domingo, 18 de agosto de 2019

Este é um país cronicamente inviável

                                                                                                          Chagall, Tábuas da Lei



O país cronicamente inviável


Os pobres fuçam o lixo como bichos
como não viver com raiva neste país?
Madame atropelou um pivete
e discursa dizendo que ele é culpado.
O elefante sempre é culpado de todos os crimes
o rinoceronte, talvez o hipopótamo
os índios sobreviventes ao extermínio
ou os negros que emigraram da África para ser escravos.
É preciso salvar este país dos vermelhos
e do arco-íris colorido demais.
Mas não tire o bode da sala
não adianta tirar o bode da sala.
Este país é cronicamente inviável.


                                    (poema do livro em preparo O país impossível)





quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Este país não é para principiantes






Este país não é para principiantes


Não temos esperança de nada, senão da morte
perdemos as dimensões de quanto somos
o fogo nos consome de fora para dentro
e de dentro para fora.
Um nevoeiro espesso nos envolve
estrelas caem com estrépito, meteoros caem
é o universo que desmorona.
Os anjos foram pendurados no pau de arara
o templo da linguagem desenhado na pele da serpente.
O líder entrega nossas mulheres para o consumo sexual
entrega as nossas crianças para o trabalho forçado
entrega os nossos homens para o trabalho escravo.
Este país não é para principiantes
a sua álgebra não se decifra nem no inferno
a arte caiu no ostracismo
os livros foram fechados para não se abrirem nunca mais. 


(Poema do livro em preparo O país impossível )








sábado, 13 de julho de 2019

Três poemas meus na revista Literatura & Fechadura




                             

                              Três poemas de O país impossível, livro em preparo,
                                     na revista Literatura & Fechadura


www.literaturaefechadura.com.br/2019/07/13/o-juiz-torcia-para-um-dos-times-tres-poemas-de-jose-carlos-brandao/?fbclid=IwAR3w08FT3bDcksFvt8jEhlhm7pSiDmKYW6PDpan7zT7gqmOW9FKWNxhC7pc








segunda-feira, 8 de julho de 2019

O meu poema Alba no azulejo

               
             Meu poema Alba num azulejo na minha cidade natal, Dois Córregos, SP.



                                                Alba

                                                A dor das ameixas
                                                abrindo-se à luz.



                                     (in O silêncio de Deus, 2008)









quinta-feira, 20 de junho de 2019

12 poemas in Germina - revista de literatura e arte

                        
 Uma grande honra participar da revista Germina.  Confiram.



                                http://www.germinaliteratura.com.br/2019/jose_carlos_brandao.htm



quarta-feira, 19 de junho de 2019

O poema e o poeta

                                                                                                                                                             Picasso - Pinto e modelo



O POEMA E O POETA


Ninguém conhece o meu abismo. Ninguém, o meu caos.
A poesia é um espelho, o poema é um bronze infiel.
O poeta não tem a clareza da superfície das águas.
É necessário uma faca para esquartejar a realidade.
O poeta está sempre do outro lado da lua.
O poema não tem sete faces, o poema é um prisma de mil faces.
Joguem fora o meu cachimbo, joguem fora a minha bengala.
As gaivotas morrem no mar, os homens morrem na praia.
Eu sou um homem e a minha voz é um eco da minha própria voz.
Quebrem o espelho, joguem fora o poema.
Não se lê um poema para conhecer o abismo do poeta.
O poema é o olvido e não se lê o olvido.

.
“Um poema não lês,
não se lê o olvido.”
O Emparedado, 1975













sexta-feira, 14 de junho de 2019

Este país não é para amadores


                                                                                          El Greco - São Jerônimo



 Este país não é para amadores



Este não é um país para amadores.
Acham que eu tenho nariz de palhaço?
Este país nem limpando com aço.
Este país não tem jeito e nem remediado está.
O sol nasce para todos, mas queima uns mais que outros.
De dia falta água, de noite falta luz
e tem gente que pensa que é avestruz.
O que os olhos não veem mata o coração.
Um marreco incomoda muita gente, seu capitão.
O juiz torcia para um dos times.
Quem apita o jogo do juiz?
O juiz pisca mais que um pirilampo.
Tira o apito do juiz. Tira o juiz de campo.






domingo, 9 de junho de 2019

Este país não é sério


                                                                                      Paul Gauguin



Este país não é sério


Os lobos uivavam entre os currais de pedra,
o touro erguia a argola pesada nas ventas,
um menino chorava os filhotes de raposa mortos,
a mulher sentia um estranho perfume de deserto
na roupa lavada secando ao sol e ao vento.
Este país não é sério e a roda d’água gira.
Ninguém olha para trás. A torre de Babel
balança mas não cai. Ícaro toma sol na lama.
Eu paro e olho o horizonte de boca aberta.
Quem me devolverá a língua que eu perdi?
Quem me devolverá o nome que eu perdi?
A minha pátria é uma língua estranha e inútil
cantada por um andarilho idiota no nevoeiro.