Um defeito de cor
Millôr Fernandes diz que “Um Defeito de
Cor”, de Ana Maria Gonçalves, é um dos dez romances mais importantes da
literatura brasileira. Em 2006 ganhou o prêmio Casa de Las Américas, em
Cuba. É a referência cultural e histórica da identidade brasileira. Você
pega aquele livrão, quase mil páginas e dá um passo atrás. Quando
começa a ler, vê que a narrativa é envolvente e tem muito a lhe
oferecer. É a história de Kehinde, a sua odisseia sem fim. Viu a mãe e o
ir
mão serem torturados e mortos, foi
capturada com a avó e a irmã gêmea, que morrem no navio. Chegando ao
Brasil, nada até a terra para não ser batizada com um nome de branco, na
luta para manter a sua identidade. “A viagem de Kehinde é a minha
viagem para dentro de mim mesma, onde encontrei eco das histórias que
pesquisei”, diz a autora, sobre o seu processo de busca da sua própria
identidade negra.
Kehinde
conta a sua vida como escrava na Ilha de Itaparica, na Bahia, os seus
sofrimentos e as viagens pelo Brasil em busca de um de seus filhos,
sempre fiel a seus deuses africanos, como a reafirmar as suas raízes. A
obra reconstrói o modo de vida dos africanos, portugueses e brasileiros
no tempo da escravidão, como os escravos se organizaram para sobreviver e
lutar pela liberdade no país. Kehinde ou Luísa Mahin – a narradora muda
de nome segundo a necessidade –, já centenária e cega, dita as suas
memórias. Foi uma lutadora, para manter a sua identidade, para preservar
a sua religião, matriz dessa identidade. Ana Maria Gonçalves diz: “Para
quem é mestiça, como eu, e em uma sociedade na qual o racismo é
estrutural, a identidade é uma identidade negociável. A literatura pode
ser uma ferramenta importante, porque é capaz de provocar a empatia, a
capacidade de se colocar no lugar do outro, de vivenciar outras
histórias e outras experiências.”
A história de Kehinde foi
inspirada na vida de várias mulheres. Pode-se notar que Kehinde, ao ser
retirada de sua terra para ser escravizada, passa a se estranhar, a
viver em busca de seu eu, a ver na travessia o verdadeiro motivo do
viver. É o fenômeno do eterno viajante, que vem desde Homero até
Guimarães Rosa. É o dilema do estrangeiro: não pertencer a nenhum lugar.
Quando volta à África, descobre que lá também é estrangeira: lá não é
vista como africana, mas como uma brasileira. Ao perceber que poderia
não encontrar o filho, a narradora relata o que viveu para que um dia
ele possa ter conhecimento da história da mãe e seja um herdeiro de sua
identidade. “Um defeito de cor” é um livro obrigatório: é a história das
nossas raízes, da nossa identidade de brasileiros. Nós todos somos
herdeiros de Kehinde.
(Ah, "Um defeito de cor" porque, para
ocupar um cargo na administração, no Exército ou mesmo na Igreja, os
negros tinham que escrever ao rei pedindo autorização para renunciar ao
seu "defeito de cor". A nossa história não é bonita.)