quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Retrato 2/8

 


RETRATO 2/8

 

 

Sou apenas um poeta manco

não sou nem amarelo nem preto nem branco

 

sou um poeta manco a chiar

sou um poeta manco que se esqueceu de mancar

 

a chiar mas não sou nenhuma chaleira

sou um poeta vesgo sem eira nem beira

 

não tive nenhum anjo mocho no começo da estrada

que me mandasse ser roto na vida esburacada

 

nascer é muito esquisito

ainda não me acostumei com o cachimbo nem com o pito

 

não sou alegre nem como alpiste

nem invejo o mito para onde subiste

 

escrevo porque não sei cantar

a palavra é tão dura como o mármore

 

sou sempre o outro no diálogo impossível

sou só um poeta de meia tigela e o rato rói o edifício

 

José C. M. Brandão

 

 

 

 


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