quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Memória: "Livro dos bichos", ed. limitada de 30 exemplares


 

 

                                                    O macaco 

 

 

A morte das estrelas fez nascer

o meu corpo, as montanhas, os oceanos.

A explosão das estrelas espalhou

as entranhas no espaço sideral

 

e criou o sistema solar e este

macaco que questiona a sua origem.

Sou um resto de estrela com consciência.

O cosmo nasce da explosão do tempo.

 

Serei a consequência inevitável

de uma lei natural? Um acidente?

Sou ou não necessário ao universo?

Posso apenas medir? Existe um plano?

 

Somos feitos do cosmo e estamos nele.

A ciência busca Deus, concreto, físico.

Antes do tempo, Deus guarda a existência

e de mim mesmo sou um ancestral.

 

 

 

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Prêmio Uirapuru 2021 - 2º lugar com o livro de crônicas "O afinador de silêncios"

                          VENCEDORES UIRAPURU 2021 

 

       Fiquei em 2º lugar. Viva! Festas! Uma grande vitória! 

 

       Confira a lista dos vencedores: 

 

        https://1drv.ms/b/s!AlFv-pB7HtUokwnYO3SQbqwHcoXq?e=aafsbc  

       

         Editora Folheando 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Moça caminhando na praia


 

Moça caminhando na praia  

  

     Um homem e um cachorro caminham na praia. O homem atira um pedaço de pau, o cachorro vai buscar. Repete a brincadeira, uma, duas, dez vezes. Não contei, mas vai bem dez vezes. Nesse joga e busca o pedaço de pau, o homem se aproxima e eu vejo que não é um homem, mas uma mulher. Bem que eu desconfiara, mas uma mulher não caminharia sem camisa na praia. Agora eu vejo que a moça – não era muito jovem, nem era bela, mas era uma moça – estava vestida com uma leve blusa azul, de um azul cor de anil, de um azul cor do céu. O azul das ondas do mar misturado ao azul do céu certamente me confundira, e eu não vira blusa nenhuma. 

     Vou aproveitar que falei também em céu, e preciso lembrar que o céu estava lindo, mais que lindo, deslumbrante. O azul do céu estonteava, tão brilhante. Era como se fizesse ondas, acompanhando as ondas do mar. E então vinham as nuvens, uma festa para os olhos. As nuvens, como costumam fazer, desenhavam figuras no céu. Um carneirinho chorava a mãe distante. Um elefante pequenino, muito pequenino, estava perdido entre as nuvens indiferentes. Abria a boquinha para chorar, mas como será o choro de um elefante? Onde estará a mamãe-elefante? Eu me lembro de que aprendi no ginásio que o feminino de elefante é aliá. Aliás, será mesmo? Desconfio de tudo que aprendi antigamente, e os meus bancos ginasiais eram muito antigamente. 

     A moça já está bem próxima para eu ver que ela não é bela, nem bela nem feia, mas a sua face brilha ao sol. Ela não sorri, mas aposto que está feliz. Passa as mãos pelos cabelos, curtos, negros, soltos com uma displicência e um à-vontade que só faz sorrir. Não digo que faz sorrir encantado, porque certamente eu não estava encantado, mas estava me divertindo.  

     O cachorro late para a moça, ela faz que não escuta, uma, duas e três vezes, depois late de volta. Eu não estava perto o suficiente ainda, mas juraria que ela estava latindo, juraria, se não soubesse que moças não latem. Ela por fim jogou o pau para trás, o mais distante que pôde, o cachorro latiu pedindo mais, e ela jogou outro pedaço de pau para trás, para mais longe. O cachorro latiu feliz, latiu, latiu. Depois foi buscar o pau balançando o rabo, balançando o rabo ao sabor das ondas. Foi buscar os paus, correndo e latindo de felicidade. A moça não estava sorrindo, mas estava feliz, aposto que estava feliz. 

     Discutem tanto sobre o que é a felicidade, o que é preciso para nos tornarmos felizes, e não são capazes de ver. Olha aí, a felicidade é uma moça e um cão andando na beira da praia. A moça nem precisa estar sorrindo, pode até estar de cara feia, e o cão pode babar feio como o cão do Cão, mas aqui, hoje, nesta praia de areias claras, visitada a todo momento por umas águas claras, fazendo espuma, e coberta por um céu azul com nuvens brincalhonas, aqui e agora ninguém precisa definir o que é a felicidade. E se você ainda não se deu conta, vou lhe contar o segredo: a felicidade não é uma moça andando na praia com o seu cachorro, a felicidade é olhar a moça e o seu cachorro. 

     Agora os dois estão muito perto e eu posso ver que o cachorro é feio e a moça é feia. E nem parecem felizes. Um pássaro abre as asas sobre nós, tem as penas quadriculadas, por onde passa o sol. O pássaro grita. Vai e volta várias vezes, como se estivesse brincando, como se estivesse festejando. Como se estivesse me contando a sua verdade essencial. A felicidade é a beleza do sol, da tarde, das águas e das areias, é uma moça com o seu cão, é um sentimento de ausência e de plenitude – diante dele você só quer parar, estufar o peito, repleto. Nem precisa responder repleto de quê, você não precisa mais ter respostas, a vida não precisa mais fazer sentido, olé. A vida é como um touro na arena, olé. Chega um momento em que você não precisa de mais nada.  

Finalista - livro de crônicas O afinador de silêncios


 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Paulina Chiziane, a contadora de histórias


 
 
 
                                                       Paulina Chiziane se apresenta

 

Paulina Chiziane, a contadora de histórias

 

Soube de Paulina Chiziane quando ela ganhou o Prêmio Camões de 2021. Logo tive o prazer de vê-la e ouvi-la num vídeo recebendo a notícia e agradecendo. Simpatia a toda prova, é um encanto a mulher. Apresentou-se ao pé do fogo, de chinelos, como uma velha contadora de histórias, bem à vontade, deixando-nos também à vontade. Como só agora a conheci? Já esteve no Brasil, espalhou a sua simpatia pelas escolas de Belo Horizonte. Parece que Bauru é o fim do mundo. Ela é de Moçambique, ali, na curva da esquina, ou na curva da língua. Aliás, fala um português bem parecido com o nosso. Tem uma fala e um sorriso cativantes.

Paulina Chiziane começou devagar, publicando por conta própria, lá na sua Maputo. Um editor de faro, naqueles tempos em que os editores tinham faro, a descobriu. Levou-a para Portugal e o mundo. A Companhia das Letras publica seu “Niketche: Uma história de poligamia”. O nome já diz tudo: o tema é a condição da mulher em Moçambique (ou no mundo, Chiziane diz que o contato com o Brasil tornou a sua linguagem mais reinvidicativa, mais feminista. Foi quando sentiu mais a necessidade de protestar, diretamente.) O romance conta a história de uma mulher que descobre que o marido tinha outras mulheres. Não apenas algumas outras, mas sessenta outras mulheres. Então parte para a luta: reunir todas contra o amor comum, que se transformou no inimigo comum.

Li o seu “Ventos do Apocalipse” (Sociedade Editorial Ndjira, Grupo Leya, Maputo, 2010), um romance de histórias evocativas, melodiosas. Começa assim: “Escutai os lamentos que me saem da alma. Vinde, sentai-vos no sangue das ervas que escorre pelos montes, vinde, escutai repousando os corpos cansados debaixo da figueira enlutada que derrama lágrimas pelos filhos abortados. Quero contar-vos histórias antigas, do presente e do futuro, porque tenho todas as idades e ainda sou mais novo que todos os filhos e netos que hão-de nascer. Eu sou o destino. A vida germinou, floriu e chegamos ao fim do ciclo. Os cajueiros estão carregados de fruta madura, é época de vindima, escutai os lamentos que me saem da alma, KARINGANA WA KARINGANA.”

Karingana wa karingana, isto é, era uma vez. Parece que apenas “era uma vez” é muito pouco para tantas histórias que vêm depois, mas o nosso “era uma vez” também não é tão simples assim, remete-nos a um mundo de fantasia, rico de imaginação. “Era uma vez” é a entrada para o mundo dos sonhos. Estamos no mundo das histórias contadas ao pé da fogueira, mas as histórias de Paulina Chiziane são contadas por vozes roucas, já cansadas. São vozes de quem viu mais sofrimento do que podia aguentar, quase não tem forças para contá-las ao pé da fogueira. São vozes que anunciam os ventos do Apocalipse, os ventos do fim do mundo.

O livro começa por uma espécie de prólogo em que são contadas três histórias, por narradores muito simples. Os contos “O marido cruel”, “Mata que amanhã faremos outro” e “A ambição de Massupai” dão o tom do romance. É quando aconteceu a guerra pela libertação de Moçambique. A miséria imperava, o trabalho que restava era ir para a guerra. As aldeias ficavam vazias de homens. Às vezes mesmo as mulheres escolhiam o caminho da guerra, como Paulina Chiziane escolheu.

A história de “Ventos do Apocalipse” é essa, são essas histórias tradicionalmente contadas ao pé da fogueira. A segunda e a terceira partes são a continuação dos contos, como uma vila tenta inutilmente sobreviver diante da guerra que se aproxima, como é destruída e como os sobreviventes partem em busca de um novo lar onde pudessem continuar a sua jornada na vida. Há uma luta entre a tradição e a modernidade, uma e outra sucumbindo sob os ventos do Apocalipse.

Como diz Paulina Chiziane: “As minhas memórias mais remotas são das noites frias à volta da lareira, ouvindo histórias da avó materna.” Da memória da escritora vem a sua habilidade de contar histórias. Cada frase sua apresenta uma ou várias metáforas, estamos diante de uma linguagem essencialmente metafórica. Admira como se mantém em pé a música da sua poesia diante de tanto sofrimento.

Paulina Chiziane mantém viva a voz dos aldeões, a continuidade da tradição, apontando para o movimento cíclico da vida.