domingo, 21 de dezembro de 2025

O ator

 


O ator

 

 

Um homem (morador de rua?

Sobrevivente por definição)

deitou-se no meio da avenida

em frente à Câmara Municipal.

 

O motorista do ônibus freou

a dois passos da cabeça do pobre.

A população suspirou aliviada.

 

O homem levantou-se,

levou a mão ao chapéu

(que não tinha)

 

e fez uma vênia demorada e pausadamente

agradecendo os aplausos

(que não vieram).

 

Alguém quis esganá-lo, alguém

pensou na polícia (apenas pensou )

e o caso foi esquecido.

 

E eu escrevo este poema

para que viva por alguns minutos mais.

 

 


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Maria Quitéria (conto)

                                                  


 

                                            https://cronicascariocas.com/maria-quiteria/ 

 

         Maria Quitéria

 

Boca aberta, torta para um lado, os olhos para o outro, parados na morte.

“Não faça isso comigo. Volte, Paizinho.”

Olha para a esquerda, vesgo na eternidade.

“Paizinho, eu prometo ser boazinha. Eu faço tudo.”

A ponta da língua no canto da boca, quer sair. O safado.

“Eu prometo, Paizinho. Nem na igreja, nunca mais.”

– Na igreja, eu sei. Dava para o padre.

– Olha, parece que vai rir. Morto mais sacana.

– Perseguia a filha em tudo quanto era canto.

– É. No bar, eu vi erguendo o vestido. A mão na bunda.

– Boazuda, a Quitéria.

– Boa moça. Trabalhadeira. Vivia na igreja.

– Verdade que andava com o padre?

– Bobagem. Andava é fugindo do pai.

De mãos postas no centro do tapete, se faz de santo. O revólver do lado. As mãos rezando, debaixo o buraco da bala.

“Eu não queria, juro que eu não queria. Você disse: Atira.”

– O revólver não tinha bala. Decerto pensou que o revólver não tinha bala.

– O diabo atenta, minha mãe dizia.

– Um tiro só, bastou um, na barriga, e puf! O diabo murchou, se apagou.

– Até soltava fumaça, tanto que bufava.

– Está virando os olhos, está virando os olhos.

– Que nada. Esse está longe, com os anjos e os santos.

– Ou com os diabos amigos dele.

“Paizinho, que eu faço da minha vida? Se o revólver tivesse mais bala, eu me matava.”

– Não é uma lágrima que cai do olho?

“Aguinha azul, vontade de beijar, beber essa aguinha da morte.”

– Deve ser azul, a morte.

– É negra. Preta que nem um urubu, um morcego.

– Que frio! Um gelo o coração.

– Um morcego te chupando o sangue. Só fica essa aguinha azul, morcego não gosta.

“Pai, e se eu me enforcar? Tem uma corda na cozinha.”

– O vestido rasgado, que vergonha! Não é um seio de fora? E esses dois lambendo carniça? Os dois, o contista bisbilhoteiro.

“Feito louca pela casa. Tenho as mãos manchadas de sangue. Quero morrer, quero morrer.”

“Você foi-se embora, Paizinho, por quê? Não dá para entender. Queria me violentar? O revólver estava tão pesado!”

“Atira, sua cadela.”

“Eu atirei, o revólver pesado.”

Não tinha bala? Umazinha só, esquecida no tambor. A bala que o diabo pôs lá.

 

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Eu e o outro

 


                                                    EU E O OUTRO
                                (uma crônica de 20 de setembro de 2012)
 
“Cria o teu ritmo e criarás o mundo.”
Eu era adolescente quando li esse verso de Ronald de Carvalho. Pareceu-me de imediato uma chave para a poesia. Simples. Básico. Bastava-me criar o meu ritmo e eu seria poeta. Fácil, não? Ainda hoje estou tentando criar o meu ritmo, falar com a minha voz.
sempre um outro por trás. Talvez meu outro eu. A minha máscara – essa que todo poeta usa. Essa que, afinal, fala com a sua voz.
Dizem: o seu estilo é inconfundível. E me confundem, se confundem, não me reconhecem no que escrevo.
Como quando, certa vez, eu era jovem ainda, mostrei um pequeno poema de Drummond a umas amigas. Elas ficaram assim, assim. Como quem não sabia o que dizer. Então eu disse: “É de Drummond.” “Ah, bom”, disseram.
Não era apenas bom, o poema. Bom como eu não seria capaz de fazer. Tinha mais, tinha uma voz que não era a minha – mas se confundia com a minha em sua impessoalidade.
Impessoalidade. Contento-me lembrando Gide: Estilo é não ter estilo. O estilo ideal é não se denunciar por artifícios de linguagem, por enfeites, floreios, etc. A linguagem ideal é a que parece de todo mundo. Nem se percebe que por trás há o homem.
Por trás há o outro.
Eu é um outro, dizia Rimbaud. E Borges vivia brigando com o seu duplo.
Uma vez, faz trinta anos, criei um sósia: Gregório Vaz. Chamei-o de heterônimo, pretendendo uma despersonalização como a de Fernando Pessoa. Acabou ficando tão parecido comigo, que se o uso hoje é apenas como pseudônimo.
Afinal, qual é o meu estilo? Talvez eu tenha atingido o ideal de não ter estilo. Posso até me vangloriar: isso é para os grandes.
O outro sorri no espelho. Escárnio ou leve mofa.
 
José C. M. Brandão