quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O CONSTRUTOR E A MORTE





 O CONSTRUTOR E A MORTE


A morte não é nada para as coisas, mas caminha
dentro delas
como numa carruagem. É uma fatalidade que o espelho
conjuga

com as goiabas da infãncia e todas as lagartas. Não fechem
as pálpebras do morto. Não fechem os ouvidos
do morto. Ele
traz nos olhos as ondas do mar primevo. Ele

traz nos ouvidos o rugido de tigre do oceano
como a pérola
na sua concha. As coisas
são pesadas, fechadas em seu ser de concha,

de pedra. É preciso considerar a pedra
do abismo. Carrego a morte no pescoço como uma
canga. Nasci com a morte na língua. O homem nasce
e morre de uma vez

só. É a questão da palavra
exata. As coisas que o fogo não consome, que se agitam na sua língua,
nas labaredas do eterno.
Que teatro para o meu anjo? Que palco? Que bastidores e que

plateia? As coisas, desprovidas de ênfase,
não são apenas coisas. As coisas, em sua nudez,
estão vestidas para o êxtase.



domingo, 9 de outubro de 2011

O ALFABETO DA DOR































O ALFABETO DA DOR


A morte me ensina o alfabeto
da dor.

Arranho a pele da noite com as unhas.
Componho uma grinalda com o silêncio
das minhas lágrimas.

Eu me espelho na fonte das estrelas.
Encontro o corpo
do ser
na minha imagem convulsa.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tomas Tranströmer - 3 POEMAS



PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
 
Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo.
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.


EM MARÇO DE 79 

Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem,
Dirigi-me para a ilha coberta de neve.
A veação não conhece palavras.
As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.
Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.
Linguagem, mas nenhuma palavra.


ADERNAGEM DA NOITE PARA O DIA 

Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do
nada. E para além das gotas da escura folhagem e
do murmúrio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,
não se ouve mais nada.

O abeto ergue-se como o ponteiro de um relógio,
espinhoso. A formiga arde na sombra da montanha.
Gritos, pássaros! E por fim, vagarosamente, a carroça
das nuvens começa a rolar.

Tomas Tranströmer - Prêmio Nobel de Literatura 2011



terça-feira, 4 de outubro de 2011

CONSTRUÇÃO DO ANJO


























CONSTRUÇÃO DO ANJO


Construo o meu anjo com o desejo
o meu corpo bate asas
molhado de suor.

Ouço passos musicais
ouço pássaros de sol
ó dor!

Subo a escada vermelha
com Deus ao meu lado.



sábado, 1 de outubro de 2011

A SOMBRA DE DEUS



























A SOMBRA DE DEUS

No silêncio do bosque
a nudez da existência
sangra, sufoca, estertora.

Por trás
a sombra de Deus.

Eu não era este ser sem pátria
e sem face
perdido no nevoeiro
com a dor da morte nos olhos.

Caminho numa corda bamba estendida
sobre o abismo.
Ouço continuamente o uivo do abismo.

Por trás
a sombra de Deus.