe
o poente e a aurora
e crio a beleza.


QUEM CASTROU

Quem castrou
o gorjeio do pintassilgo
no cipreste?


O VELHO

Sou um velho sem memória.
A minha casa caiu.
Cubro-me de cinza e morro.


A CHAVE

Como uma chave na porta,
pássaros, pedras e peixes
se inscrevem no meu desígnio.


XADREZ

Jogo xadrez
com as estrelas
no tabuleiro da noite.


COMPOSIÇÃO

Pedra a pedra o poema,
com a água, a argila
e as pétalas da rosa.


CACOS

Anterior ao paraíso,
somos os cacos do cântaro
ao sol e à chuva.

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia da Poesia



REGISTRO ANTECIPADO


Deu no jornal:
A POESIA MORREU.

Explodiram manchetes:
ENTERRADO O ÚLTIMO POETA E QUEIMADOS SEUS POEMAS.

Os governos baixaram leis:
PROIBIDO ESCREVER POESIA.

A ciência decretou:
A POESIA É INÚTIL. CAUSA CÂNCER E AIDS, ALZHEIMER E CEGUEIRA SÚBITA.

Todos os livros foram queimados. Perigo suas palavras se transformarem em poesia.

Todas as palavras foram canceladas. Proibido escrever ou simplesmente falar.

Ainda se estuda uma alternativa. O que substituiria a palavra? Imagens? Mas a imagem se transformaria em poesia, essa excrescência.

O homem fala por natureza. A fala por natureza se transforma em poesia. Impossível castrar-se a fala? Elimine-se o homem da face da terra. Elimine-se a ideia de homem.

Construímos máquinas tão perfeitas que se comportam como homens. Eliminem-se as máquinas: nada que lembre o homem. As máquinas acabariam criando poesia.

Tudo está solucionado:

A POESIA MORREU.

ENTERRADO O ÚLTIMO POETA
E QUEIMADOS SEUS POEMAS.

ELIMINADO O ÚLTIMO HOMEM.

ELIMINADA A MÁQUINA,
QUE SE COMPORTAVA COMO O HOMEM,

FALAVA E ESCREVIA
E CRIAVA POESIA.

Isto está sendo registrado antes que aconteça. Depois será impossível. A palavra, o homem, a vida serão impossíveis. Tudo culpa da poesia.


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Homenagem ao Dia Nacional da Poesia - 14 de Março - aniversário de Castro Alves.

O cheiro da terra



O ORVALHO

Não ouvi bem
o que a gota de orvalho
disse à pétala de rosa.


O CHEIRO DA TERRA

A chuva sobre as flores
e o cheiro da terra úmida
na tua pele arfando.


DESERTO

Penetro no deserto
em busca da aurora
que engendro.


O TEU CORPO

Lembro o teu corpo
debaixo d’água
brilhando para mim.


SOMBRAS

À luz da lua
as nossas sombras
se misturam.


LUA NOVA

A lua nova
entra cantando
pela porta.


ÓBOLO

O poeta escreve na areia
as imagens da memória.
Um óbolo ao esquecimento.

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Leveza



MAS QUEM?

Quem pisou os espinhos,
deixou o sangue nas pedras
e voou com as andorinhas?


REMEMBER

Lembrai-vos da dor.
Depois nem de Deus-Abismo
será possível esquecer.


A ROSA DE OURO

Quero a rosa de ouro.
Quando o unicórnio do tempo
volta para Deus.


EXÍLIO

Exilamos a palavra,
a rosa e a pedra de Deus
e de nós fomos exilados.


ENTRE

Entre nascimento e morte
a solidão da pedra
sob o cipreste azul.


LEVEZA

A terra me seja leve.
Não me afaste do mar
nem de Deus.


LOUCURA

O poeta enlouqueceu
e nunca mais interrompeu seu canto.


(Foto: Sônia Brandão)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Junto à fonte



JUNTO À FONTE

A rosa floresce,
junto à fonte interminável
abre as pétalas de luz.


OFERTA

Ofereço os meus olhos
ao esquecimento.
Amo o deserto de Deus.


O VENTO

A vida me exclui.
Somente o vento ouve o meu grito
e a música dos meus ossos.


AMOR

Amo a rosa e a pedra.
Florescem no meu jardim
ao mesmo tempo.


QUIETUDE

A árvore cresce no deserto.
Na quietude da areia
a noite prepara a aurora.


O FIGO

O figo estourou.
O sol tocava a flauta
do vento.




Dizei uma palavra
e a pedra florescerá.
(Mas a pedra é uma flor.)

terça-feira, 10 de março de 2009

Ubi sum



UBI SUM

Que lugar é este?
Que plaga do mundo?
Tudo é mar no horizonte.


A ESFERA

Quem me deu esta forma?
A esfera do tempo me excede.


HORIZONTES

O barco me espera.
O sol brilha no horizonte
depois do horizonte.


VOO

O corpo floresce.
A alma dentro d’água
e a papoula na janela.


AVE MARIA

Rogai por nós, Senhora,
agora e na hora
do esquecimento.


PERSISTÊNCIA

Os jacintos floresceram
depois de mortos.


VERÃO

Só uma andorinha
com a luz do sol nas asas
faz todo o verão.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Menina Cega




Num lugar qualquer do mundo,
Uma menina cega, que eu não conheço, pensa em mim.
Olha para um lado, talvez para o outro,
E derrama uma lágrima num canto do olho

Por mim, que ela não conhece.
A menina cega pensa em mim
Como um morto anônimo, um fruto podre caído no chão,
Uma folha morta, uma árvore morta, um rio morto.

A menina cega pensa em mim
E vê a imagem de mil pássaros mortos à beira do rio,
Como pequenos anjos exterminados, sob uma única árvore morta.

O ar asfixia, mata; a terra se parte e esfarela, inútil.
Os homens morrem, inúteis.
A menina cega sabe e chora uma lágrima inútil, por mim.


(Foto de Sônia Brandão)

domingo, 8 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher




A ROSA

O seu perfume permanece mesmo depois que foi cortada
E repousa no vaso, na mesa da sala.
Ando na ponta dos pés para não acordá-la.
A casa paira no ar com o seu perfume.

É vermelha como sangue.
Eu me aproximo devagar
De uma pétala caída na tolha branca
E a levo com cuidado aos lábios.

A rosa no vaso é eterna,
A pedra do tempo não pode assassiná-la.
Entro em êxtase com o seu néctar.

É a imagem da mulher vinda do fundo do mistério
E modula com a língua do silêncio
A palavra essencial.


(Foto de Sônia Brandão)

sábado, 7 de março de 2009

O Paraíso do Matão



OS FRUTOS DA TERRA

Os frutos no chão,
as palmeiras, o mar
e as ondas na areia.


SAUDADES DO MATÃO

Nasci no Matão.
É o meu Paraíso Perdido.
Eu sou quem sou.


O PARAÍSO PERDIDO

Nasci à sombra da figueira
com as raízes na terra
e os olhos no céu.


A SARÇA ARDENTE

No mar de coral
encontrei a sarça ardente.
Deus está em todo lugar.


POR QUÊ?

Por que a vida e a morte?
A vida é a árvore verde,
a morte é o céu azul.


ALHEAMENTO

Estava vivo
deitado embaixo da terra.
Como nós, não pensava na morte.


INQUIETAÇÃO

Quem pagará o aluguel
do meu túmulo?


ALEGRIA

As crianças gritavam de alegria.
O ribeirão voava sobre as casas
com toda a luz das suas águas.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sempre o mar



DESTINO

Os homens, como os rios,
correm para o mar.


QUEM?

Quem ouve o meu grito?
Tomo o cântaro de barro
e sacio a sede.


A RÃ

Um inseto na língua,
a rã coaxa no lago
contra o espelho das águas.


A MEMÓRIA

A memória das árvores
permanece além das cinzas.
Um pássaro canta.


A VELHA

Sonhei com a velha.
Vinha vestida de branco
e me amortalhava.


SOMBRA

Uma ave obstinada tecia
com uma agulha azul
o círculo de sombra do relógio.


O MAR

O mar era o início.
O mar é alguém, ninguém.
Eu estarei no fim?


(Saco da Ribeira, em Ubatuba, SP.
Foto e poemetos de JCBrandão.)

quinta-feira, 5 de março de 2009

E agora, José?



SONO

Os olhos do andarilho
beberam todas as paisagens.
Deixa-os dormir, deixa-os dormir.


AS PEDRAS

As águas passam
e levam as folhas das árvores.
As pedras, polidas, ficam.


A CORUJA

Ouça a coruja
pendurada na janela.
Canta para mim.


REPOUSO

A pedra descansa
com as folhas do carvalho
e as patas dos cavalos.


E AGORA?

E agora, José?
No alto da montanha
cantas mais alto.


VIAGEM

Sob a figueira da manhã,
sob a água do ribeirão,
o meu cavalo me espera.


CREPÚSCULO

O toque do sino
e a coruja no sótão
encerram o dia.


Foto e poemetos de JCBrandão

quarta-feira, 4 de março de 2009

Cinzas



MAS

Tinha a garganta cortada
e os olhos vazados,
mas ouvia os pássaros.


FÊNIX

Das cinzas da palavra
voa um pássaro.


AS CRIANÇAS

Os cabelos dourados
das crianças no pomar.
Cantam macieira acima.


O MELRO

O rio calmo.
O melro canta
imóvel como a água.


PERMANÊNCIA

Só restaram cinzas
sobre a terra nua,
mas era uma árvore ainda.


A PASSAGEM

As árvores esperam
a passagem do rio
que não passa, não passa.


NA NÉVOA

Na névoa do vale
as pedras à beira d’água
absorvem a luz.

terça-feira, 3 de março de 2009

Águas



O RIO

O rio deflui,
banha as folhagens do dia
e o corpo da mulher.


A MAÇÃ

A maçã repousa
com a macieira, o rio e o vento
no linho da mesa.


O SAL

O sal sobre a rosa,
a névoa sobre os pinheiros
e a terra sob o mar.


BUSCA

Mergulho no escuro,
busco o brilho das estrelas
no abismo de Deus.


A CONCHA

A casa é uma ostra
no fundo do mar.


SABEDORIA

Seja sábia de dia,
seja sábia à noite, ó alma.
Desce a névoa que esperas.


A ESFINGE

Decifra a pedra
da paisagem submarina
e morre enfim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

pedras



A PEDRA NO LAGO

A pedra no lago
de círculo em círculo
não deixa vestígio.


ASCENSÃO

A ascensão da encosta
passo a passo. Na subida,
o assobio do vento.


A LIBÉLULA

A libélula mergulha
com a montanha nos olhos.


AGONIA

A agonia da canoa
de borco na areia
para sempre.


AS RUGAS

Os passos na areia
como um caranguejo
as rugas na cara.


ESTRELA

Passei por aqui
plantei esta pedra
palavra de sombra.

domingo, 1 de março de 2009

Marcas



MARCAS

Os passos na areia
por mais que os apague o mar
indeléveis marcas.


ENCONTRO

No fundo do lago
os peixes dourados
e a imagem das árvores.


SOLIDÃO

Quando penso em solidão
penso numa pedra.
Espero florescer.


LÁGRIMAS

Lágrimas no olho do pássaro
o canto quebra a pedra
de tão belo.


AS CRIANÇAS

De onde vêm, para onde vão
as crianças rindo
ao pé da montanha?


VAI-SE O PÁSSARO

Vai-se da pedra o pássaro
como se não tivesse
mais esperanças.


AS RAÍZES

As raízes da árvore
dentro das paredes
da casa em ruínas.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

12 pétalas

Foto: Sônia Brandão

AS PÉTALAS

As pétalas da rosa
são a rosa
queimando no fogo.


A MULHER

A mulher erguendo a mão
para a macieira
em chamas.


DEITADOS

Deitados sob a árvore
o amor nos chamava
da cascata de estrelas.


MORREMOS

Morremos com cada morto
que enterramos.


A POMBA CAI

A pomba cai do céu azul
sobre as línguas famintas
das pedras.


ABANDONO

Abandonei o meu corpo
na praia
olhando o mar.


O CÁLICE

Beberei do cálice
até a última gota.


UM EPITÁFIO

Palavra na pedra
o poema é um epitáfio.


SOL DE MOSTARDA

Ao sol de mostarda
corre o rio para o mar.


A POEIRA

A poeira se eleva
as cinzas do meu pai
caem no mar.


OS CAVALOS DO MAR

Os cavalos montam
as ondas do mar
nas praias do fim do mundo.


O OLHO

O olho no galho da roseira
alto, lúcido e belo
como uma rosa sangrando.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Nasce um poeta



Não me lembro, naturalmente, do primeiro livro que li. Mas o primeiro livro de poesia que li lembro bem: “Os Simples”, de Guerra Junqueiro. Foi quando descobri que o poeta era um cara de carne, osso e pescoço como a gente. E que a gente simples da roça, os bichos, as árvores, o ambiente da minha infância, enfim, podiam ser matéria de poesia. Portanto, se eu me esforçasse, se aprendesse as manhas, as técnicas do ofício, poderia também ser poeta.

Já quiseram me desqualificar essa lembrança, talvez num elogio: eu seria poeta de qualquer forma, encontrando-me com Guerra Junqueiro ou não. Talvez, mas para mim, se não foi essencial, foi tão bonito esse encontro que é como se fosse essencial.

Eu era seminarista em Rio do Oeste, SC, quando me caiu nas mãos um exemplar velhíssimo, que tinha todo o sabor de novidade do mundo. Nos livros escolares eu já lera poemas de Camões e Bocage, Bilac e Alphonsus de Guimaraens ou Cruz e Sousa: não eram gente, mas entidades algo abstratas. Guerra Junqueiro foi o primeiro poeta que eu conheci. Era um homem como o meu pai, o meu avô, os homens da roça que eu conheci.

Abra um livro e encontrarás um homem – nunca um adágio caiu tão bem. Abri “Os Simples” e foi uma iluminação. Eu descobri que a palavra tem mais poder do que dar nome, convencionalmente, às coisas. A palavra criava as coisas. Tinha o poder de criar o mundo.

Os poemas são órgãos ligados por artérias especiais ao poeta que os criou. São partes do poeta. O conjunto desses poemas, um livro, é o poeta. Posso estar exagerando, querendo assim pagar uma dívida a Guerra Junqueiro, mas é o que sinto, o que intuo, com força de verdade: somente o livro pode revelar o poeta, não poemas isolados, por melhores que sejam.

Continuarei esta crônica para falar um pouco mais de Guerra Junqueiro, para tentar explicar por que ele foi importante para mim, embora já tenha dado a resposta: porque no seu livro “Os Simples” encontrei um poeta, e descobri que o poeta é um homem.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sem palavras

Foto: JCMBrandão

Caímos no exílio
sem palavras
nem outra paisagem.


PREGOS

Eu pregava pregos
como se não fosse
o meu caixão.


EMBRULHO

Adivinhou a cor do embrulho
e caiu em silêncio profundo.


A MORTA NA CAMA

A morta na cama
com lírios brancos nas mãos
e o eterno nos lábios.


A ETERNIDADE NAS UNHAS

Tinha a eternidade nas unhas
limpas do sangue
derramado.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quarta-Feira de Cinzas


Altar da Igreja Matriz São Joaquim, de Igaraçu do Tietê, SP,
que frequentei na minha infância.


2Co 4, 7

Temos um tesouro
a excelência de Deus
nos vasos de barro.


A ESCADA DE JACÓ

Sobe a escada de Jacó
e luta contra o anjo,
luta contra Deus.

Homem, tua derrota
será tua vitória.

Tua hora é agora

e o teu túmulo,
o poema.


SENHOR, A NOITE É NOSSA

Senhor, a noite é nossa.
Teu corpo nos agasalha, Senhor.
Teu sangue nos alimenta.
Nós quebramos o espelho

E escorre sangue da tua imagem, Senhor.
As estrelas choram conosco.
Somos como camelos alongados na areia
Em busca da sua própria sombra.

Palavras são tudo que nos resta
Em nossa pobreza
E são secas como a pedra e a areia.

Senhor, tende piedade de nós.
Temos só o teu corpo
E o teu sangue, Senhor.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Cavalgada



A MENINA LOUCA

A menina louca
uiva para a lua cheia
no nevoeiro.


A CECÍLIA MEIRELES

Pastora de nuvens,
navegas no mar antigo
e no espelho lívido.


CAVALGADA

Além da linguagem,
a nuvem sacode a crina
e cavalga o poema.


FLOR DO LÁCIO

Lavrei a palavra
mamei nas tetas da língua
a Loba de Roma.




O boi e o cavalo
mantêm o mundo girando
na moenda do tempo.


ÁPICE

O mito da vida
chega ao fim
e nada se conclui.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Lavrador



O LAVRADOR

Lavro a palavra
com o arado
quebrando pedras.


PASCAL

O silêncio eterno
do abismo infinito
me alucina.


O CÉU

Toquei o céu
com as mãos nuas.
Sangraram.


IDEAL

O círculo perfeito
do pássaro
no abismo.


CONTRA

Contra mim mesmo,
amo a morte antes de tudo.
Depois a estrela do mar.


DOMICÍLIO

A morte será
o meu domicílio
enquanto viver.


MÉTODO

O poeta escreve
com estrelas, pedras, pássaros.
Não com palavras.


AS AFOGADAS

As filhas das estrelas
se afogaram
no mar.


O VASO

Um vaso de barro
o desenho de uma jovem
renasce das cinzas.


A LUA AZUL

A lua azul se levanta
sobre o pinheiro verde
e mergulha no lago.


O ARAME FARPADO

O arame farpado
entre o olhar e o nevoeiro
estrangula a paisagem.


A SEMPRE-VIVA

A sempre-viva
entre as pedras da Canastra
sorri ao sol.


POSE

Na terra molhada
do canteiro de buganvílias
a pomba posa para a foto.


O MORTO

Quem eu fui morreu.
Não sou um outro no espelho,
mas ninguém.


NADA

Não me sobrou nada.
Perdoá-los por quê?
Um morto não esquece.


RETORNO

Ainda retornarei
à mínima desordem
do mar.


ECLIPSE

Nas pétalas de magnólia
te exilas
em mito transmutada.


ELIPSE

A morte
separa a rosa da sombra
no abismo.



O Lavrador + 17 poemas à escolha do leitor.
21-02-09
Fotos: JCMBrandão

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O arco-íris



O arco-íris
atrás das grades
chora sobre a cidade.



_____

em alemão:
Der Regenbogen
hinter Gittern
weint über die Stadt.


e em Sérvio:

Kišna duga
iza rešetaka
plače iznad grada.


ou:

Кишна дуга
иза решетека
плаче изнад града.

por  Miroslav B. Dusanic




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O teu silêncio

Foto: Brandão

O teu silêncio
Pousa em mim
Com todas as estrelas.

Como o teu silêncio
trouxe tanta luz?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Êxtase

Foto: Sônia Brandão

Arranquei os olhos
para a rosa.

Arranquei o coração
para a noite.

Entro em êxtase
com a rosa da noite.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ninguém

Foto: Brandão

Tinha formigas na boca
Tinha cal nos olhos

Tinha o coração na avalanche
O gavião gritava na torre

As pedras despencavam na montanha
Os pinheiros se contorciam na encosta

Os oleiros suavam barro e sangue
A chuva devorava o desejo

As águas afogavam os cavalos
Os corpos das crianças no monturo

As árvores cobertas de cinza
A angústia no nevoeiro

A carne podre do abutre
No azul da alma de Deus o esquecimento.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A companheira de viagem



A morte é minha companheira de viagem
Para que eu não me esqueça da paisagem
Para que eu sinta a eternidade
Vamos de mãos dadas

Olha a árvore que passa
Olha a sombra na água
Olha as cinzas da rosa
A morte é minha companheira de viagem

O anjo se eleva ao céu na nuvem de fumaça
Sou a face de Deus generosa
Sou a criança com um pássaro na mão
E o pássaro vai voar, vai voar

O cavalo carrega o sol no lombo
Eu carrego a morte nos ombros
Ela me conhece e conversa comigo
A morte é minha companheira de viagem.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

O milagre

Gabriela Barreto Santos

A flor da cerejeira está brilhante.
Uma gota de orvalho se equilibra.

As abelhas voam, revoam.
O canário trina em sua flauta.

O barco na corrente dorme sossegado.
Um homem se aproxima com a bênção

do sol nos olhos: a manhã é um milagre.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A casa do lago



A casa do lago é um poema
refletido na água
com peixinhos na varanda
e arco-íris por todo lado.

A casa do lago navega
vai só até ali
na outra barranca
depois volta balançando feliz.

A casa do lago quieta
sob duas árvores floridas
de janelas abertas e floridas
espera por mim.

A casa do lago verde
sobre a água verde
com os seus pássaros verdes
canta para mim.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A coruja verde



Uma coruja verde está pousada
no aparador de minha sala de visitas.
Tem os olhos voltados para a direita e a esquerda,
mas sei que está me olhando.

É feita de uma madeira leve, a balsa.
Não sei por que a pintaram de verde,
mas foi uma feliz ideia:
imagino a coruja amanhecendo
como uma árvore.

A cor da sabedoria deveria ser o verde,
como uma árvore que vai florir
e voar com tanta claridade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Eça e Machado



Josué Montello diz que há escritores de uma língua e escritores de uma literatura. O escritor de uma língua não pode ser transposto para outra sem ser desfigurado, tornando-se irreconhecível. Seria o caso de Eça de Queirós. Enquanto o escritor de uma literatura pode ser transposto para outra língua, como Machado de Assis. Justificando-se assim porque Machado se universaliza, e Eça não, porque as traduções o desfiguram.

Não penso assim. Para mim, Machado é escritor universal, expressa uma visão do mundo que é do Brasil, mas também da América Latina, dos Estados Unidos, da Europa. Eça de Queirós seria o escritor de Portugal, que retrata o sentir português do mundo. Daí a dificuldade de ser traduzido, sentido e apreciado fora de Portugal. Eça escreve para os portugueses, é escritor de uma pátria, ao contrário do apátrida Machado de Assis.

Não conheço as traduções de Eça e suas repercussões no exterior. Mas posso falar bem do nosso tão brasileiro Machado, que eu acabei de chamar de apátrida. Pois tinha um humor tão refinado, intelectualizado, feito de minúcias pegadas a pinça de um Swift, de um Sterne, de um Xavier de Maistre, de um Fielding, etc., e até de um Garrett tão português, que no Brasil tínhamos dificuldade de chamá-lo de brasileiro. Demorou, talvez tenha sido preciso até que estrangeiros viessem aqui estudá-lo, para descobrirmos o quanto brasileiro ele era, na essência, não nas aparências.

Não quero dizer que Eça de Queirós seja menos universal. Quero dizer que sinto Eça como muito português. Com páginas deliciosas, deliciosamente portuguesas. Para mim Eça é o escritor de uma pátria, ao contrário do que diz Josué Montello. Eça é bem português e a paisagem portuguesa mais que presente em tudo que ele escreve, a paisagem física ou humana. Machado e Eça, os dois fizeram muito pela língua portuguesa, pátria de ambos. Como do maranhense Josué Montello, que também fez muito pela língua portuguesa.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

A eternidade e outros treze poemas



A ETERNIDADE

A eternidade na linha do horizonte.
A eternidade é a linha, no horizonte.


A TUA FACE

A tua face dividida
ao meio, no relógio.


A NOSSA MORADA

Muitas vezes saímos à janela,
muitas vezes saímos de casa,
viajamos, conhecemos, trabalhamos, sempre voltamos.
O esquecimento é a nossa morada.


ROSAS

Cortei uma braçada de rosas.
Amanhã cortarei outra braçada de rosas.
Sempre haverá novas rosas para cortar.
Enquanto eu existir, haverá rosas.


O AZUL DE DEUS

Eu beberei do azul de Deus todos os dias.
A pedra sangra, o relógio sangra, a rosa sangra,
os meus olhos caem por terra com os pássaros mortos.
Eu navego calmamente no mar azul de Deus.


O MEU CAVALO

O meu cavalo come na minha mão.
As minhas árvores e os meus pássaros cantam.
O meu universo está em ordem.
A terra espera as minhas raízes.


ESCREVO

Componho a face do tempo no espelho.
Sou uma pérola na concha e escrevo.
Bebo o vinho do olvido no mar e escrevo.


EU QUERO A ROSA

Eu quero a rosa.
A pedra na minha mão vai florescer.
Da palavra na minha mão a pedra vai florescer.


VELÓRIO

O último a sair
feche os olhos do morto.


ADEUS

Os mortos sempre acenam em despedida
aos que ficam.


SOLIDÃO

O homem é só como uma flor de pedra no deserto.


VERÃO

O pássaro carrega o verão nas asas
e no canto.


FÊNIX

A palavra renasce das próprias cinzas.


O CÂNTARO INEXTINGUÍVEL

Quem bebe da palavra pensa no cântaro
e em quem fez o cântaro inextinguível.

Fênix


A palavra renasce das próprias cinzas.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Numa fenda

Foto: Brandão

Numa fenda
entre as pedras do muro

uma rosa
e um pássaro esmagado.

O muro ruiu



                                                O muro ruiu.
                                                As pedras soterraram

                                                os olhos, a língua, as palavras.



O pêndulo

Contempla a estrela
em silêncio na montanha –

o pêndulo do universo
dizendo sim, não, sim, não

no deserto.