quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Insônia
Que navega no mar verde da terra?
Os dias se atropelam entre os peixes
E um ponteiro suspenso do velame.
Um boi moroso pasta o meu sonho
No palco azul do barco naufragado.
O meu cão morto, dentro de uma lágrima,
Esquece quem sou, ao pé do meu túmulo.
A água da noite cai sobre a cidade
E enferruja a janela da paisagem.
Deus modelou o barro do tempo
Para que concebêssemos o eterno.
Monto no meu cavalo e cavalgo
Com o pêndulo roxo do universo.
Os discípulos de Emaús
Conversam com o pescador solitário
Mas não o reconhecem.
Revela as escrituras, o verbo de Deus
Diz que é tarde, virá numa rede de estrelas
Os homens abrem os olhos, mas não vêem.
As portas se abrem, o estranho entra com eles
Senta-se à mesa, fala da água do caminho
Mas não o reconhecem.
Trazem o pão, o estranho o parte
Os olhos se abrem e vêem
O Senhor caminhou com eles, ensinando.
Os homens não conseguem ver Deus
Estamos sós, ficai conosco, Senhor.
(Sempre quis fazer um poema com este tema. Ei-lo. 7-12-08)
A Árvore e a Cruz
Dois galhos abriam-se como dois braços.
Era uma estranha forma de beleza
Algo de perigo, mistério ou sagrado.
Um líquen avermelhado coagulara-se pelo tronco
Onde deveriam estar os pés e mãos do crucificado.
Umas poucas folhas verdes, muito delicadas
Procurei e descobri escondida uma flor, já seca.
Sem pensar estendi os braços na cruz
A lua tingiu-se de um vermelho opaco
Um vento frio feriu-me as faces
E inesperadamente caí em mim:
A nostalgia é um sentimento universal
O homem busca suas origens; às vezes encontra-as, na cruz.
(A Árvore e a Cruz era uma crônica publicada no jornal A Tribuna, de Santos, em 1978. Mas foi concebida, a exemplo de Jorge Luis Borges, como poema. Daí, foi fácil hoje dar-lhe forma de poema. 8-12-08)
A copaíba
ODE À CIDADE - a Bauru no seu centenário
foto: Nilton Scudeller
Saída de Itaguá
O barco descansa na praia
A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol
Urubus ao lado esperam inquietos
Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar
As ondas brancas quebram-se na areia
O peito branco dos atobás eleva-se muito alto
Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas
Para os urubus e depois para os atobás no mar
Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica
Onde o mar desenhou árvores delicadas
Procuro as flores e os frutos nos galhos
Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha
O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar
Como um cachorro o universo lambe os meus pés.
(Crônica já apresentada aqui, mas como era mais poema que crônica, apresento-a agora em novo formato, de poema. Era tanto poema, tão síntese como um poema quer ser, que não lhe suprimi nenhuma palavra.)
(8-12-08)
viagem
o céu azul e as nuvens brancas
sobre o campo verde as árvores
verdes e os bois até os bois verdes
porque tudo é verde nesta paisagem
uma colina verde se ergue contra o
céu azul agora com mais nuvens
muito brancas e um eucalipto verde
perfurando-as e logo muitas árvores
engolem a estrada como um abismo
verde e aquela nuvem branca todas as
nuvens são brancas aquela nuvem branca
é um bebê engatinhando no azul cerúleo
e uma garça leva o bebê no bico leve
o bebê que se esgarça como paina leve
no azul do céu sobre o campo verde
(25-12-08)
êxtase
o lagarto abana a cauda
ergue as patas pesadas com sombra
e a língua vermelha aponta o caminho o
corpo rajado sobre a sombra
no cimento negro entre a folhagem verde
tanto verde a língua se estende
vermelha entre o verde adora a borboleta
branca e vermelha e o beija-flor quieto no galho
os olhos do lagarto e os olhinhos do beija-flor
se encontram e se encantam na tarde clara em
cantante êxtase
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Cony e eu
Alguma coisa nós temos em comum. Algumas coincidências no mínimo curiosas. Veja só: Cony não falou até os cinco anos, depois tomou um susto e desandou a falar, mas errado, ininteligível, como se tivesse a língua presa. Tinha. Foi operado com treze anos, mas ainda não falava coisa com coisa. Era a dislexia no caminho. Fez exercícios com bolas de gude na boca. Acabou falando até profissionalmente.
Eu falava errado e era motivo de gozação para todo mundo. Aprendi a falar com quinze anos. Estava no seminário e me autodiagnostiquei uma provável dislexia. Como não fui orientado por ninguém, não fiz exercícios com bola de gude, mas com pedras mesmo, como Demóstenes. Aprendi a falar e, praticamente só então, a ler e escrever.
Cony foi para o seminário com uns doze anos, eu também. Ele porque queria fazer bonito. Eu porque não sabia dizer não. Saímos quase oito anos depois. Cony diz que perdeu a fé, e a saída do seminário foi traumática. Deve ter jogado um palavrão na cara do padre Reitor como eu: isso é motivo para uma saída traumática. Eu um dia voltei à religião – e ele afirma que, se pudesse voltar atrás, se ordenaria padre.
Cony fez curso de línguas neolatinas, que não concluiu. Eu sou licenciado em Letras Vernáculas, tenho registro do MEC de professor de português, francês e latim, mas não me formei em neolatinas por teimosia. E as coincidências acabam aí, já é muito, não?
Mas vou dizer ainda que o primeiro livro de Cony que li foi “Informação ao Crucificado”, que narra a sua experiência de seminarista. Escrevi também um romance narrando a minha experiência. Ganhei o Prêmio Nac. de Lit. “Cidade de B. Horizonte” com ele, mas não foi publicado. Então, apresentei-o ao Prêmio SESC de Literatura e ficou entre os finalistas. Cony era um dos jurados e acredito, como consolação, que tentou premiar seu irmão espúrio.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Autorretrato
Manuel Bandeira tinha um piano na alma
Com o teclado à mostra.
Eu, rilhando os dentes,
Carrego um piano nas costas.
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(Autorretrato é o meu último poema de 2008 e primeiro na nova ortografia.
Auto-retrato é um justamente famoso poema de Manuel Bandeira. Agora rebaixado a Autorretrato. Deveria haver um adendo nas leis ortográficas: não mexer no título das obras consagradas, aliás, em nenhuma palavra do texto. Nem nas maltratadas ou esquecidas pelo tempo, esse juiz implacável, às vezes injusto como qualquer juiz.)
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Inventário

O inventário de seus destroços é o melhor poema de Robinson Crusoé. Retorno a essa idéia de G. K. Chesterton porque não vejo melhor diante do inventário deste ano que se finda. É impossível fazer-se o inventário completo de um dia ou um ano. Mais fácil, portanto, fazer dos seus destroços. E mais importante. Essencial. O que sobrou, o que não pereceu é o que realmente interessa.
Álvaro Moreyra diz que nos recordamos com saudades do passado, mesmo que então tenhamos sido infelizes. É uma felicidade o próprio ato de recordar. Nada, quando lembrado, é jogado fora.
Queremos desesperadamente lembrar, mesmo que o excesso de memórias nos sufoque. Como aconteceu com Funes, o Memorioso, de Borges, que lembrava cada palavra, cada nuvem, cada folha de árvore. Mas Funes era um personagem de ficção. A Borges interessava-lhe a memória, como parábola do tempo ou do próprio universo.
Queremos desesperadamente lembrar, como se esquecer fosse uma doença terrível. Como se o Alzheimer nos atacasse em cada pequeno esquecimento, no mínimo desvio de atenção.
O que sobrou de 2008? O que é importante desse ano que passou? A nossa memória é falha, lembramos as coisas próximas, as mais risíveis ou pitorescas, às vezes as que mais nos fazem sofrer. Por que não falar do que houve de positivo? De tudo que construímos neste ano?
Abrir os olhos à luz, respirar o ar puro, sorrir, alimentar-se, sentir o fluxo da vida. O dom da vida, a beleza da vida, essa graça é salva do naufrágio sublimemente. Nem percebemos que o próprio ato de viver faz parte do inventário de tudo de precioso que salvamos, que levamos para o próximo ano. Deus seja louvado pela vida e pela morte, que nos faz sentir mais vivos, que nos faz sentir mais precioso o dom de viver.
Levamos a vida para o ano que se inicia. A vida é o que permanece.
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"O velho está morrendo!", lamentava meu pai todo final de ano. "Quem?", todo mundo perguntava, como se a piada fosse nova. A piada era nova.
Rei morto, Rei posto. Feliz 2009 para todos!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Árvore de Natal
Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.
– Vamos! Vamos!
– Vamos onde?
– O Papai... Papai foi...
Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali. Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.
Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.
– Olha!
– Olha o quê?
– Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou: – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?
– Pro cemitério.
– Psiu! Fala baixo. Papai percebe.
– Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem... sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?
– Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!
Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente. Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.
Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.
– Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:
– Mamãe foi assim.
Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:
– Tudo tá chorando com a gente.
E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!
E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.
E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.
(conto de 1965, publicado na revista "Allere Flammam" do Seminário Santa Teresinha, de São Manuel, SP.
