sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Danse russe - William Carlos Willians



DANSE RUSSE

Se quando minha muher estiver dormindo
e o bebê e Kathleen
estiverem dormindo
e o sol for um disco branco em chamas
em névoas de seda
brilhando acima das árvores, –
se eu no meu quarto ao norte
dançar nu, grotescamente
diante de meu espelho
acenando minha camisa em volta da minha cabeça
e cantando baixinho para mim mesmo:
"Eu estou sozinho, sozinho,
Eu nasci para ser solitário,
Eu sou melhor assim! "
Se eu admiro meus braços, meu rosto,
meus ombros, flancos, nádegas
contra as cortinas amarelas fechadas, –
Quem poderá dizer que eu não sou
o gênio feliz da minha família?

William Carlos Williams
Tradução:  J. C. Brandão






terça-feira, 6 de agosto de 2013

HAICAIS AO PÔR DO SOL






HAICAIS AO PÔR DO SOL


Inútil chorar
o leite derramado
mas dá uma raiva...

Morrer de velhice
é melhor do que de fome?
Pergunte ao morto.

A avalanche desce
leva tudo em seu caminho
que solidão...

Os bois pastam no pasto
com uma paciência infinita
à espera da morte.

Pôr do sol com árvores secas
como braços erguidos
ao céu








quarta-feira, 31 de julho de 2013

HAICAIS NA ÁRVORE





Um buraco na árvore
como um coração
seco.

Tinha um olho de vidro
que lustrava para brilhar
pelo menos esse.

Tinha uma mosca
na minha sopa
sabia nadar.

Da minha janela
olho o quintal sujo
do mundo.

Fechado no quarto
o velho em solidão
como um sapo.

O sábio e o mendigo
dormem de boca aberta
comem mosca.

O que está escrito
no tronco da árvore?
Dói.







sexta-feira, 26 de julho de 2013

O JATOBÁ (e outros poemínimos)






O JATOBÁ

O jatobá sobe
para o céu de julho frio
- ai, cai para o alto.


AS PÉTALAS

Piso as folhas secas
e os espinhos das roseiras.
As pétalas brilham.


TV

Na casa fechada,
um esqueleto na sala
assistindo à tv.


O CUCO

O cuco canta alegre
o tempo que cai  e se quebra
como uma taça.


A LAGARTA DE FOGO

Sob a goiabeira
uma lagarta de fogo
me queima a pele e a alma.


A LAGARTIXA

A fria lagartixa
esquadrinha a solidão
da parede do quarto.


VAGA-LUME

Tenho um vaga-lume
numa caixa de fósforos.
Preso, brilha e salta.


PAINEIRA

Abraço a paineira
apesar dos espinhos
– é a minha infância.






quarta-feira, 24 de julho de 2013

A BORBOLETA VERDE (e outros poemínimos)









A BORBOLETA VERDE

A borboleta verde
entre as pedras, o mato verde
e o arame farpado.


A NÉVOA

A névoa cobre o vale
e a tua imagem perdida
no lago.


O MENINO

O menino foge
dos marimbondos no mato
e do touro no pasto.


VERDE

Eu tenho nos olhos
o orvalho verde da infância
­– a terra me espera.


CORUJA

Na minha janela
uma coruja dormindo
me faz companhia.


ANDORINHA

A andorinha pia
sob a sombra do crepúsculo
suave, sobre o lago.