segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

QUARESMA






Quaresma


Quarenta dias
para atravessar o deserto

e o sol queima
e a água afoga

e somos
os mesmos






sábado, 13 de fevereiro de 2016

QUARTA-FEIRA DE CINZAS







QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Porque a dor é nossa, Senhor
Porque nascemos para sofrer até o dia da nossa morte
Porque sabemos que o tempo é curto e a dor, longa
Porque sabemos que o sentido da nossa vida é dado pela dor

Porque sabemos que a glória é efêmera
Porque sabemos que o poder é igualmente efêmero
Porque conhecemos quem somos até onde nos é dado conhecer
Isto é, conhecemos quem somos até a superfície
Vestimos uma máscara para nós mesmos
A máscara nos revela a nós mesmos, é nosso espelho mais perfeito

Porque somente a terra permanece
Voltaremos à terra de que somos feitos
Comeremos as ervas da terra pela raiz
Comeremos terra até explodirmos
Porque somente a terra é o nosso destino
As tartarugas levam o tempo nas costas com a lentidão do vácuo
Somente a sabedoria do vácuo é nossa

Dizei uma palavra, Senhor
O meu poema precisa apenas de uma palavra
Não nos é dado resistir mais que o necessário
Precisamos apenas de tua palavra, Senhor, para resistir 
Mas qual é a tua palavra, Senhor?

As horas caem
As rosas caem
Os ossos caem
Caminhamos para o oblívio, Senhor
O oblívio é o nosso destino, nada mais nos é dado
É doce e leve o oblívio, Senhor
Somos cegos pela tua luz que vem do começo dos tempos, Senhor
Somos quase felizes, conhecemos a nossa dor e somos felizes




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Herança






Herança


Uma mão de pilão para espancar os fantasmas
Um fantasma para chorar comigo atrás da porta
Uma carroça para carregar a dor do mundo
Um túmulo para descansar da dor do mundo 


José Carlos Brandão






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A menina e o ovo






A menina e o ovo


A menina sentou-se na cadeira furada
e botou um ovo
o ovo caiu no chão e quebrou
de dentro do ovo saiu voando um passarinho
o passarinho era cor de ouro
e cantava muito bonito

A menina quebrou a gaiola para ninguém prender
o passarinho cantou a menina dançou
o homem de cara feia quebrou o espelho a privada
o prato de arroz que o passarinho comeu

A menina inventou uma flauta mágica e saiu
cantando pelas estradas do mundo
com um passarinho na cabeça e a beleza
como a gema do sol quebrado em mil pedaços

José Carlos Brandão