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sábado, 25 de junho de 2016

A PRAÇA ABANDONADA

                                                                                             Escultura de Bassano Vaccarini





A PRAÇA ABANDONADA


na praça abandonada a fonte jorra ainda

não jorra leite e mel como na Bíblia
mas água cristalina

e os pombos bebem a água
e os ratos bebem a água
e os mendigos bebem a água

e ninguém morre na praça abandonada

nem a figueira que não dá figos
nem a mulher que amaldiçoa a vida
nem o menino com o ventre inchado

a fonte jorra como símbolo da vida

e um pássaro canta com a tristeza no bico
e um homem cala com a tristeza no bico
e uma formiga carrega o mundo nas costas

a fonte engasga de vez em quando mas jorra

                                   





quarta-feira, 11 de maio de 2016

A METADE DA NOITE






A METADE DA NOITE



A metade da noite e um sussurro
a metade da noite e um suspiro
a metade da noite e o abismo
você é um cego não vê o convite da morte
um lírio flutua no rio entre destroços
e animais mortos
um lírio flutua à beira da noite






sexta-feira, 29 de abril de 2016

Poemas do Livro dos bichos na revista Diversos Afins

                poemas: José Carlos Brandão                                              Arte: Helena Barbagelata


                                        http://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-44/








segunda-feira, 25 de abril de 2016

KAFKA NA PRAIA

 
                                     Max Brod e Franz Kafka na praia, em 1907                  





KAFKA NA PRAIA


Kafka na praia só via paredes
não é possível imaginar Kafka na praia
senão vendo paredes
a vida de Kafka foi uma parede
talvez a vida tenha portas e horizontes
mas não para Kafka
talvez houvesse uma porta na parede de Kafka
e fosse apenas para ele
mas ele sabia a linguagem do inelutável
as ondas vão e vêm continuamente vão e vêm
contra a parede a parede a parede









sexta-feira, 15 de abril de 2016

O POEMA É





O POEMA É


O poema é uma coreografia da alma
(disse Maria Cristina Ehmke)
é a palavra como uma dançarina nua
é uma faísca riscando a pele da noite
é um grito no escuro um grito sem som
as ondas se espiralando no ar
cada vez mais angustiosas gelatinosas sempre
voláteis é um nome dado às coisas
que se transforma nas próprias coisas
é música antes de todas as coisas como queria Verlaine
e é silêncio
é o que o mar ensina
é o que a morte ensina é o medo da morte é o medo do medo
o poema é o poema em si o poema sem mais nada
o poema é uma forma concentrada
o poema é uma forma em êxtase
o poema é a chave e a ausência da chave
o poema não é