sexta-feira, 18 de maio de 2018

A porteira da tarde





A cigarra desfia a porteira da tarde. Eu sou uma moringa d’água porejando. O cachorro deitado na sombra fresca, de língua de fora, abana o rabo.

As rãs fazem festa na beira do rancho e as ingazeiras conversam com os inhames. As porcas se espojam na lama gostosa, a caranguejeira sai do ventre da terra.

O bugio coça o queixo, boceja com preguiça. Os cupins fazem a sesta sob os andaimes. O camaleão bota a sua farda verde e cinza e destila a paisagem no bico de uma flauta.

A minha voz molhada pinga de uma árvore. É cor da terra e vai caindo de manso.

*

No jamelão, a cigarra queima a tarde. As maracanãs desenham a paisagem de vaias verdes. A mula baia se coça na peroba; o pau d’arco pelado instiga a sede.

A semente amadurece na boca.

O cachorro fuça o chão da invernada, a jaguatirica cisca, observa de banda. A cascavel deixa a casca ao pé do coqueiro, deixa os guizos na minha mão de menino.

A paisagem de ontem era um cacto ao sol. Eu plantei a semente com uma palavra, as vaias verdes das maracanãs nos meus olhos. Eu entardeço com a cigarra na língua.
             
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sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes


TIRADENTES


Não sei se Tiradentes subiu as escadas da forca com altivez.
Não é preciso ser destemido para ser herói.
É possível borrar as calças e ser herói.

Que paisagem se avistaria do alto da forca?
Cobriram a cabeça de Tiradentes com um pano negro?
Morreu no escuro? É mais ou menos tétrico morrer no escuro?

Dizem que o cérebro do enforcado ainda vive alguns minutos.
O que Tiradentes terá pensado nesses parcos minutos?
Terá pensado?

Terá gritado?
Um homem tem o direito de gritar no instante de sua morte.
Terá morrido de boca aberta no grito da morte?

Não há perda maior –
aquele instante da morte do corpo e da morte da mente,
aquele lapso entre a vida e a morte.


quarta-feira, 21 de março de 2018

segunda-feira, 19 de março de 2018

Descanse em paz, Marielle





Descanse em paz, Marielle


Andei pela cidade e não vi nenhum ornitorrinco
também não vi nenhum político
viver como um homem comum era o meu delírio
era dia claro como uma flor

mas eu caminhava na obscuridade noturna
todos os números são irracionais
os homens também
uma favelada morreu com nove tiros

e ainda está cantando na tribuna
a ampulheta dói ao sol e à chuva
Marielle morreu sonhando com uma andorinha
um elefante é mais pesado do que uma rã

a terceira guerra mundial mata primeiro os pobres
uma criança sangra em cada esquina
um negro bêbado escreveu Policarpo Quaresma
ela morreu segurando uma flor em cada seio

a metamorfose da mulher à beira da vida
Marielle morreu exatamente às cinco da tarde
mas todos os relógios estavam quebrados
e tossiam como velhos compenetrados

era a quebrada da tarde e as aranhas teciam
os números complexos da vida simples
agora descansa em paz
mas a lápide é seca e pesa demais




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O pensador





O PENSADOR


O pensador pensa a dor?
Pensar dói? Ou é apenas
a outra face do calor
de existir em quarentena?

A fronte do homem se enruga
à força do pensamento.
Não é mais do que uma fuga
do mais íntimo tormento.

Eis que o homem não é só sexo
e é mais do que a ideia do não.
O homem é um sim convexo
que só se articula em vão.






segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O púcaro pícaro





O PÚCARO PÍCARO


É então que eu me acabo.
Eu te quero toda inteira: da ponta
do cabelo à ponta do rabo.

A vida é breve para o meu desejo.
Ah, aproveita o ensejo: me dá a flor
essencial da floresta negra.

És uma flor. Por que não floresces
para mim?
Um dia o abismo

vai chegar e nesse dia serás (seremos)
sombra absurda. O que me darás
já não quererei mais.