Réquiem por Genivaldo
Genivaldo
morreu asfixiado na câmara de gás.
Uma pergunta
que não quer calar: Por quê?
Seguida de
outras perguntas sem resposta:
Por que um
homem morre?
Por que os
homens matam?
Por que os
homens se tornaram tão desumanos?
Nós vamos
aceitar esse assassinato tão frio?
Toda a
sociedade vestiu essa desumanidade?
Como poderemos
viver depois disso?
Não podemos
chegar àquele ponto
em que Deus se
arrepende: tem medo da raça humana.
*
Os policiais rodoviários federais
responsáveis pela morte cruel de Genivaldo de Jesus Santos são Clenilson José
dos Santos, Paulo Rodolpho Lima Nascimento, Adeilton dos Santos Nunes, William
de Barros Noia e Kleber Nascimento Freitas. É preciso dar nome aos bois.
Genivaldo foi parado porque estava
andando de moto sem capacete. Por esse “monstruoso” crime foi enfiado no
porta-malas do carro da polícia e sufocado com gás de pimenta. Quiseram dar-lhe
uma lição? Quiseram acalmá-lo? O que fizeram foi um crime hediondo que
envergonha a humanidade.
Os policiais agrediram Genivaldo por
30 minutos, relatam moradores. A abordagem foi em Umbaúba, SE, e terminou com a
morte da vítima por asfixia. Ele se debateu, enquanto a cena
foi gravada por várias testemunhas, inclusive familiares.
Não há como dourar a pílula.
Foi um comportamento sujo demais.
O presidente Jair Bolsonaro disse
que não está informado para comentar o que aconteceu. Só ele não sabe o que
aconteceu.
Todos os superiores dos soldados da
PRF envolvidos deveriam ser demitidos, deveriam também ser responsabilizados
criminalmente.
Direitos Humanos foi tirada da
formação da PRF. É possível entender?
Genivaldo foi detido porque estava
sem capacete. O presidente da República costuma fazer suas “motociatas” (que
nome horrível) sem capacete.
Genivaldo era uma pessoa com
deficiência mental. Mostrou aos policiais a caixinha de remédio e a receita que
costumava carregar.
Genivaldo cometeu três crimes: não
era presidente, era negro, era deficiente. Horror.
O sobrinho de Genivaldo
Santos denuncia que os policiais trataram com ironia o seu pedido para que o
tio não sufocasse dentro do carro da PRF.
Genivaldo
não tinha condenações, nem respondia a processos na Justiça. Ele se aposentou
cedo por conta do problema de saúde, a esquizofrenia, com que convivia havia
duas décadas. Deixa esposa e um filho de sete anos.
Em nota, a
PRF de Sergipe diz que Genivaldo "resistiu ativamente a uma abordagem de
uma equipe da PRF" — o que é desmentido pelas imagens, que o mostram imobilizado
pelos policiais.
A corporação
afirmou que, em razão de sua "agressividade", foram empregadas
"técnicas de imobilização e instrumentos de menor potencial ofensivo para
sua contenção e o indivíduo foi conduzido à delegacia da polícia civil da
cidade.”
O IML
afirma que Genivaldo morreu asfixiado por conta do gás, chamado de
“instrumento de menor potencial ofensivo”.
Um laudo do Instituto Médico Legal confirmou que a morte de Genivaldo,
um homem negro com transtornos psiquiátricos, "morreu de asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda".
Depois de parar a moto, Genivaldo teve mãos e pés amarrados. Mesmo sem
reagir à abordagem, ele foi agredido pelos agentes. Perguntou o que tinha feito
para os policiais o agredirem de tal forma.
‘Porque eles estão fazendo isso comigo se eu não fiz nada pra vocês?’
As imagens da fumaça saindo da traseira do carro levaram a
comparações entre a política da polícia e o nazismo.
“Não é que parece com o nazismo, em termos de prática de
assassinato, é nazismo. Se usou exatamente a mesma forma de matar que o nazismo
tinha”, afirmou Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de
Estudos Judaicos da UFRJ, assessor do Instituto Brasil-Israel e professor de
sociologia.
A moral está asfixiada com este caso bárbaro. Eu tinha
escrito apenas um poema, ruim, dominado pela dor. Por mais que fale não diria
da minha indignação, da minha tristeza sem tamanho.
Eu tenho que me calar.