sexta-feira, 6 de julho de 2018

MATURIDADE



MATURIDADE

Prefácio da Antologia Literária nº 9 da Academia Bauruense de Letras, que
comemora seu jubileu de prata


Nasci em 1993. Precisamente no dia 7 de julho, num suave inverno bauruense de pequenas esperanças para o futuro. O Brasil tinha saído de uma ditadura, nem sabia que tipo de governo queria. Passáramos por um plebiscito em que até cogitamos de reerguer os escombros da monarquia, enquanto lutávamos com graves crises econômicas que ameaçavam o futuro de uma democracia apenas instaurada.
Um grupo de idealistas pensa na Academia Bauruense de Letras. É uma aventura do espírito num momento grave da sociedade. O homem precisa de símbolos que o norteiem. Bauru precisava do símbolo das letras que lhe lembrasse a grandeza esquecida. A Academia é uma bússola indicando que o norte do espírito é o que mais importa. A magia da língua inflamava os olhares, que viam sempre mais longe. A grandeza da criação com a palavra iluminava o caminho. O voo inaugural estava armado.
Era a certeza de que a Bauru do final do século 20 estava pronta para o espetáculo da arte, do pensamento, do convívio numa Academia, nessa confraternização tão buscada desde tempos imemoriais. A arte da palavra é filha da memória, e sem essa memória e essa arte, como um êxtase a ser contemplado e um enigma a ser decifrado, não se pode viver. A Academia Bauruense de Letras, desde a sua fundação até hoje, sempre ergueu o seu baluarte em defesa da língua portuguesa e da nossa literatura. Como lembrava Machado de Assis, não com o poder de polícia, mas com o exemplo da criação literária.
 A Academia Bauruense de Letras nasceu idealista, sob a batuta de dona Celina de Lourdes Alves Neves, sob a égide da poesia, da palavra, que é o seu instrumento. Não tinha sequer uma casa onde instalar-se, onde deitar raízes: os atos inaugurais consolidam-se no plano da utopia, para onde converge a trajetória humana. O ramerrão do cotidiano, a vida sem novidades, que já não é vida, que desintegra a utopia, é vencido pela arte da palavra como forma de inventar o mundo e como celebrar a realidade. Tinha de seu o amor à arte e à língua, como uma ara da união do sagrado e do humano de toda criação.
Bauru deu-me guarida na esperança fundadora de vir a ser uma intérprete da realidade que então se moldava. É um anseio pela memória que libera a Academia a bater à porta do futuro. Esta antologia desse trabalho com a palavra, dessa escultura do verbo, dessa modelagem com a matéria prima que é o sopro do espírito, é uma amostra do que a Academia oferece a Bauru. O homem não sobrevive sem os valores da inteligência, manifestos no uso da palavra, essa força vivificadora que nos distingue e nos eleva a um plano diverso de outros seres.
Cheguei a 7 de julho de 2018. Foram 25 anos de luta silenciosa rumo ao pódio do espírito. Atingi a maturidade. Os acadêmicos representam Bauru com orgulho, Bauru pode orgulhar-se de sua Academia. Nosso enredo, nossa narrativa não se esgota nos fatos da existência em si ou em simples obras de arte, mas consolida-se no ideal da arte, com a palavra elevada à sua potência máxima.

                                                                                              José C. M. Brandão





sexta-feira, 22 de junho de 2018

FARÂNDOLA





FARÂNDOLA


Um enorme rinoceronte
espia o monte no horizonte

pensando que é muito elegante
dança sem graça o velho elefante

morre de rir a formiga
tem uma lombriga na barriga?

e olhem só o danado do rato
comendo a sola do sapato

olhem as orelhas do coelho
lambendo as telhas de joelhos

canta como um danado o galo
exibindo a crista e escondendo o falo

olha só no quintal o pobre frango
pensando que é um orangotango

a mosca come doce de framboesa
lambe os beiços e vomita na mesa







sexta-feira, 15 de junho de 2018

O outono cai na beira da estrada

                                    



                                   https://www.youtube.com/watch?v=18EWO8p1zCc






 

domingo, 10 de junho de 2018

A locomotiva maluca (O processo criativo de um poeta)





A LOCOMOTIVA MALUCA
(O processo criativo de um poeta)

“Olha a Locomotiva Maluca!”, eu disse, rindo do nome da locomotiva em frente da prefeitura de Blumenau. “É Macuca”, disse a minha mulher. “Cuidado com a dislexia!” Eu estava rindo do nome gozado, ri sem graça agora. Até que o nome Macuca tem a sua graça: refere-se à semelhança do apito da locomotiva com o canto do pássaro chamado macuco, e o barulho das ferragens com o barulho das asas. Mas eu, como acontece de hábito, tinha que ler errado. E já estava imaginando a locomotiva louquinha da silva dando cambalhotas nos morros como um cabrito, berrando, escoiceando, babando. Eu estava inventado, involuntariamente, as maluquices da locomotiva. A máquina de fazer poesia estava funcionando a toda na minha cabeça. A louquinha (a locomotiva, não a minha cabeça, que afinal nesse momento como em muitos estava apenas tendo o dom da poesia), a louquinha da locomotiva virava os olhos, gargalhava, cantava assoviando e assoviava cantando.
O grande linguista Roman Jakobson aventou a hipótese de que a dislexia contribuía para a criação poética. O que pode parecer uma estupidez para um leigo, pode ser uma grande verdade. Eu me refiro ao leigo em matéria de poesia e em matéria de linguística. Mesmo um poeta é raro ter a acuidade da análise técnica dos processos linguísticos, como é raro um linguista ter a sensibilidade da poesia como, afinal, Roman Jakobson tinha. O meu processo criativo muitas vezes, posso garantir, é uma comprovação dessa tese. Se é que eu tenho esse distúrbio de reconhecimento dos fonemas, especialmente das letras em si, isso mesmo, enquanto escritas, o que me atrasou o desenvolvimento da aprendizagem e ainda vez ou outra, agora que já estou bem alfabetizado, me provoca surtos de poesia.
Como no caso da locomotiva, por um desvio de interpretação da escrita, solto a imaginação (“a louca da casa”, na expressão de Victor Hugo) e a criatividade. Por um nada, sem nem perceber, entro em estado de poesia. O processo de criação de um poema tem muito ou mesmo tem tudo a ver com o trabalho com as palavras, e mesmo com o som das palavras, com a musicalidade. Mas antes desse processo em si, ou concomitante a ele, vem a criação de imagens, vem essa fantasia da poesia, esse distúrbio e maravilhamento dos sentidos. Talvez o que Rimbaud chamou de “desregramento dos sentidos”. Muito mais do que a sugestão imagética que o encontro ou o desencontro das palavras cria. Assim, o que era a princípio um defeito, que me atrapalhava, me impedia o desenvolvimento natural da aprendizagem, se tornou um grande colaborador para a minha criatividade. Involuntariamente, vezes por dia, ainda hoje, estou lendo errado – e tenho vontade de pôr esse “errado” entre aspas, porque pode ser apenas a minha maneira de ler, de interpretar o sentido das palavras, e brincar com elas, criar com elas.
Quem disse que Macuca é um apelido mais sugestivo para a locomotiva do que Maluca? Para eu entender por que Macuca precisei ler a explicação, de que assoviava como o pássaro chamado macuco e fazia um barulho com as suas ferragens que lembrava o barulho das asas do pássaro. Para eu entender por que Maluca não precisei de nenhuma explicação, foi só pensar que eu tinha lido esse nome e estava solta a louca da casa, e a locomotiva dava cabriolas pelos morros, guinchava, empinava, resfolegava, cantava, com toda a alegria de viver de que só uma louca é capaz. Quer explicação mais simples do processo poético?   





sexta-feira, 18 de maio de 2018

A porteira da tarde





A cigarra desfia a porteira da tarde. Eu sou uma moringa d’água porejando. O cachorro deitado na sombra fresca, de língua de fora, abana o rabo.

As rãs fazem festa na beira do rancho e as ingazeiras conversam com os inhames. As porcas se espojam na lama gostosa, a caranguejeira sai do ventre da terra.

O bugio coça o queixo, boceja com preguiça. Os cupins fazem a sesta sob os andaimes. O camaleão bota a sua farda verde e cinza e destila a paisagem no bico de uma flauta.

A minha voz molhada pinga de uma árvore. É cor da terra e vai caindo de manso.

*

No jamelão, a cigarra queima a tarde. As maracanãs desenham a paisagem de vaias verdes. A mula baia se coça na peroba; o pau d’arco pelado instiga a sede.

A semente amadurece na boca.

O cachorro fuça o chão da invernada, a jaguatirica cisca, observa de banda. A cascavel deixa a casca ao pé do coqueiro, deixa os guizos na minha mão de menino.

A paisagem de ontem era um cacto ao sol. Eu plantei a semente com uma palavra, as vaias verdes das maracanãs nos meus olhos. Eu entardeço com a cigarra na língua.
             
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sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes


TIRADENTES


Não sei se Tiradentes subiu as escadas da forca com altivez.
Não é preciso ser destemido para ser herói.
É possível borrar as calças e ser herói.

Que paisagem se avistaria do alto da forca?
Cobriram a cabeça de Tiradentes com um pano negro?
Morreu no escuro? É mais ou menos tétrico morrer no escuro?

Dizem que o cérebro do enforcado ainda vive alguns minutos.
O que Tiradentes terá pensado nesses parcos minutos?
Terá pensado?

Terá gritado?
Um homem tem o direito de gritar no instante de sua morte.
Terá morrido de boca aberta no grito da morte?

Não há perda maior –
aquele instante da morte do corpo e da morte da mente,
aquele lapso entre a vida e a morte.