segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Que chato!

                                                                                                                                       Miró



Que chato!


O Menino Jesus
chama Nossa Senhora.
O vestidinho dele
caiu da fotografia.






quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Réquiem para Brumadinho





Réquiem para Brumadinho


Um cachorro ficou preso na lama
uma vaca ficou presa na lama
uma galinha ficou presa na lama

uma criança ficou presa na lama
um homem ficou preso na lama
uma mulher ficou presa na lama

uma boneca ficou presa na lama
um livro ficou preso na lama
uma casa ficou presa na lama

uma árvore ficou presa na lama
um gato ficou preso na lama
um cavalo ficou preso na lama

a vida da natureza ficou presa na lama
a vida animal ficou presa na lama
a vida humana ficou presa na lama

o poema ficou preso na lama







segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Como eu escrevo



                                        https://comoeuescrevo.com/jose-carlos-brandao/?fbclid=IwAR0MmNrF4MWEOInkwowgeYkZNHnx5iZqlAk0WywfI9swWS3v-t9KjD9XCWU


Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

Tenho hábitos noturnos. Portanto, o meu dia começa tarde. Apesar disso, quando desperto as ideias estão mais claras para ler e escrever. Revejo o trabalho do dia anterior, agora com espírito mais crítico. Se tiver algum texto programado para escrever, é a melhor hora.

Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Já disse que ao despertar as ideias estão mais claras, mas não tenho nenhum horário de preferência. Antigamente, havia escritores que apontavam os lápis, deixavam os cadernos organizados, etc. Hoje, isso não faz mais sentido. No meu caso, quando tiver disposição para escrever, é pegar e escrever. No dia seguinte, e principalmente nos dias seguintes, é ver o que deu e reescrever infindavelmente.

Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Como não me considero escritor, apesar de ser autor de várias obras (escritor é quem vive de escrever, eu apenas publiquei oito livros de poesia e um de crônicas, além de ter escrito dois romances, um publicado online, e três livros de contos, também um publicado online), não me sinto compromissado com trabalhar com horário marcado ou me impor uma meta.

Há mais de cinquenta anos ouço dizer que o escritor deve escrever todos os dias – o famoso “nulla dies sine linea” – e acho isso, por um lado interessante, por outro impossível. Só será possível se considerar que em todas as horas do dia estou trabalhando, não só planejando, elaborando algo mentalmente, mas vivendo. Admiro escritores – um Valéry, por exemplo, que ficou vinte anos cuidando de outros assuntos – que passaram anos sem escrever e depois voltaram a toda brida. Eu nunca me afastei muito da escrita.

Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

Gosto de pensar que não tenho processo de escrita, como se fosse bonito isso. Apenas sou desorganizado. A minha desorganização é o meu processo. Canso de ler ou ouvir escritores contando que sempre andam com um caderninho anotando ideias que tiveram ou ouviram, imagens, frases, para não se esquecerem. Para mim, o que foi esquecido não valia a pena mesmo. Além de deixar que a memória, quando houver algum lapso, exerça a sua função criativa preenchendo-o com a imaginação.

Devo dizer ainda que planejo os meus poemas, ou outros textos, por vários dias – ou meses, ou anos – e depois retomo-os como se fossem uma ideia nova. Muitas vezes escrevo vários fragmentos, para posteriormente montar um texto com eles.

Se é difícil começar? Sempre é – até penso em dizer que a procrastinação é quase um método de trabalho para mim. Esqueço o texto planejado, até que um dia surge como se fosse do nada – como se não estivesse planejado.

Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Já disse que a procrastinação é quase um método de trabalho para mim.

Outras travas? É famoso o branco dos escritores. Como não tenho que me preocupar com prazo de entrega dos trabalhos, fico sossegado. Vou tomando notas, até que tenha o suficiente para montar um texto. Quanto a corresponder à expectativa, gosto de lembrar de Marguerite Duras que dizia que um bom motivo para escrever é a curiosidade de ver como ficará o texto planejado. Um texto nunca corresponde à expectativa, mas é muito interessante e instigador imaginar como ficará depois de escrito.

Ansiedade de trabalhar em projetos longos? Talvez seja tanta que quase nunca trabalhei em projetos longos. O quase vai por conta dos dois romances que escrevi, depois de adiá-los por vários anos.
Luís Fernando Veríssimo dizia que a maior inspiração de um escritor é o prazo. Isso é verdade para cronistas, como ele. Ou quando o escritor tem um trabalho de encomenda. Há casos de muitos escritores que escreveram pressionados pelo prazo. É famoso o caso de Dostoievski que escreveu “O jogador” em 28 dias, para pagar dívidas de jogo. Georges Simenon dizia escrever um romance em onze dias, o que é extraordinário.

Como eu não trabalho com prazos, não posso ter essa bela inspiração. (Trabalhei para um jornal por um ano, escrevendo duas crônicas e um editorial por semana, até que o sindicato dos jornalistas fez com que me demitissem, por não ter diploma. Dava aulas de manhã e à noite, à tarde escrevia. Levava uma hora selecionando um tema e outra hora para redigir, além de gastar mais uma outra para levar o texto ao jornal – eram os belos e duros tempos antes do computador e da internet. Sim. O prazo funcionava. Tenho a impressão de que nunca escrevi com tanta facilidade.)

Na inspiração, de que falam tanto, das musas ou do Espírito, eu não acredito. Sempre pensei em planejar um texto. Às vezes uma ideia me vem sem explicação aparente, mas não chamo a isso de inspiração. Clarice Lispector dizia que o ato de escrever a inspirava. Acho que é a melhor explicação.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Nunca sinto que meus textos estão prontos. Borges dizia que publicava para parar de rescrever seus textos, embora, quando havia outra edição, costumava reescrever mais uma vez.

Mostro meus textos apenas à minha mulher, a única pessoa capaz e sincera o bastante para me dizer que um texto é ruim, ou uma passagem, uma frase. Os amigos costumam querer apenas agradar. Ela é uma crítica implacável.

Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Escrevo meus textos diretamente no computador. É mais prático, pode-se mexer infindavelmente no texto. Mas às vezes faço um rascunho num caderno. É interessante ver como ficará o texto, quase ilegível em meus garranchos, “em letra de fôrma”.

De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativo?
Não tenho conjunto de hábitos. As minhas ideias vêm de minhas leituras, do que ouço e depois fico ruminando, de uma frase, uma imagem, uma foto. Muitos poemas meus vieram de fotos que tirei, ou que vi, como um que escrevi hoje, que veio da foto de um coração que o tempo esculpiu num muro e eu fotografei, há vários anos.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?

A minha formação literária é a leitura de Drummond e Murilo Mendes. Mesma coisa que João Cabral. Os poetas da minha geração – cronologicamente, a chamada Geração Marginal – também tinham ou têm Drummond por base, apesar da queda por Oswald de Andrade. Também vejo com muita satisfação que os poetas jovens de hoje, os poetas na faixa dos 40 anos de idade, pouco mais ou menos, também têm Drummond como referência.

Talvez dissesse ao jovem que eu fui que se solte mais, que seja ele mesmo, não ouça conselhos, inclusive este que acabo de lhe dar.

É muito importante uma orientação no princípio, mas o problema é essa orientação se tornar regra.
Aprendi que o pior de tudo é ter um só caminho.

Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Sempre tenho vontade de dizer que não tenho nenhum projeto, mas, sim, tenho um romance planejado. Talvez quando, por um mero acaso, me bater uma ideia de como realizá-lo, eu o realize. Talvez escrevê-lo como puro nonsense. No momento somente o nonsense justifica escrever um romance, para mim. Talvez como os de Campos de Carvalho.

Tenho alguns contos planejados. Tenho uma história infanto-juvenil que eu gostaria de ver escrita. Mas sou preguiçoso, e fico com meus poemas. Mário de Andrade, que pode ser acusado de tudo, menos de preguiçoso, disse uma vez que escrevia poesia por preguiça. E ele sabia que a poesia dá muito trabalho.

Que livro gostaria de ler e ainda não existe? Talvez nenhum. Sei que gostaria de reler, reler muito. As sensações de uma obra de arte essencial – e são tantas – têm um apelo irresistível.


sábado, 29 de dezembro de 2018

Um grande poeta




UM GRANDE POETA


Tenho a honra de lhes apresentar um grande poeta: Eduardo Carbone. Autor de três livros de poemas, “O pássaro arcaico” (2014), “Noite nutriz” (2015) e “Sombra e música” (2017). Poeta de Bauru, sim senhores. Muito pouco conhecido, porque é campeão da discrição. Muitos talvez estranhem a sua poesia, mas isso é excelente. É uma poesia, lembrando Barthes, em O prazer do texto, que faz entrar em crise a nossa relação com a linguagem. A poesia é um estranhamento. Embora o poeta seja um estranho cuja única pátria é a linguagem. A poesia deve provocar esse estranhamento, ou não será poesia de fato. Talvez fique no plano da expressão, da pura confissão. Os poemas de E. Carbone não são confessionais, mas imagens no espelho juntando-se e perdendo-se para formar novas imagens, a caminho da beleza como forma em si.
A dificuldade para se ler os seus poemas talvez seja a ânsia de interpretação. Os poemas são escritos para a fruição em silêncio de suas imagens em busca da imagem essencial, que se oferecem ao leitor como uma revelação. O título “O pássaro arcaico”, apesar de sua grande beleza, causa já de início uma estranheza. Queremos saber o porquê. Trunfo para o autor. A epígrafe já traz a chave: é tomado de um poema de Orides Fontela, uma poeta também grande e estranha. E. Carbone se apresenta no primeiro poema: “Estranho e sem rei.” O segundo toma a palavra como fulcro. E não apenas a palavra, o poeta deve servir “a palavra não”, conclui. No poema “Istanbul” a manifestação do universo se dará, não pela grandiosidade da Hagia Sophia, mas pela equiparação de homens e gatos. Poesia é epifania, manifestação do ser. Os gatos serão a sua epifania.
            “Noite nutriz” terá o seu estranhamento já no título, mas nem deveria: o que poderia mais nutrir a ânsia de mistério do homem do que a noite? O sintagma é tirado de Eurípedes, evidenciando por um lado a riqueza eclética das leituras de E. Carbone, e por outro a sua busca de uma revelação essencial. Esse livro traz uma obra-prima de sua poesia, ou de toda poesia. O poema magistral “Elementos”. Um poema que, se tivesse lido na internet ou em alguma antologia, sem indicação de autor, eu pensaria que era da imensa poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Talvez pelas imagens concretas por um lado, e por outro beirando o surrealismo. Talvez pela técnica das anáforas reiteradas, que ela já usou de forma assim bela e sugestiva. Talvez pela pureza clássica, pelo aticismo. E. Carbone surpreende de poema a poema. O que mais se poderia pedir a um poeta?
            O título “Sombra e música” é sugerido por Murilo Mendes. Não poderia ser mais sugestivo. Sempre lembro que M. Mendes é o poeta das imagens absurdas, em choque com a realidade, mas sempre concretas. E. Carbone também. Poesia tem que ser feita com imagens concretas, com substantivos, com coisas. Mesmo que sejam coisas aparentemente tão abstratas como “sombra” e “música”. Sempre a mesma procura da fonte onde jorre a água essencial. Como diz no poema “Butô 8”: ver, apalpar o “Nítido/ Ou nimbo limite.” Sempre há um limite, mas que se possa vê-lo, tocá-lo. É como se o poeta devesse almejar o impossível: “Até ver a música plástica/ Que sobrevoa o rio e o mar.” Afinal, a essência nas palavras e só nas palavras: “As palavras, todas/ Epígrafe: anunciam-me e/ Cantam-me o drama:/ Epigrama.” O poema com o espírito, a engenhosidade do epigrama. “A linguagem é a morada do ser”, diz Heidegger. Está definida a poesia de Eduardo Carbone. 








terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ars poetica






ARS POETICA


Sei absolutamente o que é um poema,
disse García Lorca mas não contou a ninguém.
Marianne Moore diz que a poesia desagrada
mas é a único lugar onde se encontra o genuíno.

Wisława Szymborska diz que é absurdo escrever poemas
mas prefere o absurdo de escrever poemas ao de não escrever.
Orides Fontela diz que a poesia é impossível
e que assassinou a palavra, a crueldade da palavra.

Adam Zagajewski diz que os poemas de Miloz parecem
escritos por um homem rico e culto  mas ao mesmo tempo
por um mendigo, sem casa, um emigrante solitário.
Às vezes penso o mesmo de todos os poetas.

Archibald Macleish diz que o poema deveria ser
sem palavras como o voo dos pássaros, não significar
mas ser. A poesia nos faz tocar o impalpável
e escutar a maré do silêncio, diz Octavio Paz.

A poesia faz entrar em crise a nossa relação com a linguagem,
lembra Barthes. Quer dizer, a poesia é um estranhamento.
O poeta é um estranho cuja única pátria é a linguagem,
mas a sua relação com a linguagem por definição está em crise.

Concluindo dizem que a poesia é a expressão dos sentimentos,
mas o palavrão e os gemidos também são. Aliás a epifania
de Gustavo Corção foi um palavrão. Afinal a poesia também
pode ser feita de palavrões, muito mais que de palavrinhas.