quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A CONDIÇÃO HUMANA





































1.      O CÉU É PESADO

O céu é pesado como chumbo.
Estou sozinho, muito longe, sem proteção.
A noite me devora.
                                        

2.      O INVENTOR

Quem inventou o relógio
não inventou o tempo.
Eu inventei.
                 

3.      CONDIÇÃO HUMANA

Estou vivo sobre a terra.
Um dia estarei morto.
Não há outra condição.
                 

4.      PACTO

O demônio viaja comigo.
Preciso lembrar-me de meus irmãos.
                            

5.      ASPIRAÇÃO

A lagarta olha a bela borboleta e diz:
– Nunca vou ser feia como esse bicho.


6.      O QUE EU ESTOU FAZENDO

O que eu estou fazendo aqui?
A terra gira, o sol gira, eu não saio do lugar.


7.      A VIDA NÃO TEM

A vida não tem nenhum mistério.
(Não deem comida aos pombos e aos poetas.)


8.      UM PEIXE CEGO

Um peixe cego me faz companhia.
Choramos juntos a solidão do universo.


                                                                       J. C. Brandão







terça-feira, 15 de novembro de 2011

A MAÇÃ NO ESCURO



























A MAÇÃ NO ESCURO


A maçã vermelha como sangue
sobre a mala: comerei desse fruto?

O real palpável como uma mala
e uma improvável maçã.

A poesia reside no real.





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

UMA LABAREDA



























UMA LABAREDA


Uma labareda atravessa a minha língua,
queima,
ilumina
as palavras que escrevo.
O teu corpo é um campo lavrado,
semeado
e brotando
ao sol.
É de ouro o teu corpo ao sol estival.

O mel fulgura com o incêndio de todas as abelhas
no teu corpo.
A morte é pouco milagre
para tanta colheita.
As coisas dormem com o perfume das árvores.

As coisas,
faca,
estrela,
pedra,
lume,
terra,
serpente,
as coisas são insaciáveis
refletidas, multiplicadas no espelho do tempo.





quinta-feira, 10 de novembro de 2011

POEMA DO JORNAL - uma "gambiarra literária"



 
POEMA DO JORNAL


O poeta faz um poema com o jornal na mão.
Abre os olhos e vê um homem que levanta uma faca.
Uma mulher se agarra a uma mesa
com os olhos esbugalhados.
O homem enfia a faca no pescoço, no coração,
na barriga.
O sangue jorra
sobre o assassino.
Um velho abre a porta e grita.
É um grito mudo.
O poeta fecha o jornal de onde pinga uma gota escura
como óleo
ou sangue
no seu sapato. 

           J. C. Brandão




http://gambiarraliteraria.blogspot.com/2011/07/exercicio-de-criacao-23.html





quinta-feira, 3 de novembro de 2011

AS RUAS DA CIDADE






































1.      O ELMO

Uso um elmo de pedra
para lutar ao sol ou à noite.


2.      AS PEDRAS

Deitamos sobre as pedras do caminho.
Quando acordamos, eram ossos.
Respiravam, tocavam flautas.


3.      ENCONTRO

Vivemos em uma ilha
exilados de nós mesmos.
Talvezs um dia nos encontremos
na morte.


4.      O MURO

O muro é o meu limite.
A luz é fria, o escuro é frio.
Os meus pulmões secam, sem ar.
Sou como Penélope, tecendo e destecendo
as ruas da cidade.


5.      O TEMPO

O meu tempo não é o meu tempo.
Eu não faço parte destes homens, destas mulheres.
Sou uma sombra, um esqueleto, o esquecimento.


6.      COMPANHIA

Deitei sobre uma pedra
com a história da minha vida e da minha morte
ronronando em silêncio.


7.      ECCE HOMO

Não sou Deus.
Não sou o demônio.
Sou um homem com as minhas dores
e as minhas contradições.


8.      SOLIDÃO

Fechei a porta (fechei a pedra)
para ficar a sós com a minha angústia.


9.      POLÍCIA

Um homem matou a mulher a pauladas:
ele a amava.
Uma mulher envenenou o marido
por amor.
A sombra da polícia cresce no muro.


10.  ESTRANHEZA

Pode vir a velhice.
Pode vir a loucura.
Pode vir até a sensatez.
Serei sempre um estranho.


11.  CENSURA

Não escreva sobre a morte.
Não escreva sobre o sangue derramado.
Não escreva sobre a solidão, a angústia, o esquecimento.
Dizem, dizem.
Não querem que eu escreva sobre a vida.


12.  O OSSO

Os cães latem no beco,
disputam um osso seco.
Fico de quatro
como eles
roendo o osso da solidão.




quarta-feira, 2 de novembro de 2011

FINADOS
































FINADOS


Um quero-quero passeia entre os túmulos.

Marcha altivo entre os túmulos.

De repente, para.
Ajoelha-se,
chora,
encolhe-se,

como se nunca mais fosse alçar voo.






terça-feira, 1 de novembro de 2011

UM COPO DE SILÊNCIO





































UM COPO DE SILÊNCIO


Guardo no meu poema, como num copo,
a imagem líquida das coisas.
A tinta é líquida, a tinta das minhas palavras.
As minhas palavras escorrem dos lábios
ensanguentadas.

A faca desce e se levanta
com o sangue da vida, jubilosa.
O meu poema tem todas as linhas da criação.
A loucura justifica o meu poema como
justifica a vida.

Vamos deixar a melancolia para outra hora.
Por enquanto a mulher não é uma estátua
de sal. O olhar foi punido porque o olhar
é tudo.
Por mais que aceitemos o esquecimento,
o olhar, que também é esquecimento, preserva.

O olhar diz que é a hora do silêncio.
Palavras, palavras, palavras
e o silêncio.
Como um pássaro, o silêncio canta.
Com a voz do esquecimento, o silêncio canta.