domingo, 9 de junho de 2019

Este país não é sério


                                                                                      Paul Gauguin



Este país não é sério


Os lobos uivavam entre os currais de pedra,
o touro erguia a argola pesada nas ventas,
um menino chorava os filhotes de raposa mortos,
a mulher sentia um estranho perfume de deserto
na roupa lavada secando ao sol e ao vento.
Este país não é sério e a roda d’água gira.
Ninguém olha para trás. A torre de Babel
balança mas não cai. Ícaro toma sol na lama.
Eu paro e olho o horizonte de boca aberta.
Quem me devolverá a língua que eu perdi?
Quem me devolverá o nome que eu perdi?
A minha pátria é uma língua estranha e inútil
cantada por um andarilho idiota no nevoeiro.









terça-feira, 21 de maio de 2019

Toada para matar a morte

                                                                                                                 Botero - Dançarinos



Toada para matar a morte


O cavalo queria ser um leão
para matar a morte.
O cão queria voar alto como a águia
para matar a morte.
O bezerro queria ser forte como o touro
para matar a morte.
A águia queria ser um cavalo, o leão queria
ser um cabrito, o touro queria ser uma andorinha
para matar a morte.
O cavalo queria decifrar o enigma da rosa,
para matar a morte.
A borboleta beijava os lábios da tarde
para matar a morte.
Os olhos enormes da libélula refletidos no lago
para matar a morte.
O baobá se ajoelha ao crepúsculo
para matar a morte.
Eu quero um martelo, um enxadão, um trator, um anzol
                                    para matar a morte. 




quarta-feira, 24 de abril de 2019

Meu tempo

                                                                                                                              Kandinski



MEU TEMPO


O soldado me apontou o fuzil e atirou.
Os fuzis existem para atirar,
os soldados existem para matar.
Vivemos num campo cercado de arame farpado,
vivemos num mundo em guerra sem trégua,
estamos irrevogavelmente condenados ao extermínio.
Restam de nós estranhas palavras nas paredes,
não restarão as casas mas apenas as paredes
e aquelas palavras que serão os nossos nomes
impronunciáveis como fendas.
Fomos condenados ao exílio em nossa própria terra.
Crescem ervas daninhas entre as ruínas de nossas casas.
Deus abaixe a sua mão cruel, Deus tenha piedade.
Vivemos em um mundo em extinção,
o sal salga o chão que pisamos e não conserva vida nenhuma.








 

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Tributo a Evaldo Rosa dos Santos





Foram oitenta tiros de fuzil.
O metal caiu com estrépito.
A fumaça se elevou no ar da tarde.
O sangue borbulhando com a flor no alto.
Uma flor de sangue nas costas.
Os ovos da morte borbulhando no sangue.
Ouve a música da flauta que se quebra.
Ouve o touro da morte, como muge.
Ouve o tigre da morte, como ruge.
Ouve o rinoceronte da morte, que estúpido.
Ouve a jaula da morte, nenhuma lucidez.
De tudo ficou apenas um buraco negro.
Nenhuma pomba branca voa mais.
O músico é um pássaro com a garganta cortada e canta.
O seu canto corta a pele do dia como o diamante. 




domingo, 14 de abril de 2019

Este país não é um cachimbo

                                                                                                                                                                         Magritte



Este país não é um cachimbo
                                  

Virou o dia do avesso e chupou até o pau.
Vestiu a noite física e saiu por aí. Ou por lá.
A poesia é uma loucura. O real é chato paca.
A pedra vira água. E se escoa pelos dedos.
A cidade assombra. Como um rinoceronte.
Fotografaram o buraco negro. Era vermelho.
Perdi a goiaba, a manga e a esperança. 
E se o bicho da goiaba me comer ontem?
Chupei uma laranja e me engasguei. Orra meu.
Olha o sorriso do filhote de cruz-credo.
Estão mangando de mim, este é um país triste.
Enche a vida até espumar. Bebe a espuma e cospe.
Tinha a magia na fronte e nenhuma poesia.
Atira e depois pergunta. Aliás, atira e dá risada.
As palavras caíram no abismo desesperadas.
A pátria tem a língua e os olhos cheios de lágrimas.
Quem descasca uma cebola tem que chorar.
Quem descasca um abacaxi também descasca um pepino?
A água não volta atrás, vira lama e corricho.
Aliás, corricho é um porco pequeno e não vê o céu.
O último a sair não apague a luz no fim do túnel.