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quarta-feira, 11 de maio de 2016

A METADE DA NOITE






A METADE DA NOITE



A metade da noite e um sussurro
a metade da noite e um suspiro
a metade da noite e o abismo
você é um cego não vê o convite da morte
um lírio flutua no rio entre destroços
e animais mortos
um lírio flutua à beira da noite






sexta-feira, 29 de abril de 2016

Poemas do Livro dos bichos na revista Diversos Afins

                poemas: José Carlos Brandão                                              Arte: Helena Barbagelata


                                        http://diversosafins.com.br/diversos/janela-poetica-i-44/








segunda-feira, 25 de abril de 2016

KAFKA NA PRAIA

 
                                     Max Brod e Franz Kafka na praia, em 1907                  





KAFKA NA PRAIA


Kafka na praia só via paredes
não é possível imaginar Kafka na praia
senão vendo paredes
a vida de Kafka foi uma parede
talvez a vida tenha portas e horizontes
mas não para Kafka
talvez houvesse uma porta na parede de Kafka
e fosse apenas para ele
mas ele sabia a linguagem do inelutável
as ondas vão e vêm continuamente vão e vêm
contra a parede a parede a parede









sexta-feira, 15 de abril de 2016

O POEMA É





O POEMA É


O poema é uma coreografia da alma
(disse Maria Cristina Ehmke)
é a palavra como uma dançarina nua
é uma faísca riscando a pele da noite
é um grito no escuro um grito sem som
as ondas se espiralando no ar
cada vez mais angustiosas gelatinosas sempre
voláteis é um nome dado às coisas
que se transforma nas próprias coisas
é música antes de todas as coisas como queria Verlaine
e é silêncio
é o que o mar ensina
é o que a morte ensina é o medo da morte é o medo do medo
o poema é o poema em si o poema sem mais nada
o poema é uma forma concentrada
o poema é uma forma em êxtase
o poema é a chave e a ausência da chave
o poema não é






segunda-feira, 14 de março de 2016

UM HOMEM PASSA COM UM PÃO AO OMBRO (César Vallejo)





UM HOMEM PASSA COM UM PÃO AO OMBRO


Um homem passa com um pão ao ombro
- Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?

Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
- Com que desplante falar da Psicanálise?

Outro entrou em meu peito com um pau na mão
- Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?

Um coxo passa dando o braço a um menino
- Vou, depois, ler André Breton?

Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
- Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?

Outro busca no lodo ossos e cascas
- Como escrever, depois, sobre o infinito?

Um pereiro cai de um telhado, morre, já não almoça
- Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?

Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
- Falar, depois, da quarta dimensão?

Um banqueiro falsifica o seu balanço
- Com que cara chorar no teatro?

Um pária dorme com um pé às costas
- Falar, depois, a ninguém de Picasso?

Alguém vai num enterro a soluçar
- Como em seguida ingressar na Academia?

Alguém limpa uma espingarda na cozinha
- Com que desplante falar do mais além?

Alguém passa a contar pelos dedos
- Como falar do não-eu sem dar um grito?


___________

César Vallejo

(tradução de
José Bento)