domingo, 23 de março de 2025

O dinossauro

 


 

O dinossauro  

 

 

Eu sou um dinossauro solitário

e estou escrevendo este poema.

Talvez esta seja a última marca

que deixarei sobre a terra.

É preciso que eu diga que estive aqui

e escrevi estas palavras – marcas

da minha passagem por este planeta estranho. 

 

José Carlos Brandão 

 

 




domingo, 9 de fevereiro de 2025

CRIAÇÃO

 


 

 

CRIAÇÃO

 

 

Tenho 78 anos e ainda escrevo os meus poemas.

Continuarei a escrevê-los até o dia em que morrer.

São uma prova e sempre serão uma prova de que estou vivo.

Sei que a paisagem que vejo pela janela

não é apenas uma paisagem,

mas a marca do homem nesta terra estranha.

Vejo por esta janela a passagem do homem por esta terra.

O homem tornou estranha esta terra.

A poesia não vai salvá-la.

A poesia não vai salvar o homem.

Os poemas são objetos inúteis.

Continuarei a escrevê-los porque preciso.

Preciso desesperadamente continuar a escrevê-los.

Preciso continuar a anunciar que estou vivo.

Estou vivo e digo sol.

Estou vivo e digo terra.

Estou vivo e digo água.

Enquanto estiver vivo estarei anunciando o nome das coisas.

A poesia é o anúncio do nome das coisas.

A poesia é a criação do mundo e a sua permanência.

 

José C. M. Brandão

 



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

As borboletas pousadas na máquina fotográfica

 



AS BORBOLETAS POUSADAS NA MÁQUINA FOTOGRÁFICA

 

 

Duas borboletas pousadas

na máquina fotográfica

do poeta distraído e atento

como trazidas pelo vento.

 

Ou pela brisa mais suave,

também uma forma de vento.

O poeta em êxtase captura

a sua paisagem mais pura.

 

Um pássaro canta? Ninguém

ouve no cair dessa tarde.

As duas borboletas pousadas,

mais do que pousadas, aladas

 

agora no êxtase do poeta

que as ilumina sem ser visto.

Não basta uma só borboleta

para a luz do êxtase do poeta. 

 

 

 

 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A visita da borboleta


 

 

A VISITA DA BORBOLETA

 

A borboleta pousa todos os dias

no parapeito da minha janela.

É uma pequena borboleta amarela,

é como uma menina brincalhona.

 

Eu quase a ouço falar de amor,

quase posso ouvi-la cantar.

Quase posso ouvi-la beijar

a brisa leve que eu respiro.

 

A borboleta beija a minha face

com uma delicadeza feminina.

A borboleta é a minha menina

tão pequena, mas tão completa.