A REALIDADE E A IMAGEM
D’après Manuel Bandeira
Não vejo o
céu azul refletido na poça d’água.
Não vejo as
nuvens brancas refletidas na poça d’água.
Não vejo o
edifício refletido na poça d’água.
Não vejo o
varal com as suas roupas coloridas refletido na poça d’água.
Não vejo as
abelhas, as borboletas, as libélulas e os mosquitos
refletidos na
poça d’água.
Não vejo o
mendigo, o menino, o homem que xinga o mundo, a jovem
de saltos
altos, a jovem de botas de canos altos, não vejo ninguém
refletido na
poça d’água.
Não vejo a
minha face refletida na poça d’água.
Não vejo o
mundo refletido na poça d’água.
Não vejo a
vida refletida na poça d’água.
Não vejo o
cachorro bebendo a água da poça d’água que não reflete
nada.
A poça d’água
está barrenta, suja, feia e não reflete nada.
E eu
simplesmente estou vendo a vida que não é refletida, que não é
refletida na
poça d’água.
