
Fui milagrado de garça no poente.
O sol deslizava na água calma do rio.
Eu voava, bicava uma nuvem que não era, me espreguiçava,
azeitava o bico, contemplava.
A rãzinha conversava com o joão-grande, ele nem ligava, cismava.
Grandes cismas as nossas. Eu com um pé dentro da água
que passava, passava sem sair do lugar.
Água é coisa que nunca sai do lugar,
diferente do sol, que cai, se machuca para ser outro.
Eu cismava e voava com uma nuvem no bico, coloria, contemplava.
Ser Deus é essa graça – essa garça levada.
Paira sobre a água, leva a água: desenha o poente
como quem põe um ovo fragílimo abrindo um arco-íris, garça-íris.
Estou dentro da água, milagrado de garça.
O poente bóia na fogueira acesa com o sangue do sol degolado.