sexta-feira, 22 de junho de 2018

FARÂNDOLA





FARÂNDOLA


Um enorme rinoceronte
espia o monte no horizonte

pensando que é muito elegante
dança sem graça o velho elefante

morre de rir a formiga
tem uma lombriga na barriga?

e olhem só o danado do rato
comendo a sola do sapato

olhem as orelhas do coelho
lambendo as telhas de joelhos

canta como um danado o galo
exibindo a crista e escondendo o falo

olha só no quintal o pobre frango
pensando que é um orangotango

a mosca come doce de framboesa
lambe os beiços e vomita na mesa







sexta-feira, 15 de junho de 2018

domingo, 10 de junho de 2018

A locomotiva maluca (O processo criativo de um poeta)





A LOCOMOTIVA MALUCA
(O processo criativo de um poeta)

“Olha a Locomotiva Maluca!”, eu disse, rindo do nome da locomotiva em frente da prefeitura de Blumenau. “É Macuca”, disse a minha mulher. “Cuidado com a dislexia!” Eu estava rindo do nome gozado, ri sem graça agora. Até que o nome Macuca tem a sua graça: refere-se à semelhança do apito da locomotiva com o canto do pássaro chamado macuco, e o barulho das ferragens com o barulho das asas. Mas eu, como acontece de hábito, tinha que ler errado. E já estava imaginando a locomotiva louquinha da silva dando cambalhotas nos morros como um cabrito, berrando, escoiceando, babando. Eu estava inventado, involuntariamente, as maluquices da locomotiva. A máquina de fazer poesia estava funcionando a toda na minha cabeça. A louquinha (a locomotiva, não a minha cabeça, que afinal nesse momento como em muitos estava apenas tendo o dom da poesia), a louquinha da locomotiva virava os olhos, gargalhava, cantava assoviando e assoviava cantando.
O grande linguista Roman Jakobson aventou a hipótese de que a dislexia contribuía para a criação poética. O que pode parecer uma estupidez para um leigo, pode ser uma grande verdade. Eu me refiro ao leigo em matéria de poesia e em matéria de linguística. Mesmo um poeta é raro ter a acuidade da análise técnica dos processos linguísticos, como é raro um linguista ter a sensibilidade da poesia como, afinal, Roman Jakobson tinha. O meu processo criativo muitas vezes, posso garantir, é uma comprovação dessa tese. Se é que eu tenho esse distúrbio de reconhecimento dos fonemas, especialmente das letras em si, isso mesmo, enquanto escritas, o que me atrasou o desenvolvimento da aprendizagem e ainda vez ou outra, agora que já estou bem alfabetizado, me provoca surtos de poesia.
Como no caso da locomotiva, por um desvio de interpretação da escrita, solto a imaginação (“a louca da casa”, na expressão de Victor Hugo) e a criatividade. Por um nada, sem nem perceber, entro em estado de poesia. O processo de criação de um poema tem muito ou mesmo tem tudo a ver com o trabalho com as palavras, e mesmo com o som das palavras, com a musicalidade. Mas antes desse processo em si, ou concomitante a ele, vem a criação de imagens, vem essa fantasia da poesia, esse distúrbio e maravilhamento dos sentidos. Talvez o que Rimbaud chamou de “desregramento dos sentidos”. Muito mais do que a sugestão imagética que o encontro ou o desencontro das palavras cria. Assim, o que era a princípio um defeito, que me atrapalhava, me impedia o desenvolvimento natural da aprendizagem, se tornou um grande colaborador para a minha criatividade. Involuntariamente, vezes por dia, ainda hoje, estou lendo errado – e tenho vontade de pôr esse “errado” entre aspas, porque pode ser apenas a minha maneira de ler, de interpretar o sentido das palavras, e brincar com elas, criar com elas.
Quem disse que Macuca é um apelido mais sugestivo para a locomotiva do que Maluca? Para eu entender por que Macuca precisei ler a explicação, de que assoviava como o pássaro chamado macuco e fazia um barulho com as suas ferragens que lembrava o barulho das asas do pássaro. Para eu entender por que Maluca não precisei de nenhuma explicação, foi só pensar que eu tinha lido esse nome e estava solta a louca da casa, e a locomotiva dava cabriolas pelos morros, guinchava, empinava, resfolegava, cantava, com toda a alegria de viver de que só uma louca é capaz. Quer explicação mais simples do processo poético?   





sexta-feira, 18 de maio de 2018

A porteira da tarde





A cigarra desfia a porteira da tarde. Eu sou uma moringa d’água porejando. O cachorro deitado na sombra fresca, de língua de fora, abana o rabo.

As rãs fazem festa na beira do rancho e as ingazeiras conversam com os inhames. As porcas se espojam na lama gostosa, a caranguejeira sai do ventre da terra.

O bugio coça o queixo, boceja com preguiça. Os cupins fazem a sesta sob os andaimes. O camaleão bota a sua farda verde e cinza e destila a paisagem no bico de uma flauta.

A minha voz molhada pinga de uma árvore. É cor da terra e vai caindo de manso.

*

No jamelão, a cigarra queima a tarde. As maracanãs desenham a paisagem de vaias verdes. A mula baia se coça na peroba; o pau d’arco pelado instiga a sede.

A semente amadurece na boca.

O cachorro fuça o chão da invernada, a jaguatirica cisca, observa de banda. A cascavel deixa a casca ao pé do coqueiro, deixa os guizos na minha mão de menino.

A paisagem de ontem era um cacto ao sol. Eu plantei a semente com uma palavra, as vaias verdes das maracanãs nos meus olhos. Eu entardeço com a cigarra na língua.
             
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sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes


TIRADENTES


Não sei se Tiradentes subiu as escadas da forca com altivez.
Não é preciso ser destemido para ser herói.
É possível borrar as calças e ser herói.

Que paisagem se avistaria do alto da forca?
Cobriram a cabeça de Tiradentes com um pano negro?
Morreu no escuro? É mais ou menos tétrico morrer no escuro?

Dizem que o cérebro do enforcado ainda vive alguns minutos.
O que Tiradentes terá pensado nesses parcos minutos?
Terá pensado?

Terá gritado?
Um homem tem o direito de gritar no instante de sua morte.
Terá morrido de boca aberta no grito da morte?

Não há perda maior –
aquele instante da morte do corpo e da morte da mente,
aquele lapso entre a vida e a morte.


quarta-feira, 21 de março de 2018

segunda-feira, 19 de março de 2018

Descanse em paz, Marielle





Descanse em paz, Marielle


Andei pela cidade e não vi nenhum ornitorrinco
também não vi nenhum político
viver como um homem comum era o meu delírio
era dia claro como uma flor

mas eu caminhava na obscuridade noturna
todos os números são irracionais
os homens também
uma favelada morreu com nove tiros

e ainda está cantando na tribuna
a ampulheta dói ao sol e à chuva
Marielle morreu sonhando com uma andorinha
um elefante é mais pesado do que uma rã

a terceira guerra mundial mata primeiro os pobres
uma criança sangra em cada esquina
um negro bêbado escreveu Policarpo Quaresma
ela morreu segurando uma flor em cada seio

a metamorfose da mulher à beira da vida
Marielle morreu exatamente às cinco da tarde
mas todos os relógios estavam quebrados
e tossiam como velhos compenetrados

era a quebrada da tarde e as aranhas teciam
os números complexos da vida simples
agora descansa em paz
mas a lápide é seca e pesa demais