sexta-feira, 15 de outubro de 2021

A galinha de Maupassant

 

 
 

A galinha de Maupassant

 

Guy de Maupassant tornou-se um dos maiores contistas universais, foi um mestre nessa arte, tanto que se fala do conto como “a arte de Maupassant”. Mas ninguém nasce escritor. Há todo um processo de aprimoramento, que só se consegue a duras penas. Maupassant teve a sorte de ter uma educação esmerada, que a mãe lhe propiciou – e depois o apresentou ao mestre dos mestres na arte de escrever, Gustave Flaubert, seu parente, que o introduziu no mundo literário, pondo-o em contato com os principais escritores da época, mas antes à arte da escrita. Proibiu-o de publicar qualquer coisa que não estivesse perto da perfeição. Como a perfeição não existe, devia buscar a exatidão. Só há um modo de exprimir uma coisa. Nada a mais nem a menos. Buscar a palavra exata, nem mais nem menos do que se quer expressar. Como se houvesse um só modo de escrever uma frase, de narrar um fato, de descrever um detalhe, que podia ser essencial para a história. Como se cada palavra do conto nunca tivesse sido usada antes. Um conto é específico, único, nunca genérico.

Para concluir o aprendizado (a maioria das pessoas não quer entender que escrever requer um longo aprendizado), Flaubert passou-lhe a última lição, como se fosse o seu trabalho de conclusão de curso. Depois disso, Maupassant poderia seguir seu próprio caminho. O mestre mandou-o descrever uma galinha atravessando a rua. Depois disso estaria comprovada a sua técnica de economia de estilo, como se a escrita fosse um ato natural, aparentemente sem esforço.

Já imaginaram? Descrever uma galinha! É coisa simples? Você já tentou? Não é fácil, não. É preciso descrever cada detalhe, minuciosamente, mas não tão minuciosamente que canse o leitor. O que é preciso descrever, o que é preciso narrar, quais gestos? É tão simples, imagine só: uma galinha. Só isso. Como criar uma página sobre esse ser tão sem importância. Porque ninguém dá grande importância a uma galinha. O que eu vou dizer? A cor da penas, por exemplo, é importante? O que é preciso mostrar para tornar essa galinha singular?

É tarefa tão importante que uma Clarice Lispector realizou em dois ou três contos. Sempre há mais a dizer sobre esse serzinho desprezível. Não é desprezível? Certamente é desprezado. Mas um dos contos mais importantes do começo do Modernismo Brasileiro é “A galinha cega” (1931), de João Alphonsus. Fui relê-lo para comprovar: é excelente. Como é excelente “A galinha degolada”, de Horácio Quiroga (mais ou menos da mesma época de João Alphonsus), que usou como contrabalanço da sua história quatro irmãos retardados, os “donos” da galinha.

João Cabral de Melo Neto não descreveu uma galinha, mas fez mais difícil: descreveu o ovo da galinha. Fez quatro poemas descrevendo externamente o ovo, como um objeto perfeito, que se pode manusear, observar por todos os lados – e pensam que é fácil? Todos os lados são iguais. João Cabral descreveu uma cabra, também em vários poemas, externamente, sem nenhum toque emocional. Deve ter escolhido a cabra (além, claro, de por ser comum nas paisagens do seu Pernambuco) porque não tem nenhum apelo sentimental. O que ele quer é mostrar que se pode fazer poesia sem nenhum sentimentalismo. Quando descreve o relógio, de bolso, apalpando-o por todos os lados, já tem mais perigo: impossível falar do relógio sem falar do tempo, inextricável, fonte de mil preocupações metafísicas. Ele o faz, percebe-se a preocupação com o tempo, subentendida, mas o que se observa é o manuseio de uma coisa concreta.

Escrevi, no começo deste ano um poema meio longo (umas dez páginas) sobre uma galinha atravessando a rua. Mas não descrevi propriamente a galinha: no início ela está atravessando a rua, acontecem mil coisas na vida do homem, e no final ela termina de atravessar a rua. Tinha já escrito a história de uma galinha manca atravessando a rua. Por mais que eu não queira, há um apelo sentimental. Mas eu já fui mais ousado: descrevi, num conto, uma galinhona preta dando voltas no quintal depois de uma pedrada na cabeça – um urubu. O personagem é um menino de uns dez anos que fica vigiando as mantas de carne-seca expostas ao sol pelo pai e dá uma pedrada no urubu. Foi a minha “galinha de Maupassant”:

“O Chico empunhou o estilingue, escolheu a pedra maior que tinha no embornal, uma pedrona azul, não, mais que azul, pretona, tão pretona que até brilhava, pretona que nem o urubu. Esticou o estilingue, apontou, mirou bem, e zás! A pedrada voou direto no meio da testa do urubu. Um som oco. O bichão nem tugiu. Caiu no chão que nem um saco. O merdento parado no chão, de pescoço esticado, que nem morto.

         O Chico até perdeu o equilíbrio, quase caiu lá do alto do seu posto. Ficou dependurado com os bracinhos finos. Se deixou escorregar para baixo, esfregando os olhos assustados. Os olhos arregalados, que nem o sal incomodava mais. E o defuntão preto lá no meio do quintal. Um segundo, uns dois segundos só. O bicho ergueu o pescoço, ergueu uma perna, se apoiou numa asa, tentou ficar de pé, e nada. Caiu para o outro lado. Mas estava vivo. Um defuntão preto vivo. A baba preta caindo do bico. Credo!

         O urubu firmou as duas patas, ficou de pé. Meio bambo, mas estava de pé. Caminhou em direção do Chico. Todo torto. Mal deu um passo, e caiu. Mas ficou olhando para o Chico.

         Ficou de pé, uma perna de cada lado. Apoiado com o bico no chão. Um esforço, e ergue o pescoço, que gira no ar. Um peru bêbado. Os olhos anuviados.

         Cai, e olha o Chico ora com um olho, ora com o outro. Abre o bico, como se quisesse falar qualquer coisa.

         Olha o chão. Uma minhoca põe a cabeça de fora, põe todo o corpo de fora, dança no ar. O urubu olhando.

         O urubu olha o Chico. Levanta num pulo. Dá um passo, dois, três em direção do Chico. Gira o pescoço no ar.

         O Chico seria capaz de apostar que o urubu estava rindo. Tinha readquirido forças. Filho da puta. Vinha vindo direto para cima do Chico.

         O Chico treme de medo.  Corre para cima da escada. Sobe dois degraus. A tábua do terceiro degrau cai. O Chico rala o joelho numa farpa da madeira. Olha o sangue, olha o urubu. Será que o urubu iria querer o sangue dele?

O urubu marcha altaneiro, no centro do terreiro. Anda meio de banda, mas mete medo. Está lambuzado de terra, de sal, de sangue. O sal da carne-seca, respingado no chão. O sangue também da carne-seca, ainda um tanto verde? Ou do urubu, ele mesmo, dando golfadas de sangue preto pela boca?

O Chico se encolhe no alto da escada. O urubu dá um passo, e olha em volta, dá outro passo, e olha para o Chico. Desembesta, avança feito doido para o Chico. E cai. Fica estatelado no chão.

Ergue só o pescoço, gira o pescoço no ar. O Chico corre para dentro de casa. Mãe, mãe! Agora que se lembrou da mãe, que não está em casa. Também, não iria ter coragem de mostrar para a mãe o urubu estrebuchando no quintal.

É. O urubu estava estrebuchando no meio dos varais de carne seca. Tinha feito um círculo de sangue, e ele, o demônio nojento, no meio, dançando uma dança macabra.”

 

 

 

sábado, 9 de outubro de 2021

Nobel para os retirantes

 

 

Nobel para os retirantes

 

A minha primeira experiência com os retirantes foi a leitura de “Vidas secas”, de Graciliano Ramos. Renan Calheiros foi infeliz na sua comparação, na CPI da Covid, pertinente para o caso, mas injusta, superficial. “Dentro de casa, Fabiano grita, xinga, bate na mulher, nos filhos e até na cachorra Baleia. Mas, diante do patrão, fala fino, obedece, é puro servilismo e se borra de medo do soldado amarelo”, diz do depoente. É preciso ir mais longe, vou contar a minha interpretação de Fabiano. Graciliano Ramos encontrou-se uma noite com Getúlio Vargas passeando na praia. Tinha acabado de sair da cadeia, preso por Getúlio, sem nenhuma acusação. Sofreu horrores. Acariciou, ao menos mentalmente, a arma que se costumava carregar naqueles tempos primitivos. Por um estranho respeito à autoridade, bem brasileiro, leva a mão ao chapéu num leve cumprimento, volta para casa e se vinga escrevendo o capítulo “O soldado amarelo”, em que Fabiano se encontra com o soldado amarelo perdido na caatinga, acaricia a peixeira e ensina o caminho para o infeliz. Não teve nenhum pingo de medo. Fabiano é Graciliano Ramos. Euclides da Cunha disse que “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” Fabiano, como Graciliano, é, antes de tudo, um forte.

A minha segunda experiência com os retirantes foi com o quadro “Retirantes”, de Portinari. É de uma força estranha esse quadro, aquela família de retirantes, famélica, os ossos à mostra, impõe-se com um impacto brutal para o observador mais neutro. Neutro? Não, ninguém fica indiferente diante da crueza desse quadro. Tive a felicidade (vontade de pôr esse “felicidade” entre aspas, mas precisaria pôr este parágrafo todo entre aspas, desculpem) de tirar uma fotografia junto a Pietro Maria Bardi, diante desse quadro de uma dor extrema, quando fomos homenageados no Masp em 1984, pelo Pen Centre de São Paulo, por nossa obra literária, ele na prosa por um livro sobre o café, eu na poesia por meu livro “Exílio”. Não, não tenho a foto. Era tão importante, um dos maiores momentos da minha carreira, que o fotógrafo a perdeu. O que me ficou foi a lembrança do quadro caindo sobre nós como uma hecatombe. Ninguém poderia mais menosprezar os retirantes.

Atualmente, o problema dos retirantes é onipresente. Podemos dizer que é o maior problema de nossa época. Ou de qualquer época, desde Moisés levando os judeus retirantes do Egito, onde eram escravos. O problema dos retirantes é, em essência, a luta pela terra. Ou seria, se não estivesse em primeiro lugar a luta pelo poder. O outro que se dane, parece que se tornou, cada vez mais, a filosofia de nossa época. Quem pensa contra é comunista – e, portanto, deve ser destruído. Portinari era comunista, por isso defendia os pobres e oprimidos. Portinari seguia os ensinamentos de Cristo: amar o próximo, defender os mais fracos. Não era hipócrita, “sepulcro caiado”, como os políticos que lutam apenas pelo poder, com a filosofia de que quem é contra é comunista e, portanto, merece morrer. Disseram isso de Marielle, que menosprezam, como menosprezam os nordestinos que estão no caminho de sua ganância.

Todo mundo se lembra da morte de Alan Kurdi, o menino refugiado sírio de três anos morto por afogamento. A sua história causou consternação ao redor do mundo, tinha escapado das atrocidades do grupo autointitulado "Estado Islâmico" na Síria, vindo a morrer atrozmente como a maioria da família. Impossível imaginar o desespero do pai, único a se salvar, elevando o filho ao ar. Pedindo compaixão? Culpando os céus? Todos os anos morrem milhares de refugiados, e ninguém é capaz de socorrê-los, nenhuma luz de esperança se acende para eles. A história da humanidade é a história da crueldade do homem. O barco soçobra? Muito mais gente luta para levá-lo ao fundo do que para salvá-lo. Navegamos no barco da loucura emprenhada, as bruxas do mal dançando a sua dança sinistra, num coro endemoninhado para que vá ao fundo, para que mais gente morra, nem que seja para aliviar a carga. O sentimento humanitário morreu na alma dos homens, cegos em sua volúpia pelo poder, loucos, vazios de humanidade, do mínimo que haja de sentimento solidário. Não adianta culpar os céus ou a terra, os homens são os culpados de tamanha atrocidade, nós somos os culpados.

Em meio a tanta desolação, é um alívio, mais, é a exultação que só os grandes poemas propiciam a notícia de um refugiado que venceu as adversidades para lutar pelos seus irmãos ao redor do mundo. O refugiado não é um pobre coitado sem valor algum, mas pode ser um grande homem que usa a sua criação para o bem da humanidade. Esta semana soubemos de um refugiado que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, logo depois soubemos de que um outro ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Real das Ciências da Suécia anunciou na última segunda-feira que os ganhadores do Prêmio Nobel em Medicina são David Julius e Ardem Patapoutian, que foram premiados por suas descobertas sobre receptores de temperatura e toque no corpo humano. David Julius nasceu nos Estados Unidos, mas Ardem Patapoutian nasceu em Beirute, no Líbano. Ele atua como professor na Scripps Research, Califórnia, nos Estados Unidos, e é pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes, em Maryland, desde 2014, mas chegou aos Estados Unidos como refugiado de uma guerra de extermínio que havia no Líbano, principalmente contra as minorias, como os armênios, de quem ele fazia parte. Todos sabemos o que foi o Massacre de Sabra e Chatila, faz pouco tempo, na década de 1980. Ardem Patapoutian sobreviveu a essa carnificina. Um grande homem de apenas 54 anos, ontem mesmo apenas um refugiado.

Outro grande refugiado é Abdulrazak Gurnah, da Tanzânia. Árabe e muçulmano, perseguido pelos outros africanos, que se consideravam de raça mais pura,  foi obrigado a fugir com os pais para não morrer. Este ano aposentou-se de uma bela carreira de professor universitário, e esta semana foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura por ter feito em seus romances uma abordagem "sobre os efeitos do colonialismo e o destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes". Quando recebeu o telefonema, nem acreditou na notícia de que tinha ganhado o Nobel. “É piada?”, perguntou. Foi preciso o outro identificar-se, dar os qualificativos oficiais da Academia Sueca, por um longo tempo, para ele acreditar. Estudou e editou as obras de Orhan Pamuk, romancista turco mais conhecido popularmente. Pamuk, quando soube da premiação, exultou como se fosse o próprio premiado. Teria dito algo como: “Ele editou os meus livros, agora foi premiado com o Nobel. Estou feliz da vida.”

A obra mais conhecida e que deve ter dado o Nobel a Abdulrazak Gurnah é “Paradise”, romance que conta a história de um menino tanzaniano acompanhando uma caravana árabe pela África Central e Bacia do Congo durante a Primeira Guerra Mundial. “Desertor”, ao lado de “Paradise”, é o seu romance mais famoso. “Admiring Silence” é a história de um jovem que retorna à Tanzânia depois de 20 anos na Inglaterra. “By the Sea”, traduzido em Portugal como “Ao lado do mar”, esgotado e não distribuído no Brasil, foi finalista do Los Angeles Times Book Prize, tem como narrador um idoso refugiado de Zanzibar, como o autor, que pede asilo na costa da Inglaterra. Gurnah tem 73 anos e é autor de dez romances, todos inéditos no Brasil, sendo o mais recente “The Last Gift”. Segundo o Comitê do Prêmio Nobel de Literatura, “A dedicação de Abdulrazak Gurnah à verdade e sua aversão à simplificação são impressionantes", e "Seus romances fogem de descrições estereotipadas e abrem nosso olhar para uma África Oriental culturalmente diversificada, desconhecida para muitos em outras partes do mundo."

O que dizer dos refugiados? Começando pelos nossos retirantes nordestinos, chegando aos ganhadores do Prêmio Nobel de Medicina e de Literatura, só podemos constatar que o retirante ou refugiado não é um pobre coitado. O retirante é, antes de tudo, um forte.