terça-feira, 22 de abril de 2014

domingo, 9 de março de 2014

PIETÀ - Miguel Torga

   



               Pietà


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

          
            Miguel Torga




Em suas tristes memórias A Criação do Mundo, Miguel Torga narra como compôs esse poema: na prisão de Salazar, incomunicável, angustiado com a pátria e com os seu destino de escritor, médico e homem. Retrata a sua angústia nesse soneto, forma que não lhe era usual, mas que lhe deu a necessária contenção que a sua dor pedia. 









segunda-feira, 3 de março de 2014

OUTONO





OUTONO      


As folhas caem das árvores
As pedras do caminho ficam mais pesadas
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

REFLEXO






REFLEXO



Mergulhei no rio da vida
me afoguei
e não sei
se sou
o rio
ou a imagem
refletida
na paisagem





 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O POEMA DEVE TER A CARA DE DEUS

 
 
 
 
O POEMA DEVE TER A CARA DE DEUS
 
O poema deve ter a cara de Deus
Um poema que não tem transcendência
Como Deus
Não é um poema
 
 
 


 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CONSTRUINDO A MANHÃ







CONSTRUINDO A MANHÃ

 
Um galo agonizava sob o sangue da manhã
Os homens estão sem Deus
A morte é nada a esperança é nada
Os meus bolsos estão cheios de pedras







 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Eu sou (o morto)


 
 
 
 

EU SOU

  

A voz do morto
A mudez do morto
A nudez do morto
Os olhos do morto
O silêncio do morto
A dor do morto
O corpo do morto
O nariz do morto
Os ouvidos do morto
A língua do morto
A inquieta língua do morto
A angústia do morto
A palidez do morto
A perplexidade do morto
O poema do morto
O prodigioso poema do morto
 
 

 

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O MORTO


 

O MORTO



É incompreensível a profecia dos vagões ferroviários
Desfio a minha história bíblica nos dormentes do inverno
Na minha infância eu brincava com ossos do Paleolítico
O tempo eram gotas de chumbo pingando do telhado

Na escuridão não sei se ouço a voz do meu pai ou a minha






 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SERENIDADE





         SERENIDADE

 
Aprenda a olhar a sua imagem no espelho
Como olhamos para as coisas alheias
Você é apenas uma coisa entre as coisas
Essa é a aprendizagem que cura o coração de todos os males


Use a si mesmo como usamos as coisas
Com a serenidade que só as coisas têm
Como as panelas que brilham na cozinha
E as estrelas já apagadas no céu distante

 

 

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

À BEIRA DO BURACO NEGRO

           Elin Danielson-GambogiA Girl by the Oven 1894 
 
 

 

                                 À BEIRA DO BURACO NEGRO

 
No deserto estou rodeado de homens
Na multidão estou só
No espelho não me vejo
Com os olhos vazados verei a mim mesmo
E aos outros homens
Se estou vivo nada sei da morte
Se morrer? Somente com a morte me libertarei
Do outro
Quebrei relógios como quebrei espelhos
Serei sempre o afogado à beira do buraco negro
 

 

 

 

 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O SILÊNCIO DE MUNCH

 
 
 
A PONTE DO SILÊNCIO
 
Um quadro de Munch uma boca esquálida as ondas concêntricas
Sobre a ponte e o título Silêncio
Uma lâmpada paira bruxuleia entre os vãos da ponte
O dia é amarelo e sujo e doente nos vidros da janela
O silêncio me penetra como um dardo envenenado
A ponte balança
A ponte balança
A ponte balança
A ponte balança sobre o caos sob as nuvens do céu amarelo





 

domingo, 5 de janeiro de 2014

"Caveira com cigarro aceso", Vincent van Gogh

 
 
 
 
“Caveira com cigarro aceso”, Vincent van Gogh
 
Os nossos vícios não nos abandonam
Nem depois de mortos
Quando mostraremos os dentes
Numa eterna risada de escárnio e dor
 
 
 

sábado, 4 de janeiro de 2014

ESPELHO DA MEMÓRIA





ESPELHO DA MEMÓRIA
 
 
O poema é um espelho da memória
O cristal é transparente
As palavras não
A escuridão interior mora no brilho claro
 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

IMAGENS

 




sou uma imagem
na água turva do tempo


infinito como a areia
o bronze do mar
                                              

as pétalas como lábios
da beleza viva
 

o sol e o vento
entre as árvores e o céu
conversam na montanha


o canto do pássaro
embala as águas do rio

 
o tronco cortado
da velha árvore doente
e o ouro da resina

 

 



 

domingo, 29 de dezembro de 2013

O BESOURO

 





O BESOURO

 

O besouro se esconde no capim rasteiro
A couraça contra a vida e contra a morte
O chifre e as garras são a sua defesa
Indefeso em sua força e em sua fraqueza

 





 

sábado, 21 de dezembro de 2013

W.B. Yeats: Death / Morte





DEATH

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

 

 

 MORTE


Não tem medo nem esperança
O animal moribundo;
O homem que espera seu fim
Tem medo e esperança de tudo;
Morreu muitas vezes,
Muitas vezes se levantou de novo.
Um grande homem em seu orgulho
Confrontando assassinos
Julga com desdém
A falta de força;
Ele conhece a morte até o osso —
O homem criou a morte.


(tentativa de tradução: J C Brandão)