sábado, 29 de novembro de 2025

Fabulazinha - in Crônicas cariocas

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                                                     FABULAZINHA

 

 

            O velhinho enfiou os pés na água fria, distendeu os dedos doídos, espreguiçando-os, e saiu um pouquinho de dentro de si mesmo. Foi até ali em frente, no meio do lago, onde um pato nadava.

            Era um velhinho muito velho, com uma barba compridíssima – a pontinha bulindo na água – e branquinha, da cor do pato que deslizava mansamente, mal se movendo.

            As grandes árvores copadas coavam a luz finíssima do sol, restiazinhas de bem-querer.

            O velhinho punha os olhos no pato, navegava com ele no manso lago azul – pensava um menino com roupinha de marinheiro, mas o lago era verde, não tinha céu azul refletido nas suas águas, tinha o verde das árvores, a sombra verde e fresca das árvores nas águas friíssimas.

            O velhinho se sorria do lago que era essa sombra verde e fresca. Sem perceber, se encantava – fazia parte do encanto da paisagem.

            O pato que vinha vindo, naturalmente, aproxima-se do velho, mais perto, pertinho. Chega, ergue o pescoço, com displicência, e mergulha. Nada de extraordinário, mas o velhinho fechou os olhos, e era como se o pato mergulhasse nos olhos do velhinho, compondo lá dentro o musgo da sombra, a dança dos feixezinhos de luz, a água calma e o próprio velhinho. O encantamento foi tão profundo que o velhinho não mais reabriu os olhos.

            “Que belezura, mamãe, aquela estátua!” – disse o menino com roupinha de marinheiro que precisava ter entrado na fabulazinha. E apontava o velhinho com a sua barba branquíssima e um pato nos joelhos – o velhinho pobríssimo que esquece a dor do mundo com um pato no coração, e sorri para sempre um sorriso beatífico.

 



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