segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Poemas da Quarentena (50) Cântico dos Cânticos
Picasso
Poemas da quarentena – 50
CÂNTICO DOS CÂNTICOS
A amada monta o amado com uma
risada enorme
e um grito de desejo
como uma cadela se debatendo no
cio
e o amado tem uma flor nos
dentes
e os seus olhos brilham
e a amada pensa que foi picada
por um caranguejo
e os dois uivam de amor e dor.
Uma estrela caiu no charco
e se treme toda de frio
e um guarda com o fuzil ao ombro
acende o cigarro olhando a lua
e os pescadores benzem a água
salobra
à espera do peixe impossível
e um urutau chora triste como
uma criança doente
e a estrada segue no meio da
poeira espiralada
para nunca mais.
sexta-feira, 22 de maio de 2020
Poemas da quarentena (1): O sobrevivente
O SOBREVIVENTE
Deus se tornou uma palavra
inútil.
O amor se tornou uma palavra
inútil.
As minhas mãos tecem os
trabalhos e os dias.
Já não sei chorar.
O meu coração é de gelo.
Não quero saber mais das
mulheres ou das crianças.
Estou sozinho no escuro
onde a minha solidão é maior
e posso vazar os meus olhos em
segredo.
A velhice pesa como chumbo.
Já não aguento o peso do mundo.
O homem é um animal com a morte
nos olhos.
Os ratos já roeram o edifício,
o suicídio não é mais a questão
capital da filosofia.
Vivo um tempo em que é inútil
morrer.
Sobrevivo a mim mesmo como um
bagaço no chão.
Este é o tempo dos cegos.
A vida é o caos.
A vida não tem mais nenhuma
justificação.
Poemas da quarentena (1)
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