sexta-feira, 22 de maio de 2020

Poemas da quarentena (1): O sobrevivente

                                                                                                                Goya




O SOBREVIVENTE


Deus se tornou uma palavra inútil.
O amor se tornou uma palavra inútil.
As minhas mãos tecem os trabalhos e os dias.
Já não sei chorar.
O meu coração é de gelo.

Não quero saber mais das mulheres ou das crianças.
Estou sozinho no escuro
onde a minha solidão é maior
e posso vazar os meus olhos em segredo.

A velhice pesa como chumbo.
Já não aguento o peso do mundo.
O homem é um animal com a morte nos olhos.
Os ratos já roeram o edifício,
o suicídio não é mais a questão capital da filosofia.

Vivo um tempo em que é inútil morrer.
Sobrevivo a mim mesmo como um bagaço no chão.
Este é o tempo dos cegos.
A vida é o caos.
A vida não tem mais nenhuma justificação.




                                                 Poemas da quarentena (1)






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O país impossível, livro de poemas impossíveis a sair em breve





Capa de O país impossível, a ser lançado em breve. Poemas duros de um tempo duro, neste país impossível, neste país que não é para principiantes, neste país cronicamente inviável, neste país sem pobres, neste país da criança morta, enfim neste país da solidão cósmica.

Capa: Aran Carriel 

Prefácio: Mar Becker 


Editora Sebo Clesidra
R. Dr. Cesário Mota Júnior, 296, Vila Buarque, São Paulo
Tel.: 11 2476-0378 – fb.com/seboclepsidra – seboclesidra@gmail.com











domingo, 19 de janeiro de 2020

Uma aranha negra

                                                                                             Kandinky





UMA ARANHA NEGRA


Uma aranha negra tece as nuvens no céu
os meus olhos estão tingidos de vermelho.
Fui lavá-los no rio e a água ficou vermelha
muito tarde percebi que era a cor do sangue
ou sempre soube.
Uma pedra caiu do alto
explodiu como uma bomba na minha cabeça
e eu aprendi tarde demais
que o mundo é trágico.
O sol sangrento desceu do alto para chorar
sobre a terra pobre.
Disputamos a maçã do paraíso com punhais afiados
e Caim está sempre matando Abel.