domingo, 5 de novembro de 2017
sábado, 14 de outubro de 2017
O som da água
O SOM DA ÁGUA
Deito sobre a
relva e ouço o som da água
no coração da
terra.
A água não
para de correr e cantar.
A terra é doce
como um ventre de mulher.
Um galo canta
ao longe, como se fosse
dentro da
terra.
Um cavalo
canta com o galo no dorso.
O musgo é
doce, úmido, quase líquido.
As penas do
pato selvagem voam, flutuam.
A serpente
nada no lago,
ao lado dos
peixes e dos juncos.
O monjolo cai
com estrépito e pila o milho da aurora.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
O rastro da sombra
Marc Chagall
O RASTRO DA
SOMBRA
1.
Por que a minha
sombra não me abandona
se não posso mais que tatear o seu rastro escuro?
2.
A galinha jaz
sobre a mesa, dura, expectante.
Pudéssemos nós conhecer assim o nosso destino.
3.
Eu lhe ofereço
a minha face nua, mendiga.
É a face de um homem em sua miséria.
4.
Não, não chegou
o tempo da claridade essencial.
Ainda tateamos o escuro, com dor e estupefação.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Nudez
(Marc Chagall – Nu com flores)
NUDEZ
1.
Já não tenho palavras,
o sal do mar sustenta o meu grito.
2.
Quanto tempo durará o meu corpo inútil?
Não tenho sequer um punhado de palavras para lhes
deixar.
3.
A árvore era translúcida ao sol.
Como uma palavra em sua nudez extrema.
4.
Estou sozinho no meio da multidão.
Sinto a eternidade latejar no bolso, nos pulsos.
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