sábado, 23 de julho de 2022

Acalanto

 


 


Acalanto

 

 

                                               Mamãe, eu vou morrer?

Não, meu filho. Dorme, dorme.

 

Estou com tanto medo.

É só o escuro da noite.

 

Estou com tanto frio, mãe.

Logo você não vai sentir mais nada.

 

Mãe, eu estou tremendo de medo.

Reza para o anjo da guarda, filho.

 

O anjo tem uma espada na mão, mãe.

(A mãe não conseguiu dizer mais nada.)

 

José Brandão

 

 

 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O afinador de silêncios


 Em pré-venda no link abaixo:

https://www.editorafolheando.com.br/pd-9136d9-o-afinador-de-silencios.html?ct=&p=1&s=1

 


 



Uma conversa silenciosa

 

O primeiro título que me ocorreu para este livro de crônicas foi o título da primeira: “A árvore da infância”. A minha justificativa é a mesma do português de Manuel Bandeira, que assim explicava a origem do nome de sua pensão “Península Fernandes”: “Fernandes porque é o meu nome, Península porque eu achei bonito.” Conclui Bandeira que essa é toda explicação para a poesia.

Eu achei bonito esse título, mas não servia para todo o meu livro. Então me lembrei da última parte: “Crônica de uma morte anunciada”. Era perfeito, cabia bem para toda a coletânea de minhas crônicas. Era uma crônica com todas as características de uma crônica. Além disso, chamaria a atenção dos leitores com a lembrança de Gabriel García Márquez.

Folheando as outras crônicas, reli “O afinador de pianos” e descobri o título que queria: “O afinador de silêncios”. Falei: “É a minha cara.” Sou conhecido por meu silêncio. Já pensaram que sou pouco inteligente, ou não sei como me expressar. Também dizem que não falo porque sou escritor, estou ouvindo, guardando informações para depois escrever. Isso pode ter certa verdade, mas a maioria dos escritores são bem falantes. Eu concluo que simplesmente tenho essa habilidade de ficar em silêncio.  

Meses depois, já vencedor do concurso Uirapuru, com esse título, comecei a ler um romance de Mia Couto e vi que o primeiro capítulo da primeira parte chamava-se justamente: “Eu, Mwanito, o afinador de silêncios”. Eu já tinha para mim que era um título excelente, se soubesse que Mia Couto já o utilizara, teria prazer em tomar emprestado dele. Era um grande achado.

Mwanito era o filho preferido do pai, que voltava cansado de um dia de trabalho e o chamava para ficar em silêncio com ele. É uma arte ficar em silêncio. Mwanito tinha esse dom especial: ficar em silêncio. Era um afinador de silêncios, assim no plural, explica, porque não existe apenas um silêncio. Há silêncios para todas as ocasiões. “E todo silêncio é música”, completa Mwanito.

É como se Mia Couto estivesse me descrevendo: "Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios."

A verdadeira amizade é aquela que não precisa de palavras. Basta ao amigo ficar junto do outro amigo. A crônica é uma conversa de amigos, do autor com o leitor. Quanto mais silenciosa for a conversa, mais haverá a cumplicidade da verdadeira amizade entre eles.

Estas crônicas de “O afinador de silêncios” são uma comprovação desses meus silêncios. Algumas são muito curtas, porque o silêncio falava mais alto. Há crônicas de várias modulações – porque o silêncio tem várias modulações. Afine os ouvidos e ouça comigo.

 

 https://www.editorafolheando.com.br/pd-9136d9-o-afinador-de-silencios.html?ct=&p=1&s=1

 

 

sábado, 28 de maio de 2022

Réquiem por Genivaldo

 


Réquiem por Genivaldo

 

 

Genivaldo morreu asfixiado na câmara de gás.

Uma pergunta que não quer calar: Por quê?

Seguida de outras perguntas sem resposta:

Por que um homem morre?

Por que os homens matam?

Por que os homens se tornaram tão desumanos?

Nós vamos aceitar esse assassinato tão frio?

Toda a sociedade vestiu essa desumanidade?

Como poderemos viver depois disso?

Não podemos chegar àquele ponto

em que Deus se arrepende: tem medo da raça humana.

 *

Os policiais rodoviários federais responsáveis pela morte cruel de Genivaldo de Jesus Santos são Clenilson José dos Santos, Paulo Rodolpho Lima Nascimento, Adeilton dos Santos Nunes, William de Barros Noia e Kleber Nascimento Freitas. É preciso dar nome aos bois.

Genivaldo foi parado porque estava andando de moto sem capacete. Por esse “monstruoso” crime foi enfiado no porta-malas do carro da polícia e sufocado com gás de pimenta. Quiseram dar-lhe uma lição? Quiseram acalmá-lo? O que fizeram foi um crime hediondo que envergonha a humanidade.

Os policiais agrediram Genivaldo por 30 minutos, relatam moradores. A abordagem foi em Umbaúba, SE, e terminou com a morte da vítima por asfixia. Ele se debateu, enquanto a cena foi gravada por várias testemunhas, inclusive familiares.

Não há como dourar a pílula.

Foi um comportamento sujo demais.

O presidente Jair Bolsonaro disse que não está informado para comentar o que aconteceu. Só ele não sabe o que aconteceu.

Todos os superiores dos soldados da PRF envolvidos deveriam ser demitidos, deveriam também ser responsabilizados criminalmente.

Direitos Humanos foi tirada da formação da PRF. É possível entender?

Genivaldo foi detido porque estava sem capacete. O presidente da República costuma fazer suas “motociatas” (que nome horrível) sem capacete.

Genivaldo era uma pessoa com deficiência mental. Mostrou aos policiais a caixinha de remédio e a receita que costumava carregar.

Genivaldo cometeu três crimes: não era presidente, era negro, era deficiente. Horror.

O sobrinho de Genivaldo Santos denuncia que os policiais trataram com ironia o seu pedido para que o tio não sufocasse dentro do carro da PRF.  

Genivaldo não tinha condenações, nem respondia a processos na Justiça. Ele se aposentou cedo por conta do problema de saúde, a esquizofrenia, com que convivia havia duas décadas. Deixa esposa e um filho de sete anos.  

Em nota, a PRF de Sergipe diz que Genivaldo "resistiu ativamente a uma abordagem de uma equipe da PRF" — o que é desmentido pelas imagens, que o mostram imobilizado pelos policiais.

A corporação afirmou que, em razão de sua "agressividade", foram empregadas "técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para sua contenção e o indivíduo foi conduzido à delegacia da polícia civil da cidade.”

O IML afirma que Genivaldo morreu asfixiado por conta do gás, chamado de “instrumento de menor potencial ofensivo”.

Um laudo do Instituto Médico Legal confirmou que a morte de Genivaldo, um homem negro com transtornos psiquiátricos, "morreu de asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda".

Depois de parar a moto, Genivaldo teve mãos e pés amarrados. Mesmo sem reagir à abordagem, ele foi agredido pelos agentes. Perguntou o que tinha feito para os policiais o agredirem de tal forma.

‘Porque eles estão fazendo isso comigo se eu não fiz nada pra vocês?’

As imagens da fumaça saindo da traseira do carro levaram a comparações entre a política da polícia e o nazismo.

“Não é que parece com o nazismo, em termos de prática de assassinato, é nazismo. Se usou exatamente a mesma forma de matar que o nazismo tinha”, afirmou Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ, assessor do Instituto Brasil-Israel e professor de sociologia.

A moral está asfixiada com este caso bárbaro. Eu tinha escrito apenas um poema, ruim, dominado pela dor. Por mais que fale não diria da minha indignação, da minha tristeza sem tamanho.

Eu tenho que me calar.