quinta-feira, 12 de outubro de 2023

Fotografia antiga

 


 

 

FOTOGRAFIA ANTIGA

José Brandão

 

Era uma fotografia antiga, amarelada, puída

nos cantos, puída até no nariz e nos bigodes do avô.

Os três tios estão em fila, uma escadinha,

olhando um para o outro com o canto dos olhos.

 

Estão bravos, estão ali contra a vontade.

As tias, essas, erguem as testas orgulhosas.

Uma quer aparecer mais do que a outra.

São quatro, são feias e se julgam o centro do mundo.

 

O meu pai e a minha mãe encolhem-se num canto da foto.

Não têm nada a dizer, nem precisam: estão em casa.

Por mais que a companhia desagrade, estão em casa.

 

Deus permanece a um canto da sala, onipresente.

Posso sentir o perfume de Deus na foto que se esfarela.

Meus cinco irmãos se acotovelam com sorrisos marotos.

 

Eu ainda não nasci.

 

 

 

 

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Diálogo com Domenico de Biasi


 

 

DIÁLOGO COM DOMENICO DI BIASI

        

Escrevi uma crônica para o jornal “O Democrático”, de Dois Córregos, SP, que diriam ser uma paráfrase de Domenico de Biasi e seu “Ócio criativo”, mas foi publicada em1973, muito antes de ele ter lançado a sua célebre teoria:

 

Dois Córregos: Tédio e Ócio

 

Louvavam os antigos romanos as horas de ócio. Horas em que o homem se encontra consigo mesmo, contempla uma rosa, um pássaro, um poente, o sorriso de uma criança ou os cabelos brancos de um velho, e sente a beleza da vida. Não o ócio como o entendemos hoje: preguiça, gastar o tempo inutilmente; e sim o ócio criativo como era entendido na origem da palavra: folga do trabalho, repouso, tempo livre que pode ser empregado para a leitura, a meditação, a pesquisa filosófica ou científica; ou a simples liberdade de espírito no contato íntimo com a natureza.

Nossos amigos que moram em São Paulo, pelo contrário, louvam o dinamismo do paulistano, procurando construir algo, numa correria desenfreada, quase 24 horas por dia, sem tempo para depressões, revoltas, insatisfações contínuas, para a “fossa” de Dois Córregos. Acontece que transformamos ócio em tédio, nos aborrecemos, enfastiamos, queremos diversões, prazeres, que nossa cidade não nos pode oferecer. Acontece que desconhecemos por completo os prazeres do espírito. Termos muitas horas de inatividade, que gastamos ficando de fato inativos; sombra e água fresca e papo para o ar são a mesma coisa. Quando poderíamos construir não materialmente como o paulistano e sim espiritualmente: construção de um alicerce interior de liberdade, de paz, da tranquilidade de quem se conhece, conhece os limites entre suas aspirações e o que pode realmente conseguir.

Estive relendo Epicuro, que pode ter uma filosofia muito falha, sem base científica, e que pode ensinar-nos ao mesmo tempo, e muito, como vivermos melhor. Despreze-se muito de sua física, de sua canônica, sei lá; louve-se e siga-se o que nos diz sobre a amizade, por exemplo, do amor da sabedoria, do conhecimento e independência interior, essa arte da felicidade. Foi acusado de sensualidade, de total devassidão? Leiam-no: “Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intemperantes ou aos produzidos pela sensualidade como creem certos ignorantes, que se encontram em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofrimentos do corpo e de perturbações da alma”; o sábio “prefere a sabedoria desafortunada à insensatez com fortuna, ainda que pense que o melhor de tudo é que nas ações o juízo sábio seja acompanhado da fortuna próspera”; mantém-se “nos limites impostos pela natureza”, pois “o essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima, e desta nós somos os donos”. E isso podemos conseguir em Dois Córregos, cidade sem atrativos, sim, sem nenhum atrativo que desvie nossa atenção se quisermos conduzi-la para o lugar certo, para que possamos encontrar-nos, deixando que as águas dos dois córregos levem para longe os detritos da “fossa” em que dizemos viver.

José Brandão

 

 

sábado, 8 de julho de 2023

O palimpsesto (poema)

 



O PALIMPSESTO

                                                                        José Brandão


O verdadeiro poema, o poema essencial, é o poema em estado de palimpsesto. O poeta o escreve com o cuidado agônico de quem sabe que nunca atingirá a perfeição. Depois escreve outro poema por cima, e outro em cima deste, e outro, outro, outro, quase indefinidamente. Até que não se veja mais o primeiro poema. Nem o último. Nenhum. Todos estariam perdidos na algaravia de textos sobre textos, como de tinta sobre tinta.

É mais do que um palimpsesto. Não adianta raspar a tinta, não adianta raspar o último poema, o penúltimo, o antepenúltimo, e assim por diante. Nunca se chegará ao primeiro poema. O poema essencial é o poema em estado de palimpsesto. Tão essencial que nem se vê.

                                                                                                                              



domingo, 4 de junho de 2023

As árvores de areia


 

 

 

As árvores de areia

 

O mar desenhou árvores dançando

na areia monazítica

com estrelinhas brilhando nos galhos

e gotinhas de orvalho nas folhas mínimas

era como se um artista tivesse esculpido

aquelas árvores vivas

e o mar chamava lá ao fundo

lembrando que ele era o artista esquecido

enquanto um bando de passarinhos saiu voando

das árvores que já não dançavam

em êxtase na areia da praia

 

José Brandão