sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Notas para uma oficina de contos


 

 
 
 

1.      Por que escrever contos? Machado de Assis cita Diderot: “Façamos contos, assim o

tempo passa e o conto da vida se acaba".

2.      Esqueçam toda a Teoria da Literatura! Vamos falar da prática do conto, de como o

contista faz seu conto. Sem teorizar, sem explicar. Se um cara não entende uma piada e você explica, ele pode vir a entender, mas a piada perdeu a graça. Aprender anatomia não ensina uma galinha a pôr ovos, disse T. S. Eliot.

3. Dalton Trevisan: O conto é sempre maior do que o contista. A invisibilidade de Dalton Trevisan. O conto reduzido ao mínimo, o essencial.

            4. De onde nasce o conto? Relato de experiências de contistas, como surgiu a ideia, como se encorpou, como se tornou um conto.

5. Por que o Vampiro de Curitiba? Que história se esconde por trás das histórias de Dalton Trevisan? É simplesmente o vampiro de almas, dos corações solitários, como ele diz? Lembro a sua decepção quando descobriu que tinha um irmão de outra mãe. Mas lembremos o que o próprio Dalton Trevisan já ensinou: somente o conto importa.

            6. A oficina de Tchekhov. O conto sem história. Quando não acontece nada. E está surgindo o conto moderno. A psicologia da personagem. A angústia. Enganosamente sem história.

            7.  Hemingway está presente em todas as oficinas de conto. A frase curta e seca. O diálogo seco. O não-dito. O contista é o repórter que não escreve a reportagem, mas o conto. A dor subentendida. A fraqueza do homem forte.

            É preciso ler e reler “Os assassinos”, de Hemingway. É uma oficina de contos.

8. Em “Como ler”, Harold Bloom indica “Memórias de um caçador”, de Turgueniev, como imprescindível. Fui conferir, não me lembrava de Turgueniev como contista, e confirmei. Seguindo o método dos românticos de fingir que é um caçador escrevendo suas memórias, Turgueniev revela-se um escritor atual num livro que é uma lição de como escrever contos.

9. A oficina de Machado de Assis. O contista precisa aprender com Machado de Assis. Ler e reler o velho bruxo, aprender as suas artimanhas, como ele escreve com aquela simplicidade de quem não usa artimanhas. Desde “Um apólogo”, que mais parece um apólogo do que o excelente conto que é. Parem de servir de agulha a muita linha ordinária. Até o inextinguível “O Alienista”, que mais parece uma novela do que um conto, pelo tamanho, mas tamanho não é documento.

10. Falando em tamanho, a lição de Guimarães Rosa, que começou escrevendo contos longos como a obra-prima do conto universal “A hora e a vez de Augusto Matraga”, ou um conto que ficou tão grande que acabou virando o monumento “Grande Sertão: Veredas”, até chegar aos contos curtos – por isso, além de outros motivos pessoais, os chamou de “Primeiras estórias” – como o excepcional “A terceira margem do rio”.

11. “As mil e uma noites” estão no início da história do conto. Sherazade contava uma história por dia para não morrer. É aí que está o busílis da coisa. Inventar histórias para não morrer.

12. Dostoievski dizia que “somos todos filhos d’ ’O capote’, de Gogol.” Quem não leu, leia. Quem leu, releia. É a base, não só dos russos. Também da literatura moderna: o homem comum como protagonista.

13. Gogol também escreveu “O nariz”, um conto precursor em todos os sentidos, do humor, da literatura fantástica, do nonsense, do surrealismo. Gogol, um escritor do Romantismo, se revelou um escritor à frente até do nosso tempo. É preciso ler e reler “O nariz” para não nos esquecermos de até onde a literatura pode chegar.

14. O conto era chamado de “a arte de Maupassant”, tal a perfeição a que ele chegou. É o conto tradicional – começo, meio e fim. Por que temos medo hoje do conto que conta uma história? Lembrem-se: o conto que não conta uma história não é conto. Observo ainda que Maupassant escreveu contos longos que estão entre as suas obras-primas, como “Bola de sebo”, “A pensão Tellier” ou “Mademoiselle Fifi” (que Dalton Trevisan homenageou dando esse nome a uma cadelinha, em alguns contos), em que não deixa de haver uma contundente crítica social e moral.

15. Tchekhov criou o conto moderno, sem início nem fim. O conto começa e termina no meio, no corpo. O leitor fica de boca aberta diante do fim de um conto de Tchekhov, como se dissesse: “Mas já terminou?” O conto é o fluxo de consciência, que revela o drama do personagem. Tchekhov corta o supérfluo em busca da perfeição formal e revela instantes únicos cheios de significação.

16. Lembrar da Bíblia – belíssimas histórias desde a Criação, a árvore do Bem e do Mal, Caim e Abel, Abraão e Isaac, José e seus irmãos, Sodoma e Gomorra, o Dilúvio, Jonas dentro do peixe, todas histórias fantásticas.

17. O romancista e o contista não se bicam? Dizem que o romancista não escreve contos, porque o conto é síntese ao contrário do romance. Verdade? Flaubert criou o romance realista com “Madame Bovary” e o romance moderno com “As tentações de Santo Antão”, depois publicou “Três contos”, que tem a belíssima história da infeliz Felicidade, que é uma suma de toda sua obra e ele mesmo julgou em uma carta: “Tenho a impressão de que a prosa francesa pode chegar a uma beleza de que mal se faz ideia”.

Sem falar de Machado de Assis e tantos outros romancistas e contistas ao mesmo tempo. Ser ao mesmo tempo poeta é mais difícil, embora o próprio Machado tenha 10 poemas antológicos.

18. Ainda hoje se pergunta: Mas o que é um conto? Conto é o que o autor quer que seja conto, brincou Mário de Andrade. É mesmo? Brincadeira é brincadeira.

19. É preciso a personagem. Captar o momento crítico da personagem. Chegar à sua epifania.

20. Por fim lembremos Shakespeare: “A vida não é mais que uma história contada por um idiota”. 

21. Mas Macbeth completa: “cheia de som e fúria”. E aqui já entramos no romance de William Faulkner “Som e fúria”, que é a história de uma família contada pelo idiota de família, Benjy, e essa maneira de narrar agrada tanto o romancista que ele acaba narrando como um idiota todo o livro.

22. Qual é a diferença entre o romance e o conto? O conto termina com a menina na ponta dos pés espiando a cena no interior da casa, isto é, termina onde começa o romance. São dois mundos distintos.   

 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

O tamanduá-bandeira

 

O tamanduá

 

 

O tamanduá à minha frente, lento,

como se não tivesse pressa alguma.

As fortes garras curvas dificultam-lhe

o andar. Pesado, foge como pode.

 

Formigas e cupins são sua comida,

caçados com a sua longa língua

em forma de funil, que fica dentro

do seu nariz comprido, fino e penso.

 

É belo com suas cores preto, branco

e avermelhado, nos seus vastos pelos.

Mas por que anda voltado para a terra?

Teme um assalto? Ignora a sua força?

 

É estranho o seu porte altivo e humilde.

Deus desprezou-o? Será algum castigo?

Algum suplício primordial? Por que

vaga ao léu esse pobre desdentado?

 

Imagem: foto do tamanduá-bandeira no zoológico aqui de Bauru, através da grades, que aparecem na foto como o se o tamanduá quisesse ultrapassá-las. É um animal do cerrado, em estado de extinção.  

Eu o vi uma vez em liberdade, na serra da Canastra, um pouco à frente do carro, logo desaparecendo no mato ao lado da estrada.

 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O dinossauro




O dinossauro

 

Quando Gabriel García Márquez, com 17 anos, leu “A metamorfose”, de Kafka, descobriu que seria escritor. Quando leu a primeira frase: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso”, disse para si mesmo: “Eu não sabia que era possível fazer isto. Mas se é assim, escrever me interessa.” Diz que Kafka contava as coisas da mesma maneira que a sua avó: as coisas fantásticas com a maior naturalidade. Todos sabemos que não é tão simples assim. É preciso, antes, ser um narrador fantástico como Kafka, García Márquez ou a avó dele. Não basta contar coisas fantásticas.

Esse é um dos mais incríveis inícios de romance. Gosto de examinar inícios famosos de romance (ou contos, ou poemas). O que começa bem, vai bem. O que começa mal, só pode ir mal. Um dos inícios de romance mais badalados, o de “Ana Karênina”, de Tolstói, para mim é um dos piores. Quando li: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, pensei: “Eu que não vou ler uma baboseira dessas.” Não podia ser mais babaca. E olhe que eu já tinha lido o seu monumental “Guerra e paz”, e ficado de queixo caído, e concluído que tudo o que esse escritor escreve só pode ser de primeira. Mas “Ana Karênina” começa com uma frase melosa de autoajuda. Não podia ser pior. Ainda adolescente li “Lições de abismo”, de Gustavo Corção. Naqueles tempos Corção era um panaca que defendia a ditadura, mas eu não sabia. Era um grande romance, pelo tamanho (li uma edição de luxo, capa dura, ilustrada) e pelo tom, pela nobreza de linguagem, de raciocínio. E era uma paráfrase, um longo comentário do conto de Tolstói, “A morte de Ivan Ilitch”. Corri ler “A morte de Ivan Ilitch”. Deixou atrás o pobre do Corção. Um modelo de conto, de conto longo, sim, mas que bem acabado, em síntese, em profundidade. Demorei décadas para ler “Ana Karênina”, afinal, um grande romance.

Falei do melhor e do pior início de uma obra. Tenho que falar também do menos famoso, mas mais incrível, mais fantástico, mais bem bolado. Nem se falava em literatura fantástica quando foi publicado, nem quando eu o li. Estou falando da dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Precisava mais? Depois disso você só pode esperar uma obra acima de quaisquer parâmetros. Estava inaugurado o Realismo brasileiro, estava ultrapassado qualquer tipo de realismo, que não fosse um surrealismo ou um realismo fantástico.

Tudo isso é introdução ao comentário de outra esquecida primeira frase de uma obra. Esquecida porque não é uma primeira frase, mas já a obra. É o mais famoso microconto do mundo, “O dinossauro”, de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.” Há décadas elogiam que elogiam essa obra completa em si, quase como um ovo, e nunca ouvi ninguém perguntar: O que aconteceu antes? O que vai acontecer depois? Como se já estivesse dito tudo aí, e está, mas eu não vou deixar de meter o bedelho, eu não sou pedreiro nem cozinheiro, mas não vou deixar de meter a colher nesse angu: Onde o dinossauro estava antes? Onde está todo mundo? E o Jair (por falta de nome vou chamá-lo por esse nome bíblico, antigo como a Torre de Babel, quando tudo podia acontecer, até um dinossauro, não sei por que nunca falaram nisso) dormiu duas, sete, dez horas, uma eternidade.

Jair teve um dia exaustivo (é preciso contar a sua história) caçando com pedras e paus o que comer. À noite deu conta de suas três mulheres (que não eram as do Sabonete Araxá de Manuel Bandeira, mas muito mais reais, de carne, osso e pescoço, mais carne do que osso e pescoço, as mulheres na época eram bem fornidas). Comeu, bebeu, dançou, pôs e tirou, e enfim, exausto, dormiu. A cama estava mais dura do que o normal, com mais paus e pedras, nem se lembrou onde deixou o dinossauro, se lhe tinha dado água, se ele tinha comido, se não estava lá no vale dos dinossauros, onde é o lugar dele, se não tinha fugido depois de tantas lambadas que lhe dera nas costas. Talvez o dinossauro ainda estivesse correndo atrás dele para comê-lo com fome e com raiva. Sim, ele deveria estar morrendo de medo do dinossauro, que não é carnívoro para comê-lo, mas poderia lhe dar umas belas pisadas e umas baitas rabadas.

Jair saiu da caverna (de onde nunca deveria ter saído, até hoje), não procurou as suas mulheres, nem seus irmãos e primos brutamontes, mas o seu querido dinossauro. Descobriu maravilhado que ainda estava lá. Pastando o capim mais doce deste mundo, pela cara de satisfação que fazia, olhando para o céu com os olhos mais doces deste mundo, com a maior cara de pau daquele mundo. Jair o abraçou com carinho desmedido, é preciso um carinho desmedido para abraçar um dinossauro. Jair era um brutamontes, mas sabia ter esse carinho digno de um dinossauro. Para sua surpresa o dinossauro deu-lhe uma tal rabada que ele veio aos trambolhões, de planeta em planeta, de milênio em milênio, de século em século, assustado e assustadoramente, até os nossos dias. Se o encontrarem em qualquer esquina, não lhe perguntem do dinossauro, ou eu não respondo por mim, muito menos por ele.