sábado, 25 de agosto de 2018

FOME INSACIÁVEL






FOME INSACIÁVEL


A estrada não tem fim
como escrever sobre?
ninguém vai saciar a minha fome

as palavras caem entre as pedras do caminho
são como sementes
que não nascem

o sol queima as palavras como palha
é tempo de silêncio
e desolação

aves de rapina gritam no descampado
uma cruz delimita o meu campo estéril
todo campo é estéril

os relógios caem com as sombras
ocos
silva a dor

nada justifica a falência da linguagem
e tudo
nada tens para viver ou morrer





quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A linha limítrofe - poema(s) em prosa



A LINHA LIMÍTROFE
     poema(s) em prosa



ESSÊNCIA

A rosa essencial, entre o tempo e a eternidade. O resto é silêncio.


A RELVA

Cresce a relva sobre a sua boca, cresce a relva.


AMO O MISTÉRIO

Amo o mistério porque não sou eu, não são os outros, nem as coisas, mas tudo que está além de mim, de minhas limitações humanas.


A NOSSA VINCULAÇÃO

A nossa vinculação com a terra, de onde viemos, as nossas raízes. Ficar deitado na terra, recebendo a força, toda a energia da terra.


ERA A ÁRVORE

Era a árvore frondosa, ou a trepadeira que se estende sempre mais além.
Era a água, seu poder transformador, o rio da vida.
Era o barquinho fazendo água, o remador pobre, levando o barco e sendo levado por ele, pelas águas.


O QUE SINTO

O que sinto, se o escrevo, são palavras.
Todos os sentimentos do mundo, ou se perdem, ou, se são registrados, para não se perderem, são palavras, que se perdem, porque não são nada.


AS MANGAS

As mangas contra o céu azul.  O vermelho das mangas, o verde das folhas, e o azul  do céu. Sentimento de saciedade e de infinito. A beleza das frutas e o infinito além do azul me saciam. Não preciso pensar em Deus como não preciso pensar nas mangas.


A MULHER E O GIRASSOL

Qual mais belo? São belezas diferentes, por que temos que nos meter em comparações? A beleza da mulher está mais do que nos olhos, no instante em que foi apreendida. Na apreensão desse instante. Mas a beleza do girassol também está na apreensão do instante. Não serão uma só beleza? Como olhá-los ao mesmo tempo? Impossível, mas necessário olhá-los ao mesmo tempo. Na linha limítrofe desse olhar, está a beleza.










sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O paleontólogo








O PALEONTÓLOGO


O paleontólogo
fossilizado
num âmbar
com seus dois dentes
de cima
e os dois de baixo
sorri para sempre
                                    com um ar báltico







domingo, 22 de julho de 2018

sábado, 14 de julho de 2018

A cadela do rio gordo (poema(s) em prosa)





     A CADELA DO RIO GORDO
              (poema(s) em prosa)



O rio estava tão cheio que as mulheres pariam e a barranca era uma vaca  sangrando. Um quero-quero berrou a festa do barro, as porcas se arrebentavam contra o céu e o sol era tão azul que gania. O meu pântano borbulhava, eu coaxava como um sapo gordo. Uma garça se inclinava para dentro de mim, me bebia.

A rosa da vaca sangrava. Eu quero todas as graças da vida: não me venham com meias palavras, eu sou um palavrão esventrado. A árvore espuma no rio, com mil crianças montadas nas suas éguas. A felicidade na barriga do sol, a festa das crianças e das porcas na água. As mulheres cantavam os lençóis da morte e da vida flutuando na água.

*

Emas correndo, emas voando com o sol nas costas, com o sol nas patas. O boi velho adora as moscas no atoleiro. As baratas são tições no capinzal. Os besouros têm sapatos pesados e sufocam. O boi engole fogo pelas ventas. O veado e a jaguatirica no ar; a anta em prece se ajoelha.

O mato se queima, os bichos naufragam no rio gordo. O rio gordo solta a cadela para cruzar com os bichos. No meu tronco chamuscado as últimas fagulhas; uma brasa queima nos meus olhos e na minha língua. O rio gordo, a cadela do rio gordo, os bichos, a fome gorda dos bichos no crepúsculo do rio gordo.

Os peixes do rio gordo são estrelas caídas, de cabecinha de fora olhando o céu. A boca aberta canta, corta o azul. Que anzol me pescaria, ó palavra? Quem tocaria a carroça da alvorada? Quem quebraria a garrafa? Eu quero os cacos e o sangue que explode de dentro.

Trago um mugido dentro do peito, trago uma cadela dentro do peito, uma cadela no cio e o rio gordo, a terra gorda.