sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O horizonte

 



O horizonte

 

Olho o horizonte com esperança. Sempre olho o horizonte com esperança. Depois olho o mundo a meus pés, mas sem desesperar. Nunca podemos nos deixar abater pelo desespero. Os ônibus, os caminhões, as motos passam sem parar. Cada um querendo fazer mais barulho do que o outro. Este mundo é uma disputa por barulho, por espaço, por desespero. Sim, até o desespero se disputa. O meu desespero é maior do que o seu. Sempre o meu desespero tem que ser maior que o seu.

As maritacas enchem a manhã com os seus gritos felizes. Felizmente há alguém que supera o barulho dos motores. Não por muito tempo, mas supera. E vejam que eu escrevi “gritos felizes”. Posso até ouvir os pios das andorinhas, e juraria que são pios felizes. Passam pertinho de mim, aqui no meu sétimo andar, como se quisessem cumprimentar-me. Como se quisessem partilhar a sua felicidade. Depois mergulham até lá embaixo, até a piscina, para refrescar as peninhas na água clara.

As nuvens refletem-se na piscina azul como o céu azul. As nuvens refletidas na piscina são escuras. No céu limpo são brancas, muito brancas, esgarçadas aqui, compactas acolá. Faz tempo que não vejo ou escrevo essa palavra, acolá. Logo cai em desuso. O nosso vocabulário vive em perigo de empobrecimento precoce. Eu disse “o nosso vocabulário”, o que é a mesma coisa que dizer “a nossa língua”. E preciso acrescentar que, quando digo “nossa língua”, estou dizendo “nós”. Sinal dos tempos? Sempre se fala em “sinal dos tempos”. Desde os tempos de Cristo se fala em final dos tempos, próximo, muito próximo. Uma guerra, e o homem sempre está em guerra, o vermelho do horizonte, vermelho como sangue, tudo lembra o fim dos tempos.

Já o Eclesiastes falava que tudo tem o seu tempo. Tempo para viver e tempo para morrer. Portanto não apressemos o andar da carruagem. A pandemia matou muita gente, demais, centenas de milhares de mortes desnecessárias, que poderiam ter sido evitadas, mas não é o fim do mundo, não nos desesperemos. O homem colabora para o fim da vida na terra, mas não nos desesperemos. Combatamos a insanidade humana, que tudo destrói. Combatamos a insanidade humana, que não chora seus mortos. Sem desespero, mas lutando para que as coisas não sejam assim. Sem aceitar passivamente a desgraça. Sendo solidários com a vida do próximo.

As maritacas gritam. São gritalhonas por natureza. A vida é bela. Olho o verde ao meu redor, para onde quer que eu olhe vejo o verde. Beleza, beleza e esperança. Sinal de vida – onde há verde, há vida. Pena que quando andamos nesta cidade seca sintamos tanta falta de árvores. A irresponsabilidade humana é sem limites. Esta cidade é chamada de – Sem limites. É ou era? Há limites para a estupidez humana. Esta última frase parece fora de contexto, mas o que é fora de contexto nesta vida louca? As coisas estão caminhando para o passado. Mas no passado havia muito mais verde, muito mais vida. Foi D. Pedro II quem começou a se preocupar com a preservação das nossas florestas. Os governantes pioram. O progresso faz o homem regredir.

Um bem-te-vi canta. Um bem-te-vi grita. Como se soubesse que o homem está ficando surdo, o bem-te-vi grita. Sempre me lembro de Cecília de Meireles e o seu bem-te-vi caprichoso, modernoso. Era um bem-te-vi econômico. Dizia apenas “te-vi”. Será que não nos via bem? Logo estaria dizendo muito menos. Estaria dizendo apenas “vi”. A verdade é que os animais têm o seu habitat invadido. Os sabiás mudam os seus hábitos. Começam a cantar com o escuro, noite ainda. É quando ainda têm paz. Uma relativa paz.

Falei de Cecília Meireles é não é para menos. Dia 7 de novembro comemoramos os 120 anos de Cecília Meireles. Foi uma vida de muita poesia. Cecília Meireles foi dos poetas que mais escreveram. Muitos poemas de alta qualidade. Manuel Bandeira escreveu pouco. Tamanho não é documento. Drummond, Murilo, Pessoa escreveram muito, muitíssimo. Aprendemos com Cecília Meireles: “Escrevo porque o instante existe/ e a minha vida está completa.” Mas também que o tempo passa implacável, que nem percebemos: “Eu não dei por esta mudança/ tão simples, tão certa, tão fácil. / Em que espelho ficou perdida/ a minha face?” Aprendamos a viver a nossa vida “completa”.

 

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Memória: "Livro dos bichos", ed. limitada de 30 exemplares


 

 

                                                    O macaco 

 

 

A morte das estrelas fez nascer

o meu corpo, as montanhas, os oceanos.

A explosão das estrelas espalhou

as entranhas no espaço sideral

 

e criou o sistema solar e este

macaco que questiona a sua origem.

Sou um resto de estrela com consciência.

O cosmo nasce da explosão do tempo.

 

Serei a consequência inevitável

de uma lei natural? Um acidente?

Sou ou não necessário ao universo?

Posso apenas medir? Existe um plano?

 

Somos feitos do cosmo e estamos nele.

A ciência busca Deus, concreto, físico.

Antes do tempo, Deus guarda a existência

e de mim mesmo sou um ancestral.

 

 

 

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Prêmio Uirapuru 2021 - 2º lugar com o livro de crônicas "O afinador de silêncios"

                          VENCEDORES UIRAPURU 2021 

 

       Fiquei em 2º lugar. Viva! Festas! Uma grande vitória! 

 

       Confira a lista dos vencedores: 

 

        https://1drv.ms/b/s!AlFv-pB7HtUokwnYO3SQbqwHcoXq?e=aafsbc  

       

         Editora Folheando 

 

 

 

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Moça caminhando na praia


 

Moça caminhando na praia  

  

     Um homem e um cachorro caminham na praia. O homem atira um pedaço de pau, o cachorro vai buscar. Repete a brincadeira, uma, duas, dez vezes. Não contei, mas vai bem dez vezes. Nesse joga e busca o pedaço de pau, o homem se aproxima e eu vejo que não é um homem, mas uma mulher. Bem que eu desconfiara, mas uma mulher não caminharia sem camisa na praia. Agora eu vejo que a moça – não era muito jovem, nem era bela, mas era uma moça – estava vestida com uma leve blusa azul, de um azul cor de anil, de um azul cor do céu. O azul das ondas do mar misturado ao azul do céu certamente me confundira, e eu não vira blusa nenhuma. 

     Vou aproveitar que falei também em céu, e preciso lembrar que o céu estava lindo, mais que lindo, deslumbrante. O azul do céu estonteava, tão brilhante. Era como se fizesse ondas, acompanhando as ondas do mar. E então vinham as nuvens, uma festa para os olhos. As nuvens, como costumam fazer, desenhavam figuras no céu. Um carneirinho chorava a mãe distante. Um elefante pequenino, muito pequenino, estava perdido entre as nuvens indiferentes. Abria a boquinha para chorar, mas como será o choro de um elefante? Onde estará a mamãe-elefante? Eu me lembro de que aprendi no ginásio que o feminino de elefante é aliá. Aliás, será mesmo? Desconfio de tudo que aprendi antigamente, e os meus bancos ginasiais eram muito antigamente. 

     A moça já está bem próxima para eu ver que ela não é bela, nem bela nem feia, mas a sua face brilha ao sol. Ela não sorri, mas aposto que está feliz. Passa as mãos pelos cabelos, curtos, negros, soltos com uma displicência e um à-vontade que só faz sorrir. Não digo que faz sorrir encantado, porque certamente eu não estava encantado, mas estava me divertindo.  

     O cachorro late para a moça, ela faz que não escuta, uma, duas e três vezes, depois late de volta. Eu não estava perto o suficiente ainda, mas juraria que ela estava latindo, juraria, se não soubesse que moças não latem. Ela por fim jogou o pau para trás, o mais distante que pôde, o cachorro latiu pedindo mais, e ela jogou outro pedaço de pau para trás, para mais longe. O cachorro latiu feliz, latiu, latiu. Depois foi buscar o pau balançando o rabo, balançando o rabo ao sabor das ondas. Foi buscar os paus, correndo e latindo de felicidade. A moça não estava sorrindo, mas estava feliz, aposto que estava feliz. 

     Discutem tanto sobre o que é a felicidade, o que é preciso para nos tornarmos felizes, e não são capazes de ver. Olha aí, a felicidade é uma moça e um cão andando na beira da praia. A moça nem precisa estar sorrindo, pode até estar de cara feia, e o cão pode babar feio como o cão do Cão, mas aqui, hoje, nesta praia de areias claras, visitada a todo momento por umas águas claras, fazendo espuma, e coberta por um céu azul com nuvens brincalhonas, aqui e agora ninguém precisa definir o que é a felicidade. E se você ainda não se deu conta, vou lhe contar o segredo: a felicidade não é uma moça andando na praia com o seu cachorro, a felicidade é olhar a moça e o seu cachorro. 

     Agora os dois estão muito perto e eu posso ver que o cachorro é feio e a moça é feia. E nem parecem felizes. Um pássaro abre as asas sobre nós, tem as penas quadriculadas, por onde passa o sol. O pássaro grita. Vai e volta várias vezes, como se estivesse brincando, como se estivesse festejando. Como se estivesse me contando a sua verdade essencial. A felicidade é a beleza do sol, da tarde, das águas e das areias, é uma moça com o seu cão, é um sentimento de ausência e de plenitude – diante dele você só quer parar, estufar o peito, repleto. Nem precisa responder repleto de quê, você não precisa mais ter respostas, a vida não precisa mais fazer sentido, olé. A vida é como um touro na arena, olé. Chega um momento em que você não precisa de mais nada.  

Finalista - livro de crônicas O afinador de silêncios