A Vênus de Willendorf
Há pouco menos
de um mês fiz um poema chamado “A Vênus de Willendorf”. Por quê? Todo poema
deve ter sua história. Por que Vênus? Por que de Willendorf? O que me levou a
escrevê-lo? Por que não a deusa Vênus, deusa da mitologia dos romanos, do amor
e da beleza? O poema fala em tempo? Mania minha de meter o tempo em tudo que
escrevo? Ou o tempo tem algo de especial com Vênus ou com essa Vênus em
especial? Por que termino falando da palavra? E com algo de mistério, de
não-conclusivo?
Há quase
cinquenta anos comprei uma enciclopédia em cinco volumes, “Arte nos Séculos”.
Já no texto de abertura, fala da Vênus de Willendorf. É a figura de uma mulher,
de uns vinte e cinco mil anos de idade (na enciclopédia falava-se no dobro).
Olha aí a questão do tempo. Somos filhos do tempo, subjugados pelo tempo,
destruídos pelo tempo. Aliás, somos o resíduo do tempo, ou o que o tempo ainda
não devorou. Por que Vênus? A deusa Vênus é o símbolo da beleza, o ideal de
mulher. De Willendorf porque foi encontrada num lugar desse nome, na Áustria.
Há milhares de anos a arte estava nascendo.
Eu estava
começando a escrever poesia, mais a sério, estava encontrando a minha forma. A
arte é a representação da beleza. Esculpida numa pedra, como a Vênus de
Willendorf, ou submissa à palavra, que nunca é suficiente para representar a
beleza. A palavra é frágil para toda a carga de vida que o homem tem, para o
seu ideal de beleza, para o efêmero de que se reveste a sua visão do mundo. A
palavra antes de tudo é imagem, são as figuras que o homem primitivo desenha
com as mãos, na ânsia de se comunicar e de criar. Vai desenhar depois os sons,
que devem estar relacionados a imagens para significar e revelar. A palavra em
um poema deve se tornar imagem para ser arte, para se tornar revelação do ser.
A Vênus de
Willendorf tem pouco mais de onze centímetros de altura (11,1 cm exatamente).
Não tem um apoio para ser posta numa mesa ou numa parede, é provável que fosse
carregada nas mãos, como um amuleto. Tem um ventre proeminente, os seios e a
bacia muito grandes, e a vulva à vista. Deduz-se que estaria ligada à
fertilidade, ou a um ideal de beleza da mulher na época, de formas avantajadas.
Depois dessa Vênus foram encontradas outras duzentas, mas nenhuma figura
masculina, o que leva a crer que era uma sociedade matriarcal. É o elogio da
mulher, a submissão à mulher, a fonte do prazer e a fonte da vida. A arte não é
uma cópia realista, mas uma representação do ideal de beleza feminino.
Não é bela? Não
é agradável aos sentidos? Certamente não é bela segundo os nossos padrões de
beleza. Não é agradável à nossa sensibilidade, apenas. Devemos senti-la como o
homem ou a mulher daquela época sentiam. A Vênus de Willendorf não é uma
criação muito primitiva apenas, mas uma comprovação de tudo que o homem possa
conceber sobre a arte. Está guardada no Museu de História Natural de Viena,
salva da efemeridade da arte, simbolizando o início da história da arte do
homem. Por mais simples que você possa julgá-la, por mais despretensiosa,
sempre nos leva a sonhar mais, a querermos nos compreender mais e ao universo
em que vivemos.
Não é à toa que
digo: “Eu sou essa Vênus/ eu sou essa mulher”. É preciso estar consciente de
que “Sou filho da palavra” e “a imagem é mãe do ser”. Se você pensou em
Heidegger, para quem a poesia é a “morada do ser”, é disso mesmo que eu estou
falando. Viemos de uma palavra perdida no tempo, encontrada numa peça de arte,
gritando-nos que somos filhos do “poema do tempo”.
*
A VÊNUS DE WILLENDORF
Eu sou essa Vênus, eu sou essa
mulher
ela me deu à luz por cima do
tempo
eu vim dessa deusa há milhares
de anos
a sua voz é a minha voz
sou filho da palavra viajante do
tempo
sou filho da imagem
a palavra nasce da imagem
a imagem é a mãe do ser
sou filho do poema do tempo