domingo, 1 de dezembro de 2019

O TEMPO ME SUSTENTA





O tempo me sustenta


O tempo me sustenta. O tempo é o que o tempo quer ser.
Tenho o tempo nas mãos como uma coisa,
como um pedaço de argila que tento moldar.
É como se o tempo fosse concreto, exato.
Espero como quem sabe. Sofro e espero.
Não há muito o que fazer. A casa está arrumada
como se estivesse à espera da morte.
Minhas mãos tecem o tempo como uma rede
que se desfaz nó a nó, logo após ser tecida.
É preciso desfazer os nós da vida para depois viver.
Leio o meu poema antes que se desfaça como pó.
A cidade torna-se papel e se desfaz num átimo.
Procuro a minha sombra, como se a minha sombra me justificasse.
A cidade espera comigo, desfaz-se comigo.
O capim cresce entre as pedras, entre os vãos do asfalto. 





domingo, 24 de novembro de 2019

A VIAGEM DO TEMPO





A VIAGEM DO TEMPO


Sempre chegamos tarde na viagem do tempo.
As palavras se desfazem no nevoeiro.
Esqueci o combate com o anjo
nem sei mesmo se não é pura invenção.
Perdi o trem, estou sem minhas malas,
sem as minhas roupas, num hotel
de uma cidade estrangeira. Não entendo a língua,
as muitas línguas com que tentam se comunicar comigo.
Não me reconheço na fotografia do passaporte,
talvez um poeta sobrevivente ao nada do seu poema inútil.







quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O país kafkiano





O país kafkiano


Certa manhã acordei transformado num monstruoso inseto.
Todos os homens e todas as mulheres do meu país
estavam transformados em monstruosos insetos.
Todos fomos condenados no mesmo processo.
Era incômodo pra caralho,
continua sendo incômodo pra caralho,
mas somos monstruosos insetos.
Temos que viver com a nossa casca dura
e as nossas antenas frágeis.
Temos que viver como monstruosos insetos,
esta é a nossa condição.







terça-feira, 1 de outubro de 2019

No Dia do Idoso







No Dia do Idoso


Uma jovem lê um livro
com estrelas nos olhos
Um velho cochila
ao lado de uma tartaruga
Um anjo chacoalha
o orvalho das asas
sobre as crianças no parque