sábado, 8 de julho de 2023

O palimpsesto (poema)

 



O PALIMPSESTO

                                                                        José Brandão


O verdadeiro poema, o poema essencial, é o poema em estado de palimpsesto. O poeta o escreve com o cuidado agônico de quem sabe que nunca atingirá a perfeição. Depois escreve outro poema por cima, e outro em cima deste, e outro, outro, outro, quase indefinidamente. Até que não se veja mais o primeiro poema. Nem o último. Nenhum. Todos estariam perdidos na algaravia de textos sobre textos, como de tinta sobre tinta.

É mais do que um palimpsesto. Não adianta raspar a tinta, não adianta raspar o último poema, o penúltimo, o antepenúltimo, e assim por diante. Nunca se chegará ao primeiro poema. O poema essencial é o poema em estado de palimpsesto. Tão essencial que nem se vê.

                                                                                                                              



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