quinta-feira, 8 de junho de 2017

A REALIDADE E A IMAGEM




A REALIDADE E A IMAGEM
                    D’après Manuel Bandeira


Não vejo o céu azul refletido na poça d’água.
Não vejo as nuvens brancas refletidas na poça d’água.
Não vejo o edifício refletido na poça d’água.
Não vejo o varal com as suas roupas coloridas refletido na poça d’água.

Não vejo as abelhas, as borboletas, as libélulas e os mosquitos
refletidos na poça d’água.
Não vejo o mendigo, o menino, o homem que xinga o mundo, a jovem
de saltos altos, a jovem de botas de canos altos, não vejo ninguém
refletido na poça d’água.

Não vejo a minha face refletida na poça d’água.
Não vejo o mundo refletido na poça d’água.
Não vejo a vida refletida na poça d’água.
Não vejo o cachorro bebendo a água da poça d’água que não reflete
nada.

A poça d’água está barrenta, suja, feia e não reflete nada.
E eu simplesmente estou vendo a vida que não é refletida, que não é
refletida na poça d’água.






domingo, 4 de junho de 2017

A SOLIDÃO É UM RATO

  



A SOLIDÃO É UM RATO


A solidão é um rato
e rói
rói fundo
rói até a alma 

As estrelas se esconderam
nenhuma imagem
nenhuma palavra
para o meu poema

O rato rói
duro
cruel
no escuro






quarta-feira, 31 de maio de 2017

LACAN E A GESTAPO



LACAN E A GESTAPO 


Todos os dias ela acordava assustada às cinco da manhã
mesmo horário em que a Gestapo batia às portas para levar os judeus
ao ouvir essa história Lacan levantou-se e tocou-lhe a bochecha
num gesto de carinho e consolo
um gesto na pele
geste à peau
que em francês conforme a entonação da voz
tem o mesmo som de Gestapo
um gesto que quarenta anos depois ela ainda está narrando

 




segunda-feira, 29 de maio de 2017

O fundo do abismo

                                    




O FUNDO DO ABISMO


Ele caiu, caiu sem parar
que sonho
gritou
mas viu
que nem tinha tempo
de gritar
então olhou
o fundo do abismo
(deu tempo)
o fundo do abismo
olhou de volta






sexta-feira, 12 de maio de 2017

ARGOS








ARGOS


O nome do cachorro era Argos.
Não era extraordinário como o cachorro de Ulisses, da Odisseia.
O seu dono era mais ordinário ainda, um poeta sem nenhuma importância.
Argos vigiava quando o poeta escrevia – que nada atrapalhasse a criação,
o focinho erguido, as orelhas empinadas, alerta contra o tempo e o mundo.


De manhãzinha e de tardezinha o poeta levava Argos para passear
ou, mais propriamente, Argos levava o poeta, como quem conduz um cego.
O poeta enxergava muito bem, mas estava sempre ocupado
com a contemplação do universo circundante e do seu universo interior.
Argos caminhava circunspecto, como se fosse um poeta ao lado de outro poeta.