Nocaute
Julio Cortázar diz que, se o romance ganha o leitor por pontos, o conto
deve ganhá-lo por nocaute. E o microconto? Deveria levar a nocaute no primeiro
round. Mas uma frase, poucas palavras,
uns 300 caracteres, como levar o leitor a nocaute com tão pouco?
Estou com o livro de microcontos da Maria do Carmo Almeida Corrêa nas
mãos (Pouco importa – Microcontos,
Editora Spessoto, Bauru, SP, 2021) e a primeira ideia que me veio foi essa,
antes mesmo de ler. Maldade minha, que sou leitor e autor de microcontos, e sei
que um microconto começa por ser despretensioso. Como um haicai não pretende
ser um poema, um microconto não pretende ser um conto. Maria do Carmo prima
pela despretensão. E como quem não quer nada, dá um soco na boca do estômago da
alma do leitor desavisado, que cai em nocaute.
O primeiro conto é uma paráfrase de um delicioso poema de Carlos Drummond
de Andrade (que não escrevia poemas “deliciosos”), “Lembrança do mundo antigo”.
Quem não está familiarizado com a poesia de Drummond nem percebe. Deveria
perceber. Maria do Carmo está dando a chave de seus microcontos. Ou uma dupla
chave: a paráfrase (arma de muitos contistas) e a memória (alma da poesia).
O microconto mais célebre que existe é “O dinossauro”, de Augusto
Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.” É paráfrase (não
importa de quê) e poesia pura. Outro microconto começa a ser citado, atribuído
a Hemingway. Sou leitor de Hemingway,
duvido que seja dele. Não é a sua linguagem. Não está em nenhum livro dele.
“Vendem-se: sapatinhos de bebê, nunca usados.” Muito bom, mas também muito
panaca para Hemingway. Tá, pode me provar que é verdade, mas a minha
sensibilidade literária não acredita.
Excelente que Maria do Carmo não embarcou nessa, de forçar o nascimento
de um história (muitas parecem ser tiradas a fórceps) em apenas uma frase. Os
microcontos de Augusto Monterroso têm meia página, uma página e até mais,
geralmente envoltos da vestimenta da fábula – que precisa um pouco mais de
desenvolvimento. Como Maria do Carmo diz, em “Poema”, um de seus menores
contos: é preciso chegar ao deslumbramento – sinônimo muitas vezes disso que
falei acima: o nocaute. O leitor é nocauteado com o deslumbramento da poesia.
É o que diz num de seus mais sugestivos microcontos, “Plano”: “A morte
pode conferir credibilidade à fábula”. Não é só Monterroso que entra no mundo
da fábula para inventar suas histórias tão sugestivas. Sim, Maria do Carmo
leva-nos a nocaute. No primeiro round, no início do primeiro round. Com luvas
de pelica. Bem feminina.
Foi um prazer a leitura de “Pouco importa”, microcontos que importam
muito. Nestes tempos pesados, saímos de alma leve de suas histórias com tanta
vida.
Vou deixar-lhes aqui dois de seus microcontos (a vantagem dos microcontos
também é a facilidade para citá-los). Aproveitem, enquanto não tiverem o prazer
de desfrutar da leitura de seu livro.
*
PLANO
– Foi só um jogo, senhor.
– Quer dizer que não havia um plano?
– Na verdade, não.
– Nenhuma conspiração?
– Pois é...
– E como explica todos esses seguidores?
– Sei lá...
– Pois vai pagar essa brincadeira com a vida?
– Pense bem, senhor Pilatos. A morte pode conferir credibilidade à
fábula.
OVO
Não existe nada mais frágil que a felicidade, disse a palestrante.
Segurou um ovo entre os dedos e aproximou-o da quina da mesa. Suspirei: que
imagem fascinante de fragilidade!
Mas o ovo, quebrado, ainda existia. O que seria frágil, o ovo ou sua
casca?