sábado, 10 de abril de 2021

UMA VIDA INTERROMPIDA

 

 

“Uma vida interrompida”, de Etty Hillesum, é um testemunho contundente, uma visão nova, iluminada, do bem e do mal. Etty vivia numa Amsterdam ocupada por Hitler, e começou a escrever o seu diário em 1941, com 27 anos de idade, seguindo o conselho de seu analista, Julius Spier. Logo torna-se secretária e amante de Spier. Era governanta da pequena pensão onde vivia e amante do dono. Não era nenhuma jovenzinha inocente, mas uma advogada, estudante de línguas eslavas, professora de russo, uma mulher madura vivendo em um mundo que se desfazia, e com plena consciência dessa hecatombe. “Afirmei uma vez para mim mesma em voz alta, no meio da noite, constatando com certa sobriedade: ‘Agora estou no Inferno’”.

Etty trabalhava no Conselho Judaico e solicitou transferência para o Departamento de Bem-Estar Social do Campo de Trânsito de Westerbork. Ali prestará todo tipo de ajuda a milhares de deportados judeus antes de serem transferidos para o destino final. Como pertencia ao Conselho Judaico tinha autorização para ausentar-se do campo, o que fez três vezes, deslocando-se até Amsterdam. Na terceira vez ficou seis meses fora. Poderia fugir, passar à clandestinidade, mas preferiu “partilhar o destino do seu povo”. Ali receberá os seus pais e seu irmão, e partirá com eles para o campo de extermínio, Auschwitz. Se não fosse, outro iria no seu lugar.

Diz no seu diário: “Qualquer situação, por muito miserável que seja, é absoluta e contém em si o bem e o mal.”

Percorrendo os longos corredores, debruçava-se sobre cada doente e perguntava: ‘O que posso fazer por você?” “Nessa tarde (diz em uma carta), fiz uma vez mais, a ronda pelo meu barracão-hospital, indo de cama em cama. Quais as que ficariam vazias no dia seguinte? As listas de transporte nunca são reveladas senão no último momento; ainda assim, alguns sabem antecipadamente que terão de partir. Uma menina chama-me. Está sentada na cama, muito direita, de olhos arregalados. A menina tem pulsos finos e um rostinho estreito e transparente. Está parcialmente paralisada, começava justamente a reaprender a andar, apoiando-se em duas enfermeiras, passo a passo. ‘Já sabe? Tenho de ir?’, diz-me, sussurrando. ‘Como? Você tem que ir?’. Olhamos por momentos uma para a outra, incapazes de falar. O seu rosto como que desapareceu; ela é apenas olhos. Então, volta a falar, com uma vozinha monocórdica e abafada: ‘Que pena que tudo o que aprendemos na vida tenha sido em vão, não acha?’ E ‘É tão difícil morrer, não é?’”. Mais do que o relato de um drama, sentimos a própria essência do drama, na primeira pessoa, Etty vive o drama do outro.

Nada é gratuito, mas disponibilidade e entrega. No seu diário, lugar de confidências imediatas atiradas no papel, Etty Hillesum descreve o que sente e o que vive com uma simplicidade desarmante. Afirma: “E pode ser que consigam arrasar-me fisicamente, mas mais do que isso não.” Conclui: “Eu acho a vida bela e sinto-me livre. Os céus dentro de mim são tão vastos como os que estão por cima de mim.”

O seu cotidiano é cruel, com todas as coisas que esconde e revela: “Como isto é estranho. É guerra. Há campos de concentração. Pequenas crueldades amontoam-se por cima de pequenas crueldades. Quando caminho pelas ruas, sei que, em muitas das casas por onde passo, há ali um filho preso, e ali um pai refém, e ali têm de suportar a condenação à morte de um rapaz de dezoito anos. E estas ruas e casas ficam perto da minha própria casa.”

São terríveis as constatações do seu dia-a-dia: “O que eles querem é o nosso extermínio, também isso eu aceito. Sei-o agora. Não vou incomodar outros com os meus medos, não vou ficar amargurada se outras pessoas não entenderem do que se trata, para nós, judeus. Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida cheia de sentido – sim, cheia de sentido – apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo. O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, os horrores indizíveis – tudo em mim é como se fosse uma unidade, e eu aceito tudo como uma forte unidade e começo a entendê-lo cada vez melhor, para mim, sem que ainda consiga explicar a alguém como é que tudo isto se encaixa”.

Ouviu numa rádio inglesa que setecentos mil já haviam sido aniquilados. A possibilidade da sua destruição é cada vez mais evidente, mas Etty permanece firme e íntegra. Terá sido a crescente violência nazista que forçou Etty à tomada de consciência da sua identidade judaica? Não há nela qualquer derrotismo. Aprendeu a aceitar a vida como um todo, com significado, apesar de todas as barbaridades. Por entre o quadro lúgubre de destruição e desumanidade, foi capaz de vislumbrar a beleza e o sentido profundo da existência humana. É tanta a sua grandeza de alma que sente compaixão dos seus algozes: “Na realidade não estou com medo. Não porque eu seja valente, mas porque eu sei que estou lidando com seres humanos e hei de tentar entender toda e qualquer expressão de quem quer que seja, na medida do possível. E isto foi o mais importante desta manhã: não o fato de um jovem oficial da Gestapo ter gritado comigo, mas o fato de eu não ter sentido qualquer indignação e ao contrário ter experimentado uma sincera compaixão pelo rapaz”.

            Há muitas citações neste texto porque tudo que Etty Hillesum escreve é importante, impactante, terrível. Etty vira de ponta-cabeça em nós aquela ideia de que os judeus caminharam para a morte como cordeirinhos. Morreram como animais no matadouro, mas com dignidade. Os nazistas quiseram aniquilar toda a dignidade dos judeus, e aparentemente o conseguiram, mas apenas aparentemente, por dentro eles preservaram toda grandeza humana.

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(“Uma vida interrompida”, editora Ayiné, Belo Horizonte)

 

 

 


sábado, 3 de abril de 2021

A MONTANHA MÁGICA, DE THOMAS MANN

                     

         

                

                                               
                                      

                                                        A montanha mágica


    Ler “A Montanha Mágica” é aprender a morrer. Quem vive está morrendo um pouco, e nessa montanha se vive muito devagar. Narra-se a história de Hans Castorp, um jovem sem muitas qualidades, que o autor apenas não quer chamar de medíocre. Estava um pouco esgotado, ao término de seu curso de engenharia. Antes de assumir um alto cargo na firma dos parentes, vai para um sanatório na montanha para repousar por quinze dias, com o pretexto de visitar o primo tuberculoso.

    Os médicos descobriram que ele trazia a doença embutida, e fica interno também. Então opera-se uma transformação nele, paulatinamente, à medida em que vai vivendo nesse lugar em que parece que o tempo não existe. No breve retrospecto de sua vida pregressa, é interessante notar o paralelo entre sua biografia e a de Thomas Mann, que também ficou sem pai (distante, no Brasil) e, embora tivesse a mãe, entregue à indiferença dos parentes. Falando no paralelo biográfico, vamos notar já o inacreditável capítulo sobre o passeio na praia – isto na montanha, num lugar que vivia coberto de neve, mesmo no verão – como se a mãe do autor, brasileira, de Paraty, deixasse nele esse sentimento atávico do mar.  

    Vai conhecendo os hóspedes da clínica, que parece não terem nada de extraordinário. São de fato pessoas comuns que pegaram uma doença incurável, na época, e convivem com ela da melhor maneira possível. Quanto melhor é essa convivência, quanto mais parecem normais, mais ganham profundidade psicológica, mais vamos conhecendo quanto de humano pessoas comuns carregam dentro de si.
Como não poderia deixar de ser, há a discussão religiosa – na pessoa de duas das personagens mais interessantes, mais complexas, um escritor e um jesuíta, dois pândegos a princípio, que vão crescendo e dominando a cena. É a cidade de Deus e a cidade dos homens em luta, ambas carregadas de erros, tentando justificar-se e impor-se. O desenlace dessa disputa será o clímax do romance. Sem vencedores, mas com perda e desengano. No entanto, a vida continua. 

    Hans Castorp conhece ou pensa conhecer o amor. Não percebe que quem vive nas suas condições não tem direito de amar. Como se dissesse que quem vive nas condições em que todos nós vivemos a vida não tem direito a amar. É às vésperas da 1ª Guerra Mundial, quando o mundo vai transformar-se. Hans Castorp amadurece de repente – isto é, falamos que ali o tempo não existia, mas é tão vagarosamente que se passam as transformações nas pessoas que, quando vêem, já são outras.
     

    Como se fosse de repente. Nada poderia ser de repente num livro de 800 páginas. Nada poderia ser mais surpreendente num livro de tantas páginas, em que não acontece nada, e que nos deixa presos àquele mundo cheio de humanidade, que sangra sem que se perceba, que morre – e olha-se com galhardia a morte –, enquanto nos vamos enriquecendo interiormente. Não é apenas Hans Castorp que cresce ao longo do romance. Não são apenas as personagens – sem grandeza como nós – que crescem ao longo do romance. Nós também.