domingo, 14 de abril de 2019

Este país não é um cachimbo

                                                                                                                                                                         Magritte



Este país não é um cachimbo
                                  

Virou o dia do avesso e chupou até o pau.
Vestiu a noite física e saiu por aí. Ou por lá.
A poesia é uma loucura. O real é chato paca.
A pedra vira água. E se escoa pelos dedos.
A cidade assombra. Como um rinoceronte.
Fotografaram o buraco negro. Era vermelho.
Perdi a goiaba, a manga e a esperança. 
E se o bicho da goiaba me comer ontem?
Chupei uma laranja e me engasguei. Orra meu.
Olha o sorriso do filhote de cruz-credo.
Estão mangando de mim, este é um país triste.
Enche a vida até espumar. Bebe a espuma e cospe.
Tinha a magia na fronte e nenhuma poesia.
Atira e depois pergunta. Aliás, atira e dá risada.
As palavras caíram no abismo desesperadas.
A pátria tem a língua e os olhos cheios de lágrimas.
Quem descasca uma cebola tem que chorar.
Quem descasca um abacaxi também descasca um pepino?
A água não volta atrás, vira lama e corricho.
Aliás, corricho é um porco pequeno e não vê o céu.
O último a sair não apague a luz no fim do túnel.





  

terça-feira, 9 de abril de 2019

O meu medo

                                                                                                          Van Gogh



         O meu medo


O meu medo não tem a voz de um morto,
não tem a minha própria voz.
O meu medo é uma folha em branco
como uma lápide fria.
O meu medo não é o quarto escuro,
não é a igreja vazia na noite.
O meu medo é a paisagem nua,
com o abismo da rosa sobre a pedra.
O meu medo não tem o peso de um morto,
os mortos são leves como plumas brancas.
O meu medo não é a ferida nos lábios,
não são os olhos vazados.
O meu medo é Deus não me encontrar,
o meu medo é a minha própria ausência.






terça-feira, 26 de março de 2019

O mar em mim

                                                                                                                              Gauguin, Lavadeiras




O mar em mim


O mar está todo em mim
com as suas feridas abertas em minha fronte.
Suas ondas vão e vêm nos meus olhos,
beijam-se nas praias do eterno.
A solidão do mar nos meus olhos,
brilhando nos rochedos com o sal e o sol.
A rosa de tuas pegadas na areia
rumo ao horizonte infinito.
Onde a minha, a tua essência?
Nos sargaços, na púrpura do fundo do mar.
Uma estrela caiu na montanha,
aponta o abismo do céu e da terra.
Atira a pedra do esquecimento, me diz,
e dorme à espera do clarão da aurora.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Que chato!

                                                                                                                                       Miró



Que chato!


O Menino Jesus
chama Nossa Senhora.
O vestidinho dele
caiu da fotografia.