quinta-feira, 4 de abril de 2013

O DESPERTAR





O despertar


Branco. A inocência primeiro.
O despertar. O itinerário súbito.
E a germinação do sempre
e do nunca, do não em tua
mão sem lua em que se apoiar.

Momento atemporal: sal urze
de inconcebível marco alheio,
cego o veneno verde verdeja
o corpo branco negro: diamante?
estalactite brônzea: pó, só.

Rosa? Memória ardência:
o relógio tiquetaqueia
fulvos gemidos. Flor rosa?
Carne lambril: onde camaleões
faíscam, gotejam verdes cogumelos do tempo.




Um dos três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado, 1975, escrito em Duartina, SP, em 1971, junto a Gleba e Postura. 





terça-feira, 2 de abril de 2013

POSTURA (poema pioneiro)

                                    

           

POSTURA


A postura da rosa, solene, na alameda verde
deserta de respostas. Pássaros calcinados:
hóspedes de concreto seco, quedo no fundo
da memória. Sem passos o relógio dilui
os segundos malsinados da abstração
de tudo, sob o solo encharcado, sobre
as árvores e as suas formas de astros de outrora.
Anterior a rosa, pássaros, relógio, a safira
rodopia, dança, canta a pausa, o movimento,
o passado, o futuro, a ascensão, a queda: imóvel.

O tempo é um só: mutável é o corpo frágil.
Decifrado êxtase metálico: transitória quietude.
O tempo devora a pátina do sentimento.
A carne bruxuleia túmida ataraxia:
o vazio, a plenitude: e a luz mortiça
de lúcida transitoriedade / sensualidade.
O sino, o girassol: o tempo derruba
sua máscara de poeira. Asas de treva
batem palmas. O tempo é o tempo. É um deus
amarelo. É o que é preciso esquecer. O tempo
é o agora. O tempo é o nunca e sempre. É limitação
de paisagem: escuro espaço do nada.


Um dos três primeiros poemas do meu primeiro livro, O Emparedado, 1975, escrito em Duartina, SP, em 1971, junto a Gleba e O Despertar.






sexta-feira, 29 de março de 2013

O ALEIJADINHO - VÍDEO






           O ALEIJADINHO


Deixei os pedaços da minha carne nas ladeiras de Ouro Preto.
Entre as pedras do calvário das ladeiras de Ouro Preto
Deixei os pedaços da minha carne e dos meus ossos.
Mutilado pelo divino, esculpo a forma do divino.

O meu coração é de pedra e rói como o ódio.
Eu trabalho o corpo de Deus, eu, o sem-corpo.
A pedra me obedece com uma fé cega.
Deixei um pedaço do meu nariz na pedra cega.

O cinzel amarrado no coto da minha mão
Faz saltar lágrimas e sangue da pedra muda.
A minha fronte, face e beiço estão grudados na pedra.

Talho a imagem de Deus à minha imagem.
A pedra sabe e fala sob o meu cinzel.
Do fundo do meu horror, olho para o céu – petrificado.



No meu livro O silêncio de Deus, 2009, p, 75.

Agora veja no vídeo de Domingos T. Costa: 



http://www.youtube.com/watch?v=Q8jUpKkFYvE&feature=em-video_response_received








segunda-feira, 25 de março de 2013

MORRER É FÁCIL





Morrer é fácil


Uma maldita garrafa de coca-cola explodiu,
me cortou o pulso
e a artéria radial
e jorrava sangue sem parar.

A minha mulher me levava para o Pronto-Socorro,
o carro a toda velocidade – e a vida cada vez mais lenta
dentro de mim.
Eu fechava os olhos e morria.

Eu aprendi que morrer é uma coisa
de nada – é só fechar os olhos
e não abrir.

Você não pensa em nada: só fecha os olhos
e apaga
como uma vela.