sábado, 20 de abril de 2013

O CÍRCULO





O círculo


Ela tinha um estranho círculo na costas
quase o formato de um ovo

circundado de letras estranhas
de palavra nenhuma

as letras não formavam palavra
nenhuma, repito

mas como doíam

Talvez fosse o formato de um pião
eu penso no universo

a terra girando como um pião
no caos da galáxia

as letras ainda não faziam sentido
menos sentido ainda

e doíam ainda mais







quinta-feira, 18 de abril de 2013

CÂNTICO DA MANDRÁGORA








                                   CÂNTICO DA MANDRÁGORA
As mandrágoras exalam o seu perfume, e à nossa porta há todo tipo de frutos finos, secos e frescos, que reservei para você, meu amado.
                                            Cântico dos cânticos 7, 13


Vou lhe dar uma raiz de mandrágora
vamos deitar juntos até o amanhecer
inebriados pela raiz de mandrágora
até o amanhecer

O seu corpo tem a forma de uma raiz
de mandrágora
O meu membro tem a forma de uma
raiz de mandrágora

Como somos poderosos com o
elixir da mandrágora
































quinta-feira, 4 de abril de 2013

O DESPERTAR





O despertar


Branco. A inocência primeiro.
O despertar. O itinerário súbito.
E a germinação do sempre
e do nunca, do não em tua
mão sem lua em que se apoiar.

Momento atemporal: sal urze
de inconcebível marco alheio,
cego o veneno verde verdeja
o corpo branco negro: diamante?
estalactite brônzea: pó, só.

Rosa? Memória ardência:
o relógio tiquetaqueia
fulvos gemidos. Flor rosa?
Carne lambril: onde camaleões
faíscam, gotejam verdes cogumelos do tempo.




Um dos três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado, 1975, escrito em Duartina, SP, em 1971, junto a Gleba e Postura. 





terça-feira, 2 de abril de 2013

POSTURA (poema pioneiro)

                                    

           

POSTURA


A postura da rosa, solene, na alameda verde
deserta de respostas. Pássaros calcinados:
hóspedes de concreto seco, quedo no fundo
da memória. Sem passos o relógio dilui
os segundos malsinados da abstração
de tudo, sob o solo encharcado, sobre
as árvores e as suas formas de astros de outrora.
Anterior a rosa, pássaros, relógio, a safira
rodopia, dança, canta a pausa, o movimento,
o passado, o futuro, a ascensão, a queda: imóvel.

O tempo é um só: mutável é o corpo frágil.
Decifrado êxtase metálico: transitória quietude.
O tempo devora a pátina do sentimento.
A carne bruxuleia túmida ataraxia:
o vazio, a plenitude: e a luz mortiça
de lúcida transitoriedade / sensualidade.
O sino, o girassol: o tempo derruba
sua máscara de poeira. Asas de treva
batem palmas. O tempo é o tempo. É um deus
amarelo. É o que é preciso esquecer. O tempo
é o agora. O tempo é o nunca e sempre. É limitação
de paisagem: escuro espaço do nada.


Um dos três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado, 1975, escrito em Duartina, SP, em 1971, junto a Gleba e O Despertar.