DIÁLOGO COM DOMENICO DI BIASI
Escrevi uma
crônica para o jornal “O Democrático”, de Dois Córregos, SP, que diriam ser uma
paráfrase de Domenico de Biasi e seu “Ócio criativo”, mas foi publicada em1973,
muito antes de ele ter lançado a sua célebre teoria:
Dois Córregos: Tédio e Ócio
Louvavam os antigos romanos as horas de ócio. Horas em que o homem se
encontra consigo mesmo, contempla uma rosa, um pássaro, um poente, o sorriso de
uma criança ou os cabelos brancos de um velho, e sente a beleza da vida. Não o
ócio como o entendemos hoje: preguiça, gastar o tempo inutilmente; e sim o ócio
criativo como era entendido na origem da palavra: folga do trabalho, repouso,
tempo livre que pode ser empregado para a leitura, a meditação, a pesquisa
filosófica ou científica; ou a simples liberdade de espírito no contato íntimo
com a natureza.
Nossos amigos que moram em São Paulo, pelo contrário, louvam o dinamismo
do paulistano, procurando construir algo, numa correria desenfreada, quase 24
horas por dia, sem tempo para depressões, revoltas, insatisfações contínuas,
para a “fossa” de Dois Córregos. Acontece que transformamos ócio em tédio, nos
aborrecemos, enfastiamos, queremos diversões, prazeres, que nossa cidade não
nos pode oferecer. Acontece que desconhecemos por completo os prazeres do
espírito. Termos muitas horas de inatividade, que gastamos ficando de fato
inativos; sombra e água fresca e papo para o ar são a mesma coisa. Quando
poderíamos construir não materialmente como o paulistano e sim espiritualmente:
construção de um alicerce interior de liberdade, de paz, da tranquilidade de
quem se conhece, conhece os limites entre suas aspirações e o que pode
realmente conseguir.
Estive relendo Epicuro, que pode ter uma filosofia muito falha, sem base
científica, e que pode ensinar-nos ao mesmo tempo, e muito, como vivermos
melhor. Despreze-se muito de sua física, de sua canônica, sei lá; louve-se e
siga-se o que nos diz sobre a amizade, por exemplo, do amor da sabedoria, do
conhecimento e independência interior, essa arte da felicidade. Foi acusado de
sensualidade, de total devassidão? Leiam-no: “Quando dizemos, então, que o
prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos
produzidos pela sensualidade como creem certos ignorantes, que se encontram em
desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres
de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma”; o sábio “prefere a
sabedoria desafortunada à insensatez com fortuna, ainda que pense que o melhor
de tudo é que nas ações o juízo sábio seja acompanhado da fortuna próspera”;
mantém-se “nos limites impostos pela natureza”, pois “o essencial para a nossa
felicidade é a nossa condição íntima, e desta nós somos os donos”. E isso
podemos conseguir em Dois Córregos, cidade sem atrativos, sim, sem nenhum
atrativo que desvie nossa atenção se quisermos conduzi-la para o lugar certo,
para que possamos encontrar-nos, deixando que as águas dos dois córregos levem
para longe os detritos da “fossa” em que dizemos viver.
José Brandão