segunda-feira, 7 de julho de 2014

OS MORTOS






OS MORTOS


Os mortos não me deixam dormir
Fecho os olhos e vejo os mortos
Abro os olhos e vejo os mortos

Noite e dia convivo com os mortos
Como se olhasse a minha própria face
No espelho


Dentro do túmulo a minha própria face
Me chama 





domingo, 6 de julho de 2014

LIÇÕES DE ABISMO









 LIÇÕES DE ABISMO



A gente se abraçava
encostados numa árvore 
                  pendida sobre o abismo.
Amor é isso. Um abraço
                                  muito largo
à sombra de uma árvore,
os dois corpos, a inocência
                                 pendidos sobre o abismo.
Na beira da estrada,
nos vãos das grandes pedras da serra,
minava água, minava amor.
O sol era vermelho, a tarde era verde.
Nós jogávamos pedras no abismo.
Nós bebíamos água das pedras.
Nós recebíamos lições de abismo
sem o saber.
O horizonte era um livro,
os pássaros liam, cantavam toda a melodia.
Nós ouvíamos amor.
As pedras faziam eco no abismo,
nós ouvíamos a resposta de lugar nenhum.
A vida é agora.
Passarinhos cantavam amor.







                                           

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O TÚMULO BRANCO

                                               autorretrato de Borges quando já estava cego





O TÚMULO BRANCO


Uma flor branca sobre o túmulo
Uma flor murcha sobre o túmulo

Uma flor seca sobre o túmulo
O pó de uma flor sobre o túmulo

O túmulo branco na tarde cinza
O túmulo sem nada escrito por cima








quinta-feira, 3 de julho de 2014

SONETO DO MERGULHO NO ABISMO






SONETO DO MERGULHO NO ABISMO


Mergulhar no abismo com um grito de dor
Mergulhar no abismo morrendo à míngua
Mergulhar no abismo com Deus na língua
Mergulhar no abismo com estupor

Mergulhar no abismo com um frio na espinha
Mergulhar no abismo com os olhos abertos
Mergulhar no abismo do caos do universo
Mergulhar no abismo com o nada por companhia

Mergulhar no abismo da solidão
Mergulhar no abismo como quem sofre
Mergulhar no abismo da multidão

Mergulhar no abismo da própria face
Mergulhar no abismo como quem morre
Mergulhar no abismo como quem nasce