sexta-feira, 16 de novembro de 2018
segunda-feira, 12 de novembro de 2018
França, 1918 (Centenário do fim da 1º Guerra Mundial)
FRANÇA,
1918
Cinco soldados atentos, inquietos,
angustiados.
Um na primeira cratera de granada,
dois na segunda,
outros dois na terceira mais ao fundo.
Além, bem mais ao fundo, envoltos
numa neblina de fumaça,
talvez estejam outros, todos
esperando a morte.
As granadas abriram crateras, abrigos
improvisados
para os escolhidos
para a ceifa da morte.
Uma foice comum cortará cabeça após
cabeça.
Nesta guerra não há mais heróis,
mas vítimas, como trigo a ser
ceifado.
A cratera maior em primeiro plano,
cheia de água.
A água suja não reflete o sol,
não convida à sede.
Não há sol no céu: a terra
é escura, negra, da cor da morte.
Os soldados já perderam a sede e a
esperança.
Estão vestidos para o frio.
A terra se encolhe encharcada: choveu
a chuva da morte.
Nada. Ninguém. Desolação.
Uma forma minúscula esconde-se em um
montículo de terra,
um rato nesta terra de ratos.
Os ratos roem o fio tênue da vida.
Os
soldados ostentam chapéus esquisitos, de metal,
esses
capacetes inventados para morrer.
Não
protegem do sol ou da chuva.
Talvez
protejam das granadas e dos tiros de fuzil.
São
os chapéus do talvez.
A
guilhotina da morte cairá, talvez hoje, talvez amanhã,
mas
cairá. A morte é a única certeza.
A
morte sempre foi a única certeza.
Os
fragmentos de metal das granadas voam,
faíscas
da morte belas como estrelas.
Os
olhos do primeiro soldado são crateras numa face de pedra.
Dos
outros, vê-se apenas a face de pedra.
Do
segundo, não se vê a face,
talvez
de um menino, que o capacete devora.
É
triste, mas os homens são de pedra,
de
terra, nesta seara, neste túmulo.
De
pedra, como estátuas, onde se lê a dor fria da morte.
De
terra, porque esses homens já retornam à terra, de que somos feitos.
Esses
homens inauguram a indústria da morte.
Não
choram.
São
monumentos que desabam.
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
No aniversário de Cecília Meireles
RETRATO
d’après Cecília
Meireles
Eu sempre tive esta mesma cara,
meio séria, meio esquiva, meio ignara,
com os olhos vesgos
e a língua ferina.
Eu sempre tive estas unhas de arpão,
feias e mortas
de medo;
eu sempre tive este coração
de gelo.
Eu nunca mudei a minha dor:
sempre fui o mesmo vulto esconso
fiando na roca e no fuso
de um espelho obtuso.
José Carlos Brandão
Metamorfoses de Ofídio – paráfrases e paródias
extemporâneas
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
Gesto poético - poemas para a paz
Acaba de sair a antologia Gesto Poético, com poemas pela paz de vários países, como Canadá, Argentina, Peru, Chile, Israel, Cuba, Bolívia, Colombia, Panamá, Equador, Uruguai, República Dominicana, México, Porto Rico, Espanha, Venezuela, Itália, Moçambique e Brasil. A Sônia e eu estamos representando o Brasil, páginas 42 e 74. Ficou um livro belíssimo, sobre o tema mais importante hoje, a paz.
https://issuu.com/sureditoresdigital/docs/gesto-poetico-2017
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
A essência do milagre - realismo mágico
Estou participando do Prêmio Kindle de Literatura com o romance A essência do milagre.
Esse romance é um milagre. É mágico.
Em 2000, ganhei o prêmio Cidade de Belo Horizonte com um romance forte - Deus no prego -, mas não quero publicá-lo. É muito pessoal. Apesar da moda da autoficção. Ou por isso mesmo. Um romance tem que ser ficção. Se até a poesia é ficção.
Eu me orgulho é deste romancinho (é muito curto) - A essência do milagre. É mágico.
https://www.amazon.com.br/ess%C3%AAncia-do-milagre-Jos%C3%A9-Brand%C3%A3o-ebook/dp/B07GPZS5W4?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=a+essencia+do+milagre&qid=1538166669&sr=8-1-fkmrnull&ref=sr_1_fkmrnull_1
A essência do milagre é uma obra na linha do realismo mágico que conta a história de um convento como uma fábula onde Jacinto busca o sentido da vida. Nesse convento não se precisava andar - era só entrar numa água azul e num passe de mágica teletransportar-se - e ninguém precisava falar para o outro conhecer os seus pensamentos, como a coisa mais natural do mundo, ali, o essencial parecia ao alcance da mão. Era como se Jacinto tivesse encontrado a perfeição. Mas os frades eram extraordinariamente humanos e Jacinto vai contaminar-se dessa humanidade difícil. Aos poucos, estará num beco sem saída.
Esse romance é um milagre. É mágico.
Em 2000, ganhei o prêmio Cidade de Belo Horizonte com um romance forte - Deus no prego -, mas não quero publicá-lo. É muito pessoal. Apesar da moda da autoficção. Ou por isso mesmo. Um romance tem que ser ficção. Se até a poesia é ficção.
Eu me orgulho é deste romancinho (é muito curto) - A essência do milagre. É mágico.
https://www.amazon.com.br/ess%C3%AAncia-do-milagre-Jos%C3%A9-Brand%C3%A3o-ebook/dp/B07GPZS5W4?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=a+essencia+do+milagre&qid=1538166669&sr=8-1-fkmrnull&ref=sr_1_fkmrnull_1
A essência do milagre é uma obra na linha do realismo mágico que conta a história de um convento como uma fábula onde Jacinto busca o sentido da vida. Nesse convento não se precisava andar - era só entrar numa água azul e num passe de mágica teletransportar-se - e ninguém precisava falar para o outro conhecer os seus pensamentos, como a coisa mais natural do mundo, ali, o essencial parecia ao alcance da mão. Era como se Jacinto tivesse encontrado a perfeição. Mas os frades eram extraordinariamente humanos e Jacinto vai contaminar-se dessa humanidade difícil. Aos poucos, estará num beco sem saída.
terça-feira, 18 de setembro de 2018
Parada em Ventania
Meu primeiro livro de contos publicado. Confiram!
https://www.amazon.com.br/Parada-em-Ventania-Jos%C3%A9-Brand%C3%A3o-ebook/dp/B07HFDBHDR?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=2GDZG6VWTUUPF&keywords=jose+brandao&qid=1537281477&sprefix=jose+brandao%2Caps%2C265&sr=8-2&ref=sr_1_2
Parada em Ventania lembra os livros de ficção
fantástica latino-americana com seus personagens tão sofridos que parecem viver
em uma outra realidade.
É o menino aleijado das pernas que conhece o mundo
só por ouvir a irmã contar e pela passagem irregular do trem. É o menino que
vai embora da roça, despedindo-se do seu bezerro no pasto, durante a noite. É o
menino assistindo ao pai tirar os espinhos do ouriço do cachorro. São as
crianças órfãs que assistem ao pai armando a Árvore de Natal, sofrendo com a
saudade da mãe.
É o marido que encontra a mulher na cama com outro,
que persegue, mata e depois foge, mas encontra na estação ferroviária a vendeta
da mãe desesperada. É a mulher que enlouquece de desejo e solidão, dividida
entre o amor de dois irmãos. São os irmãos que se amam e são castigados pelos
pais que pensam que somente um sofrimento como o de Cristo poderia purgar tal
pecado. É o menino que mata o pai com um martelo para proteger a mãe com quem
dorme e satisfaz seus precoces e primitivos desejos sexuais.
É a mulher que acorda na solidão em que vive
procurando sinal de vida e, como não encontra, julga estar morta. É a cidade
inteira tomada pela lepra, num tempo recordado incrivelmente com dor e saudade.
É o jovem assistindo à primeira morte de sua vida, com sua estranheza como toda
morte, talvez maior do que qualquer morte. É o homem que se suicida pensando
que matara o amigo numa bebedeira, amigo que aparece na igreja durante a missa,
com uma enxó na cabeça, mas muito vivo. É o casal cuidando da prostituta
linchada pelas mulheres da pequena cidade, em sua cruel vingança. É a praga dos
urubus que cobrem o céu da cidadezinha. É a peste que dizima todos os bichos do
lugar e o cachorro do andarilho louco também atacado pela peste.
É a mocinha e seu canarinho encantado como se
vivesse num mundo mágico. São os irmãozinhos que brigam por causa de uma
abelha. É um cavalo encantado nas colinas da lua e o pai do menino que se
encanta também quando busca o cavalo. É o menino que evita que os urubus roubem
a carne-seca com pedradas certeiras de estilingue. É o amor por uma pombinha
aleijada. É o menininho que contempla extasiado um velhinho e um pato nadando
no lago.
É o matador fazendo a sua tocaia e a sua vítima que
luta pela vida. É um cavalo ruim como o diabo e seu dono também ruim. É o homem
que lembra uma vingança cruel de marido traído que assistiu quando criança É o
amor de uma cadelinha feia e uma menininha feia também, e o padre que persegue
a cadelinha, que é mais rápida no gatilho. É uma cena amorosa sobre um túmulo.
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