terça-feira, 1 de outubro de 2019

No Dia do Idoso







No Dia do Idoso


Uma jovem lê um livro
com estrelas nos olhos
Um velho cochila
ao lado de uma tartaruga
Um anjo chacoalha
o orvalho das asas
sobre as crianças no parque





domingo, 29 de setembro de 2019

Um defeito de cor



                                           Um defeito de cor


       Millôr Fernandes diz que “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, é um dos dez romances mais importantes da literatura brasileira. Em 2006 ganhou o prêmio Casa de Las Américas, em Cuba. É a referência cultural e histórica da identidade brasileira. Você pega aquele livrão, quase mil páginas e dá um passo atrás. Quando começa a ler, vê que a narrativa é envolvente e tem muito a lhe oferecer. É a história de Kehinde, a sua odisseia sem fim. Viu a mãe e o irmão serem torturados e mortos, foi capturada com a avó e a irmã gêmea, que morrem no navio. Chegando ao Brasil, nada até a terra para não ser batizada com um nome de branco, na luta para manter a sua identidade. “A viagem de Kehinde é a minha viagem para dentro de mim mesma, onde encontrei eco das histórias que pesquisei”, diz a autora, sobre o seu processo de busca da sua própria identidade negra.

      Kehinde conta a sua vida como escrava na Ilha de Itaparica, na Bahia, os seus sofrimentos e as viagens pelo Brasil em busca de um de seus filhos, sempre fiel a seus deuses africanos, como a reafirmar as suas raízes. A obra reconstrói o modo de vida dos africanos, portugueses e brasileiros no tempo da escravidão, como os escravos se organizaram para sobreviver e lutar pela liberdade no país. Kehinde ou Luísa Mahin – a narradora muda de nome segundo a necessidade –, já centenária e cega, dita as suas memórias. Foi uma lutadora, para manter a sua identidade, para preservar a sua religião, matriz dessa identidade. Ana Maria Gonçalves diz: “Para quem é mestiça, como eu, e em uma sociedade na qual o racismo é estrutural, a identidade é uma identidade negociável. A literatura pode ser uma ferramenta importante, porque é capaz de provocar a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de vivenciar outras histórias e outras experiências.”

       A história de Kehinde foi inspirada na vida de várias mulheres. Pode-se notar que Kehinde, ao ser retirada de sua terra para ser escravizada, passa a se estranhar, a viver em busca de seu eu, a ver na travessia o verdadeiro motivo do viver. É o fenômeno do eterno viajante, que vem desde Homero até Guimarães Rosa. É o dilema do estrangeiro: não pertencer a nenhum lugar. Quando volta à África, descobre que lá também é estrangeira: lá não é vista como africana, mas como uma brasileira. Ao perceber que poderia não encontrar o filho, a narradora relata o que viveu para que um dia ele possa ter conhecimento da história da mãe e seja um herdeiro de sua identidade. “Um defeito de cor” é um livro obrigatório: é a história das nossas raízes, da nossa identidade de brasileiros. Nós todos somos herdeiros de Kehinde.

       (Ah, "Um defeito de cor" porque, para ocupar um cargo na administração, no Exército ou mesmo na Igreja, os negros tinham que escrever ao rei pedindo autorização para renunciar ao seu "defeito de cor". A nossa história não é bonita.)





sábado, 14 de setembro de 2019

O país impossível (livro)



                 Conheça o meu novo livro. Poema de um tempo duro. Só a poesia para iluminar este

tempo sombrio. A estrada é nossa. Caminhe comigo.

                  
                  https://pt.calameo.com/read/00252060501625dbc7c89








sábado, 7 de setembro de 2019

Ouça os meus pooemas (vídeo)


                

          Poemas de antes de publicar O silêncio de Deus, 2009, e O livro dos Bichos, 2014, numa primeira versão.

                           

                                    https://www.youtube.com/watch?v=2X-56FzUa2c&t=1056s









sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A sombra de Tchernóbil



A sombra de Tchernóbil


Em 8 de agosto de 2019 uma explosão numa base marítima militar matou cinco cientistas e o nível de radiação na região aumentou até dezesseis vezes. A Rússia diz que o acidente foi falha em teste de foguete, mas especialistas acreditam que o país fazia teste de míssil nuclear. Uma cidade russa próxima ao local de explosão seria esvaziada, mas a ordem foi cancelada. Imediatamente se pensou em outro acidente e no livro “Vozes de Tchernóbil” de Svetlana Alexievich, que denunciou essa catástrofe sem tamanho.
Era o tempo ainda da extinta U.R.S.S., quando a verdade era controlada. É triste quando o Estado controla a verdade. Em 26 de abril de 1986, ocorreu o acidente nuclear de Tchernóbil. Um reator teve problemas técnicos e liberou uma nuvem radioativa contaminando pessoas, animais e o meio ambiente. As autoridades acobertaram o caso, minimizaram o desastre enquanto pessoas morriam com dores atrozes, se decompunham, sem nem saber o que tinha acontecido. Svetlana Alexiévitch, uma bielorrussa, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, levou dez anos para escrever "Vozes de Tchernóbil", depoimentos de cientistas, soldados, operários e viúvas das vítimas do episódio. O número de mortos continua um mistério até hoje.  É impressionante ouvir – é como se estivéssemos ouvindo – as testemunhas desse triste caso, os horrivelmente sobreviventes, que narram sensatamente, como se fosse possível, esse caso maior da insensatez humana.
Diz uma voz solitária: “Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?” “Às vezes parece que escuto a voz dele… Que está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama.” Não é nem possível imaginar uma mulher encontrando o marido e ser advertida: "Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez." O Estado escondia a verdade, que era a desintegração de seres humanos. Daí a conclusão de Svetlana:
“O mecanismo do mal seguirá funcionando no Apocalipse. Isso eu entendi. As pessoas continuarão bisbilhotando e adulando os seus chefes para salvar a sua televisão e o seu casaco de pele. E no fim do mundo, o homem será o mesmo que é agora. Sempre. Todas as nossas ideias humanistas são relativas. Em situações extremas, o homem real não tem nada a ver com as descrições dos livros. Nunca vi homens como os que aparecem nos livros. Não encontrei nenhum. É bem ao contrário. O homem não é um herói, todos nós somos vendedores do Apocalipse. Os grandes e os pequenos.” Nunca será possível entender tamanha falta de consideração com o ser humano, tamanha falta de humanismo em nome do Estado. Como se vê, o perigo continua.

                                                                                   José Carlos Brandão







domingo, 18 de agosto de 2019

Este é um país cronicamente inviável

                                                                                                          Chagall, Tábuas da Lei



O país cronicamente inviável


Os pobres fuçam o lixo como bichos
como não viver com raiva neste país?
Madame atropelou um pivete
e discursa dizendo que ele é culpado.
O elefante sempre é culpado de todos os crimes
o rinoceronte, talvez o hipopótamo
os índios sobreviventes ao extermínio
ou os negros que emigraram da África para ser escravos.
É preciso salvar este país dos vermelhos
e do arco-íris colorido demais.
Mas não tire o bode da sala
não adianta tirar o bode da sala.
Este país é cronicamente inviável.


                                    (poema do livro em preparo O país impossível)