segunda-feira, 9 de maio de 2011

O POETA É UM LAMBE-LAMBE




CÓDIGO



Poesia é palavra
na renda de bilros

O poema é forma
aberta e fechada

A rosa e o relógio
espiam de bruços
no bronze do espelho.


   LAMBE-LAMBE

O poeta é um lambe-lambe
em busca da própria face.


    AUTORRETRATO EM PRETO E BRANCO

Todo poema é um autorretrato.
Uma pedra, um pássaro, um ovo, 
sempre têm a cara do poeta.

O poeta investiga o tempo perdido,
Deus, a transcendência, o êxtase,
mas está à procura de si mesmo.

O afogado no espelho
sempre tem a cara do poeta.


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Estou no Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5013




sábado, 7 de maio de 2011

NO TAPETE DE SÓCRATES



                                   
MATÉRIA DE POESIA

Faço de pedra o meu poema
de terra
e água.

Faço de sangue o meu poema
de suor
e dor.

Faço do tempo o meu poema
de memória
e esquecimento.

Faço da morte o meu poema
de perda
e permanência.



JUSTIFICATIVA

Sócrates, quando estava para morrer, quis aprender a tocar cítara.
 – Mas para quê? – disseram. – Você está para morrer.
– Ao menos terei tocado a minha cítara – respondeu.
Como Sócrates, eu escrevo os meus poemas.



quarta-feira, 4 de maio de 2011

PLENITUDE




PLENITUDE

Não sei como começa um poema,
não sei como termina.
E afinal, nem sempre o começo é o começo
e o fim é o fim.

E o recheio?
O que vem dentro é o que importa.
O fim e o começo muitas vezes se contradizem,
mas o recheio é música pura para os ouvidos
e para o corpo todo.

Nem todo poema começa com uma maiúscula,
nem todo poema termina com um ponto final.
No princípio da criação já havia uma nota ecoando
– e essa nota é uma melodia completa.
No fim da criação, continua-se a ouvir a melodia.

Mas então o poema é música?
Pode ser, mas também pode ser um gemido.
Ou uma explosão. 
Talvez a ausência de ruído.
Mas nunca será o nada. O poema será sempre
o oposto do nada. O poema é a plenitude.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

O CASULO DA VIDA

Ninho de graveteiro
                            



 


O CASULO DA VIDA

As pálpebras caem,
e as palavras, inúteis. 
Os canários já não cantam,
e caem.    
A pedra brilha ao sol,
como uma lápide.
Os teus passos se calam,
no jardim da ausência.

Como decifrar o casulo da vida?
As asas aprendem o desígnio de não voar. 
No entanto, sabemos quem somos.
Sabemos Deus.
Nada nos falta, apesar da humana fraqueza.

A areia tem a forma dos nossos pés.
A justa medida.
O mar nos chama,
e nos ministra lições
de partida: partir é viver.
Não queremos, ainda, o esquecimento.
Nem depois, no espelho de Deus.

Os barcos sofrem na praia, apodrecem,
mas guardam a memória das viagens, do infinito.
Um pouco de terra e escuro, nosso domínio:
que morra e nasça a semente da eternidade.