sábado, 13 de julho de 2019

segunda-feira, 8 de julho de 2019

O meu poema Alba no azulejo

               
             Meu poema Alba num azulejo na minha cidade natal, Dois Córregos, SP.



                                                Alba

                                                A dor das ameixas
                                                abrindo-se à luz.



                                     (in O silêncio de Deus, 2008)









quinta-feira, 20 de junho de 2019

quarta-feira, 19 de junho de 2019

O poema e o poeta

                                                                                                                                                             Picasso - Pinto e modelo



O POEMA E O POETA


Ninguém conhece o meu abismo. Ninguém, o meu caos.
A poesia é um espelho, o poema é um bronze infiel.
O poeta não tem a clareza da superfície das águas.
É necessário uma faca para esquartejar a realidade.
O poeta está sempre do outro lado da lua.
O poema não tem sete faces, o poema é um prisma de mil faces.
Joguem fora o meu cachimbo, joguem fora a minha bengala.
As gaivotas morrem no mar, os homens morrem na praia.
Eu sou um homem e a minha voz é um eco da minha própria voz.
Quebrem o espelho, joguem fora o poema.
Não se lê um poema para conhecer o abismo do poeta.
O poema é o olvido e não se lê o olvido.

.
“Um poema não lês,
não se lê o olvido.”
O Emparedado, 1975













sexta-feira, 14 de junho de 2019

Este país não é para amadores


                                                                                          El Greco - São Jerônimo



 Este país não é para amadores



Este não é um país para amadores.
Acham que eu tenho nariz de palhaço?
Este país nem limpando com aço.
Este país não tem jeito e nem remediado está.
O sol nasce para todos, mas queima uns mais que outros.
De dia falta água, de noite falta luz
e tem gente que pensa que é avestruz.
O que os olhos não veem mata o coração.
Um marreco incomoda muita gente, seu capitão.
O juiz torcia para um dos times.
Quem apita o jogo do juiz?
O juiz pisca mais que um pirilampo.
Tira o apito do juiz. Tira o juiz de campo.






domingo, 9 de junho de 2019

Este país não é sério


                                                                                      Paul Gauguin



Este país não é sério


Os lobos uivavam entre os currais de pedra,
o touro erguia a argola pesada nas ventas,
um menino chorava os filhotes de raposa mortos,
a mulher sentia um estranho perfume de deserto
na roupa lavada secando ao sol e ao vento.
Este país não é sério e a roda d’água gira.
Ninguém olha para trás. A torre de Babel
balança mas não cai. Ícaro toma sol na lama.
Eu paro e olho o horizonte de boca aberta.
Quem me devolverá a língua que eu perdi?
Quem me devolverá o nome que eu perdi?
A minha pátria é uma língua estranha e inútil
cantada por um andarilho idiota no nevoeiro.









terça-feira, 21 de maio de 2019

Toada para matar a morte

                                                                                                                 Botero - Dançarinos



Toada para matar a morte


O cavalo queria ser um leão
para matar a morte.
O cão queria voar alto como a águia
para matar a morte.
O bezerro queria ser forte como o touro
para matar a morte.
A águia queria ser um cavalo, o leão queria
ser um cabrito, o touro queria ser uma andorinha
para matar a morte.
O cavalo queria decifrar o enigma da rosa,
para matar a morte.
A borboleta beijava os lábios da tarde
para matar a morte.
Os olhos enormes da libélula refletidos no lago
para matar a morte.
O baobá se ajoelha ao crepúsculo
para matar a morte.
Eu quero um martelo, um enxadão, um trator, um anzol
                                    para matar a morte. 




quarta-feira, 24 de abril de 2019

Meu tempo

                                                                                                                              Kandinski



MEU TEMPO


O soldado me apontou o fuzil e atirou.
Os fuzis existem para atirar,
os soldados existem para matar.
Vivemos num campo cercado de arame farpado,
vivemos num mundo em guerra sem trégua,
estamos irrevogavelmente condenados ao extermínio.
Restam de nós estranhas palavras nas paredes,
não restarão as casas mas apenas as paredes
e aquelas palavras que serão os nossos nomes
impronunciáveis como fendas.
Fomos condenados ao exílio em nossa própria terra.
Crescem ervas daninhas entre as ruínas de nossas casas.
Deus abaixe a sua mão cruel, Deus tenha piedade.
Vivemos em um mundo em extinção,
o sal salga o chão que pisamos e não conserva vida nenhuma.