quarta-feira, 30 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

domingo, 9 de março de 2014

PIETÀ - Miguel Torga

   



               Pietà


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

          
            Miguel Torga




Em suas tristes memórias A Criação do Mundo, Miguel Torga narra como compôs esse poema: na prisão de Salazar, incomunicável, angustiado com a pátria e com os seu destino de escritor, médico e homem. Retrata a sua angústia nesse soneto, forma que não lhe era usual, mas que lhe deu a necessária contenção que a sua dor pedia. 









segunda-feira, 3 de março de 2014

OUTONO





OUTONO      


As folhas caem das árvores
As pedras do caminho ficam mais pesadas
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

REFLEXO






REFLEXO



Mergulhei no rio da vida
me afoguei
e não sei
se sou
o rio
ou a imagem
refletida
na paisagem





 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O POEMA DEVE TER A CARA DE DEUS

 
 
 
 
O POEMA DEVE TER A CARA DE DEUS
 
O poema deve ter a cara de Deus
Um poema que não tem transcendência
Como Deus
Não é um poema
 
 
 


 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CONSTRUINDO A MANHÃ







CONSTRUINDO A MANHÃ

 
Um galo agonizava sob o sangue da manhã
Os homens estão sem Deus
A morte é nada a esperança é nada
Os meus bolsos estão cheios de pedras







 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu sou (o morto)


 
 
 
 

EU SOU

  

A voz do morto
A mudez do morto
A nudez do morto
Os olhos do morto
O silêncio do morto
A dor do morto
O corpo do morto
O nariz do morto
Os ouvidos do morto
A língua do morto
A inquieta língua do morto
A angústia do morto
A palidez do morto
A perplexidade do morto
O poema do morto
O prodigioso poema do morto
 
 

 

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O MORTO


 

O MORTO



É incompreensível a profecia dos vagões ferroviários
Desfio a minha história bíblica nos dormentes do inverno
Na minha infância eu brincava com ossos do Paleolítico
O tempo eram gotas de chumbo pingando do telhado

Na escuridão não sei se ouço a voz do meu pai ou a minha






 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SERENIDADE





         SERENIDADE

 
Aprenda a olhar a sua imagem no espelho
Como olhamos para as coisas alheias
Você é apenas uma coisa entre as coisas
Essa é a aprendizagem que cura o coração de todos os males


Use a si mesmo como usamos as coisas
Com a serenidade que só as coisas têm
Como as panelas que brilham na cozinha
E as estrelas já apagadas no céu distante