segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

O trabalho dos dias




O trabalho dos dias


Não creio em milagres. Mas a vida é um milagre.
Os cavalos relincham na madrugada. A vida é um milagre.
A chuva lava as árvores e os animais. A vida é um milagre.
Os corações batem como relógios desgovernados. O coração é um milagre.
Os telhados são vermelhos como o sangue e pulsam.
As parteiras são cândidas como a minha mãe. Aplaudam a risada das parteiras.
O céu se abaixa para me proteger, os montes se abaixam maternalmente.
Tenho um poder tão grandioso em mim, pulsa em mim um poder antigo.
Uma escuridão imensa cai sobre as coisas.
A montanha maternal vela o meu corpo pequeno.
O trabalho dos dias é suave sob os barrancos e as águas calmas.






domingo, 1 de dezembro de 2019

O TEMPO ME SUSTENTA





O tempo me sustenta


O tempo me sustenta. O tempo é o que o tempo quer ser.
Tenho o tempo nas mãos como uma coisa,
como um pedaço de argila que tento moldar.
É como se o tempo fosse concreto, exato.
Espero como quem sabe. Sofro e espero.
Não há muito o que fazer. A casa está arrumada
como se estivesse à espera da morte.
Minhas mãos tecem o tempo como uma rede
que se desfaz nó a nó, logo após ser tecida.
É preciso desfazer os nós da vida para depois viver.
Leio o meu poema antes que se desfaça como pó.
A cidade torna-se papel e se desfaz num átimo.
Procuro a minha sombra, como se a minha sombra me justificasse.
A cidade espera comigo, desfaz-se comigo.
O capim cresce entre as pedras, entre os vãos do asfalto. 





domingo, 24 de novembro de 2019

A VIAGEM DO TEMPO





A VIAGEM DO TEMPO


Sempre chegamos tarde na viagem do tempo.
As palavras se desfazem no nevoeiro.
Esqueci o combate com o anjo
nem sei mesmo se não é pura invenção.
Perdi o trem, estou sem minhas malas,
sem as minhas roupas, num hotel
de uma cidade estrangeira. Não entendo a língua,
as muitas línguas com que tentam se comunicar comigo.
Não me reconheço na fotografia do passaporte,
talvez um poeta sobrevivente ao nada do seu poema inútil.