RETRATO 2/8
Sou apenas um poeta manco
não sou nem amarelo nem preto nem branco
sou um poeta manco a chiar
sou um poeta manco que se esqueceu de mancar
a chiar mas não sou nenhuma chaleira
sou um poeta vesgo sem eira nem beira
não tive nenhum anjo mocho no começo da estrada
que me mandasse ser roto na vida esburacada
nascer é muito esquisito
ainda não me acostumei com o cachimbo nem com o pito
não sou alegre nem como alpiste
nem invejo o mito para onde subiste
escrevo porque não sei cantar
a palavra é tão dura como o mármore
sou sempre o outro no diálogo impossível
sou só um poeta de meia tigela e o rato rói o edifício
José C. M. Brandão / Gregório Vaz
POEMA NADA ORIGINAL SOBRE O MEDO
tenho medo das palavras
tenho medo da falta das palavras
tenho medo de boi bravo
tenho medo de marimbondos
tenho medo de política
tenho medo da falta de política
tenho medo da morte, a ineludível
tenho medo da covid-19, a incógnita
tenho medo dos militares
tenho medo das armas
tenho medo dos imbecis
tenho medo do verde, da falta do verde
tenho medo da terra, da falta da terra
do ar, mais ainda da falta de ar
do fogo, da borboleta, do abismo que a borboleta sobrevoa
do céu azul, do sol, do abismo, repito, é preciso ter medo do abismo
José C. M. Brandão