segunda-feira, 19 de junho de 2017

A TARTARUGA




A TARTARUGA


A tartaruga recolheu a cabeça para dentro da sua
casca e não se moveu
o tempo se moveu
o tempo é Aquiles e se moveu para ganhar a corrida
contra a
tartaruga
os homens morrem porque é da sua natureza
a tartaruga permanece
a tartaruga imóvel
é da sua natureza ser longeva como a terra
cresce musgo sobre a sua casca
a tartaruga dentro da sua casca ouve a água que a
inunda






quarta-feira, 14 de junho de 2017

AUTOTOMIA - Wislawa Szymborska





AUTOTOMIA


Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.


Wisława Szymborska








quinta-feira, 8 de junho de 2017

A REALIDADE E A IMAGEM




A REALIDADE E A IMAGEM
                    D’après Manuel Bandeira


Não vejo o céu azul refletido na poça d’água.
Não vejo as nuvens brancas refletidas na poça d’água.
Não vejo o edifício refletido na poça d’água.
Não vejo o varal com as suas roupas coloridas refletido na poça d’água.

Não vejo as abelhas, as borboletas, as libélulas e os mosquitos
refletidos na poça d’água.
Não vejo o mendigo, o menino, o homem que xinga o mundo, a jovem
de saltos altos, a jovem de botas de canos altos, não vejo ninguém
refletido na poça d’água.

Não vejo a minha face refletida na poça d’água.
Não vejo o mundo refletido na poça d’água.
Não vejo a vida refletida na poça d’água.
Não vejo o cachorro bebendo a água da poça d’água que não reflete
nada.

A poça d’água está barrenta, suja, feia e não reflete nada.
E eu simplesmente estou vendo a vida que não é refletida, que não é
refletida na poça d’água.






domingo, 4 de junho de 2017

A SOLIDÃO É UM RATO

  



A SOLIDÃO É UM RATO


A solidão é um rato
e rói
rói fundo
rói até a alma 

As estrelas se esconderam
nenhuma imagem
nenhuma palavra
para o meu poema

O rato rói
duro
cruel
no escuro