foto: Nilton Scudeller
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
ODE À CIDADE - a Bauru no seu centenário
foto: Nilton Scudeller
Saída de Itaguá
O barco descansa na praia
A rede enrolada como uma teia de aranha ao sol
Urubus ao lado esperam inquietos
Dois atobás passeiam imponentes dentro da água do mar
As ondas brancas quebram-se na areia
O peito branco dos atobás eleva-se muito alto
Os pescadores limpam os peixes, logo jogarão as entranhas
Para os urubus e depois para os atobás no mar
Brilhos de estrelas no escuro da areia monazítica
Onde o mar desenhou árvores delicadas
Procuro as flores e os frutos nos galhos
Eu me ajoelho e contemplo e me recolho à minha concha
O azul do céu e do mar, o verde das montanhas no espelho do mar
Como um cachorro o universo lambe os meus pés.
(Crônica já apresentada aqui, mas como era mais poema que crônica, apresento-a agora em novo formato, de poema. Era tanto poema, tão síntese como um poema quer ser, que não lhe suprimi nenhuma palavra.)
(8-12-08)
viagem
o céu azul e as nuvens brancas
sobre o campo verde as árvores
verdes e os bois até os bois verdes
porque tudo é verde nesta paisagem
uma colina verde se ergue contra o
céu azul agora com mais nuvens
muito brancas e um eucalipto verde
perfurando-as e logo muitas árvores
engolem a estrada como um abismo
verde e aquela nuvem branca todas as
nuvens são brancas aquela nuvem branca
é um bebê engatinhando no azul cerúleo
e uma garça leva o bebê no bico leve
o bebê que se esgarça como paina leve
no azul do céu sobre o campo verde
(25-12-08)
êxtase
o lagarto abana a cauda
ergue as patas pesadas com sombra
e a língua vermelha aponta o caminho o
corpo rajado sobre a sombra
no cimento negro entre a folhagem verde
tanto verde a língua se estende
vermelha entre o verde adora a borboleta
branca e vermelha e o beija-flor quieto no galho
os olhos do lagarto e os olhinhos do beija-flor
se encontram e se encantam na tarde clara em
cantante êxtase
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Cony e eu
Alguma coisa nós temos em comum. Algumas coincidências no mínimo curiosas. Veja só: Cony não falou até os cinco anos, depois tomou um susto e desandou a falar, mas errado, ininteligível, como se tivesse a língua presa. Tinha. Foi operado com treze anos, mas ainda não falava coisa com coisa. Era a dislexia no caminho. Fez exercícios com bolas de gude na boca. Acabou falando até profissionalmente.
Eu falava errado e era motivo de gozação para todo mundo. Aprendi a falar com quinze anos. Estava no seminário e me autodiagnostiquei uma provável dislexia. Como não fui orientado por ninguém, não fiz exercícios com bola de gude, mas com pedras mesmo, como Demóstenes. Aprendi a falar e, praticamente só então, a ler e escrever.
Cony foi para o seminário com uns doze anos, eu também. Ele porque queria fazer bonito. Eu porque não sabia dizer não. Saímos quase oito anos depois. Cony diz que perdeu a fé, e a saída do seminário foi traumática. Deve ter jogado um palavrão na cara do padre Reitor como eu: isso é motivo para uma saída traumática. Eu um dia voltei à religião – e ele afirma que, se pudesse voltar atrás, se ordenaria padre.
Cony fez curso de línguas neolatinas, que não concluiu. Eu sou licenciado em Letras Vernáculas, tenho registro do MEC de professor de português, francês e latim, mas não me formei em neolatinas por teimosia. E as coincidências acabam aí, já é muito, não?
Mas vou dizer ainda que o primeiro livro de Cony que li foi “Informação ao Crucificado”, que narra a sua experiência de seminarista. Escrevi também um romance narrando a minha experiência. Ganhei o Prêmio Nac. de Lit. “Cidade de B. Horizonte” com ele, mas não foi publicado. Então, apresentei-o ao Prêmio SESC de Literatura e ficou entre os finalistas. Cony era um dos jurados e acredito, como consolação, que tentou premiar seu irmão espúrio.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Autorretrato
Manuel Bandeira tinha um piano na alma
Com o teclado à mostra.
Eu, rilhando os dentes,
Carrego um piano nas costas.
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(Autorretrato é o meu último poema de 2008 e primeiro na nova ortografia.
Auto-retrato é um justamente famoso poema de Manuel Bandeira. Agora rebaixado a Autorretrato. Deveria haver um adendo nas leis ortográficas: não mexer no título das obras consagradas, aliás, em nenhuma palavra do texto. Nem nas maltratadas ou esquecidas pelo tempo, esse juiz implacável, às vezes injusto como qualquer juiz.)
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Inventário

O inventário de seus destroços é o melhor poema de Robinson Crusoé. Retorno a essa idéia de G. K. Chesterton porque não vejo melhor diante do inventário deste ano que se finda. É impossível fazer-se o inventário completo de um dia ou um ano. Mais fácil, portanto, fazer dos seus destroços. E mais importante. Essencial. O que sobrou, o que não pereceu é o que realmente interessa.
Álvaro Moreyra diz que nos recordamos com saudades do passado, mesmo que então tenhamos sido infelizes. É uma felicidade o próprio ato de recordar. Nada, quando lembrado, é jogado fora.
Queremos desesperadamente lembrar, mesmo que o excesso de memórias nos sufoque. Como aconteceu com Funes, o Memorioso, de Borges, que lembrava cada palavra, cada nuvem, cada folha de árvore. Mas Funes era um personagem de ficção. A Borges interessava-lhe a memória, como parábola do tempo ou do próprio universo.
Queremos desesperadamente lembrar, como se esquecer fosse uma doença terrível. Como se o Alzheimer nos atacasse em cada pequeno esquecimento, no mínimo desvio de atenção.
O que sobrou de 2008? O que é importante desse ano que passou? A nossa memória é falha, lembramos as coisas próximas, as mais risíveis ou pitorescas, às vezes as que mais nos fazem sofrer. Por que não falar do que houve de positivo? De tudo que construímos neste ano?
Abrir os olhos à luz, respirar o ar puro, sorrir, alimentar-se, sentir o fluxo da vida. O dom da vida, a beleza da vida, essa graça é salva do naufrágio sublimemente. Nem percebemos que o próprio ato de viver faz parte do inventário de tudo de precioso que salvamos, que levamos para o próximo ano. Deus seja louvado pela vida e pela morte, que nos faz sentir mais vivos, que nos faz sentir mais precioso o dom de viver.
Levamos a vida para o ano que se inicia. A vida é o que permanece.
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"O velho está morrendo!", lamentava meu pai todo final de ano. "Quem?", todo mundo perguntava, como se a piada fosse nova. A piada era nova.
Rei morto, Rei posto. Feliz 2009 para todos!
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Árvore de Natal
Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe. Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.
– Vamos! Vamos!
– Vamos onde?
– O Papai... Papai foi...
Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos, a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque, faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro, muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho, encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali. Logo, lá no fundo, acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra, era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta. E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.
Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça, olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu tava pensando isso, Lininha me chamou.
– Olha!
– Olha o quê?
– Bobo! – ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou: – Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe pra onde ele tá olhando?
– Pro cemitério.
– Psiu! Fala baixo. Papai percebe.
– Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando. Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente perto, sem... sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?
– Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!
Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele se baixou, abriu os braços, chamou a gente. Então a gente foi correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai chorou. E eu. E Lininha.
Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério, lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando, a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.
– Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim – Lininha falou. Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:
– Mamãe foi assim.
Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande, um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela, a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe. Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:
– Tudo tá chorando com a gente.
E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites, arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas, de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!
E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe. E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse da gente ficar ali.
E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.
(conto de 1965, publicado na revista "Allere Flammam" do Seminário Santa Teresinha, de São Manuel, SP.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O homem nu
de uma loja. Acompanhavam, divertidos, cada gesto do homem nu. Que punha a mão na cabeça, como se refletisse muito seriamente sobre algum assunto, ou como se se lembrasse de algum outro, depois abanava as mãos, dava dois ou três passos antes de parar novamente.
Não era o homem nu do Fernando Sabino, que tinha vergonha, etc. e tal. O meu homem nu não tinha vergonha. Não viemos todos nus ao mundo? Não, não era isso que ele pensava. Não pensava em coisa alguma, embora eu tenha sugerido que fosse um pensador. Um pensador não se mexe – como o de Rodin – e o meu se mexia como o diabo. Tirava a camisa, olhava-a pensativo – o meu pensador, enfim, resolvera pensar? – e esfregava-a na bunda, como se se limpasse.
Já se viu que o meu homem nu não estava inteiramente pelado. Estava calçado com sapatos sociais pretos e meias brancas, vestia uma cueca zorba cor de rosa e de bosta – segundo os meus dois observadores – e, ainda, uma camisa branca social – igualmente manchada de bosta.
Por que a polícia não faz nada?, dirão os senhores. Calma, eu direi, a polícia ainda não havia chegado. Não chega sempre atrasada, a polícia? Por que chegaria em tempo para atender a um homem nu cagado?
Pois o homem nu estava cagado e se preocupava muito com o caso. Não com o caso da nudez. Mas da caga... Caga o quê? Não existe a palavra cagadez... Que outra usar? Não sei se o homem se preocupava com esta ou aquela palavra, isto é para os poetas. Os cagados se preocupam com a bosta.
Eu já disse que o homem não tinha vergonha. Não tinha mesmo. Parou quinze vezes – talvez nove, ou dez, vá lá, mas foram muitas as vezes em que parou diante da imobiliária ali perto, passou e passou a camisa nos cabelos, depois na bunda, ou vice-versa, sem vergonha das duas funcionárias que olhavam encabuladas.
Quando por fim chegou a polícia, a moto de um dos rapazes que se divertiam com o espetáculo do homem nu já tinha desaparecido. Não foi um comparsa do homem nu, o rapaz faz questão de frisar no dia seguinte, deu no jornal que o cara tinha problemas mentais.
Mas o que você queria? Que ele fosse normal? Nós somos normais? Normalidade por normalidade, é conveniente ficar de olho no que é nosso – a moto, a bicicleta, o carro, talvez a carteira. Afinal, o sol nasce e se põe para todos.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Guizos
As rãs coaxam.
Os juncos tremem no escuro.
O bambual se inclina.
Os guizos da cascavel
tilintam na brisa.
O grito do quero-quero
desperta o banhado.
O capim cintila em festa.
O cisne desliza
no lago quieto.
Uma rã mergulha.
Sementes
Um beija-flor pousa
na lâmina do arado.
O homem tomba a terra doce.
A romã explode
e as sementes são diamantes.
Os meus dentes gritam.
O salgueiro estremece.
Maçãs e ameixas maduras
esquecidas no chão.
Uma aranha desce da árvore
numa réstia de sol.
Um baque surdo no lago
e um melro voa
de um galho de cedro.
Uma cigarra quebra
as vidraças da tarde.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
O Paraíso Perdido
O meu coração pequeno rolava sobre os grãos de café no terreiro. A infância cresce com a beleza das coisas. O meu pai gritava mais alto que o tempo. As espigas da infância estralam no meu coração.
2.
Eu dava cambalhotas no pasto dos bezerros sob o sol amigo da manhãzinha orvalhada. Os meus irmãos eram cachorros ao meu lado, lambendo a paisagem com os olhos e a língua.
O leite espumava das tetas gordas das vacas para a caneca de lata nas mãos do meu pai. Nós éramos meninos e voávamos sem cabresto, com espuma de leite caindo do canto da boca. Montávamos a cavalo nos bezerros pequenos, caíamos sobre os montes de estrume verdolengo.
Era a vida que nos lambuzava as calças curtas. Nós partimos para a vida com o corpo lambuzado: ostento marcas vermelhas que não se apagam mais, daquele orvalho que conhecemos com os bezerros.
3.
Sou o menino no terreiro de café, sou o menino com um cão ao lado. Escrevo com orvalho e lágrimas da infância nos olhos e na alma. E sobrevôo o dia que se põe no rio eterno como um deus vermelho.
4.
O menino está sentado num grande tronco de árvore, à beira de um alto barranco. O tronco é roliço, grosso, muito maior do que o menino; é liso, escorregadio, poderia derrubá-lo no abismo.
O menino encantado olha para baixo; é um fascínio, o mundo tão lá no fundo.
Um córrego corre, gorgolejando entre as pedras; brilha ao sol, a água de metal, de luz. O menino quer mergulhar nessa água, que mergulha em seus olhos; e flutua nessa luz, sentado no grande tronco, pairando no espaço.
5.
O menino grudado na terra vermelha, nu, ao sol. Brotam da terra gotas d’água, vermelhas, da comunhão com o sangue da terra, e brilhantes, cada uma com o menino dentro. O menino brota do barranco, manchado com os respingos da terra molhada.
O barranco domina, é a paisagem, com as gotas d’água porejando. Algum verde, de algum pouco capim, e o céu azul acima.
Tudo é a terra vermelha e o menino grudado, com um ar feliz. Os borrifos de água, cada vez maiores, brotam da terra, querem jorrar, inundar o mundo de luz vermelha.
6.
O café verde e vermelho rebrilha no terreiro.
O pai vai e vem com o largo rodo revirando os grãos de café.
Os olhos do menino giram ao sol. Regiram. É uma festa: o pai forte, enorme, as pernas longas, as largas passadas entre os grãos de café, que saltam no ar, ao sol.
O menino é muito pequeno, está sentado num canto do terreiro, tem um estilingue na mão direita e um cacho de mamonas na esquerda; um embornal de pano verde pende do ombro.
À direita está a tulha de café; à esquerda, abaixo, a casa e o córrego; atrás do menino, um bezerro pastando, e, à frente, o pai e o sol, os dois senhores daquele vasto mundo livre.
7.
Tenho uma cicatriz na minha perna esquerda, um bom palmo de minha mão de homem, de dedos compridos, da metade da perna abaixo do joelho, até alguns centímetros acima.
O pasto era belo, sob o sol; era o meu espaço, onde eu era livre, onde corria e voava sem peias; eu era livre como os bezerros, os potros, os cavalos. Eu galopava como um cavalo selvagem no coração da vida.
Mas aí vieram as vacas, veio o touro soltando fogo pelas ventas; e eu me tornei um potrinho trêmulo, recém-nascido, transido de medo; e eu tentava correr, trançando as perninhas tontas; e a cerca de arame farpado era intransponível, os fios de arame esticados, as farpas pontudas.
E o touro escarvando o chão, bufando, eu sentindo o bafo quente na minha carinha de bebê chorando; eu me arremessei por entre as farpas brilhantes, num gesto desesperado, louco; e a minha perna ficou dependurada, rasgando-se, mais e mais, sangrando, sob as ventas do touro ali estacado, imóvel.
O sangue vermelho, o sol vermelho, o touro de fogo, a dor de fogo; tudo o tempo consome; resta a cicatriz, galardão.
8.
Os tijolos gastos do chão da cozinha. O picumã nas telhas pretas como morceguinhos dependurados. O quarto dos arreios. Uma porta que não se abria nunca. As réstias de sol entre as réstias de alho.
O pai fazendo vassouras à noite. O lampião de querosene, a lamparina, as sombras esvoaçantes. O menino acompanha a dança das sombras subindo pela parede até as vigas, os caibros do telhado onde uma raposa fez seu ninho e pariu quatro raposinhos. O menino tem dó dos raposinhos mortos e aperta a barriga, a sopa de mandioca fumegando no fogão a lenha.
O menino aperta a barriga porque está com fome. O menino mais de cinqüenta anos depois está com fome dessas coisas pequenas, dessas miudezas de nada. Mais de cinqüenta anos depois ainda pinga leite das tetas dessas imagens miúdas da casa da infância.
9.
Mais de cinqüenta anos depois sou o menino bebendo o leite e o sangue da terra, chorando o Paraíso Perdido, sentado na árvore sobre a ponte, no dia grande sobre o monte em chamas.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Iluminações
Era uma pedra dourada.
Quando se abriu, voaram diamantes.
Pombas brancas na tarde azul.
ALVORADA
Gira a roda d’água.
O monjolo pila o milho.
Um galo bica a manhã.
ÊXTASE
As frutas estão maduras.
Colore a manhã a seda simples da brisa.
A vida é perfeita no pomar do dia.
INVENÇÃO
O canto do pássaro inventa o pássaro.
AVALANCHE
A lua entre as pedras
faz cair da montanha
uma avalanche.
OS AÇAFRÕES
A cor dos açafrões.
Giram no vento as folhas
e o grito dos pavões.
POSSE
Todas as estradas
se encontram no meu olhar.
É minha a paisagem.
O PASTOR
Um pássaro num sino,
na alta montanha,
tange as nuvens.
RESÍDUO
A cigarra deixou
no tronco da árvore
a casca e o canto.
NÃO ME ENSINEM A MORRER, DIZIA MEU AVÔ
No meio da noite
deitado
em decúbito dorsal
como um morto
no escuro
quase líquido de tão escuro
quase me afogando entre os peixes e as estrelas
apagadas
como quem não quer nada
(não queria nada)
eu me descobri mortal
como se já não o soubesse
como se fosse mentira
que vamos todos morrer
e só eu não o soubesse
e como se saber mudasse alguma coisa
na loisa ou lousa (são complicadas as palavras)
do destino
a lua entrava enorme pela janela aberta
entrava a via-láctea com todo o leite das estrelas
apagadas, esfumaçadas, leite feito bruma
no mar-alto baixando dentro de mim
falei Vou morrer
e era como se estivesse morto
não conseguia me mexer
os olhos escorriam pela face
me lembrei da tão bela morte na sua face
mas a minha não poderia estar morta
eu estava morto
embora não me mexesse
um morto se mexe terrivelmente
para cá e para lá, não se aquieta na cova
mesmo que não haja cova
eu estava morto no espelho
mesmo que não houvesse espelho
para eu me ver morto
eu estava morto sobre o mármore de um túmulo
não meu
o dono do túmulo me expulsava
eu queria ir embora
com meus quatrocentos cavalos
mas não me mexia
fora só me descobrir mortal
para estar morto
sobre o mármore inútil
com nenhum pássaro pousado sobre meu cadáver
e o além?
as dúvidas do além-túmulo?
um cadáver repousa quieto como uma árvore sem mar
como uma enxada enferrujada debaixo da escada
como uma pedra quando é mais pedra a
pedra na mesa da sala de visitas
o além-túmulo estava aquém
e eu dormia finalmente
e ressonava ressonava como um morto não ressona
quando me levantei no dia seguinte e me olhei no espelho
não estava lá
mas já não me importava
tinha aprendido a lição de morrer:
um morto cala a boca.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Alba e Mattina
“Alba” é a minha leitura de “Mattina”, o poema mais famoso de Giuseppe Ungaretti (1888-1970). “Mattina” é a prova de que poesia é intraduzível. Como recriar em outra língua a beleza e a amplitude de visão daquele punhadinho de palavras?
Quem não se lembra de imediato (e para quem se lembra, para se deliciar mais uma vez com o encantamento dessas palavras), o poema é isto:
Mattina
M’illumino
d’immenso.
Um poema completo, que vai tão longe, de perder o fôlego. Como recriá-lo em português? E já usei duas vezes o verbo “recriar”. Não gosto muito desse termo para me referir à tradução, mas que outro usar? Transcriação? Augusto de Campos traduziu: “Deslumbro-me / de imenso.” Onde fica a iluminação, que desde Rimbaud, é uma explosão nas entranhas do universo?
Prefiro pensar em tradução como um subsídio para o leitor ler o original. Há casos dificílimos, como esse de “Mattina”. A minha seria básica: “Ilumino-me / de imensidade.” Mas falta nela, como em todas que conheço (não por deficiência dos autores, mas pela dificuldade da realização), a magnitude e a iluminação do texto de Ungaretti.
Eu preferiria falar na possibilidade de traduzir-se o espírito do texto, como queria Borges. Na prática, a gramática da criação (Steiner) é outra.
Prefiro dizer que “Alba” é um poema meu, criado d’après “Mattina”, de Ungaretti.
Alba
A dor das ameixas
abrindo-se à luz.
*
Não gosto de explicações de poesia, principalmente da minha (da do próprio poeta). O autor apresenta o poema, o leitor frui a poesia ou ela flui por ele.
A comparação é feia, mas costumo lembrar a piada. Perde toda a graça se você precisa explicar. Verdade que há maus contadores de piada, mas é freqüente encontrar-se maus ouvintes. É a mesma coisa com a poesia.
Mas pensei em contar a história de meu pequeno poema quando li o comentário do Aldy Carvalho a “Alba”: “E a luz se fez e toda claridade absorvida na retina / Em toda claridade dos sentidos”. Era como se ele estivesse falando de “Mattina”. Talvez estivesse.
